Certo dia, depois de um jogo do Santos, importante treinador brasileiro disse, a propósito do “menino” Neymar Jr.:
– Está na hora de educar esse rapaz, ou vamos criar um monstro.
O mesmo pode ser dito, mutatis mutandis, a respeito de outro menino desejoso de se tornar notável, ainda que, em termos de talento, não sirva sequer para lamber as chuteiras do famoso cai-cai.
DOMINGO, 10 DA MANHÃ
Deitado no carpete de barriga para baixo, Dallagnolzinho protagonizava um de seus costumeiros e barulhentos chiliques:
– Quero ser procurador da república! – berrava ele, socando com as mãozinhas fechadas e agitando os pezinhos em alvoroço.
A mãe fingiu não ouvir, o pai continuou lendo o jornal esportivo.
– Se meu pai pode ser procurador, por que eu não posso? – insistiu ele, suspendendo as hostilidades domésticas e encarando o pai.
– Você é muito novo, meu filho – argumentou a mãe. – Você só tem oito anos. Por que não para de reclamar e se diverte com seus brinquedos?
(Os brinquedos preferidos de Dallagnolzinho eram um exemplar da Bíblia, a balança da justiça e o martelo que os juízes usam para exigir silêncio no recinto dos tribunais.)
– Não quero brincaaaaarrr! Quero ser procurador de verdade!
– É quase a mesma coisa, meu filho – contemporizou a mãe. – Você brinca agora, estuda bastante e, quando crescer, vira procurador como o seu pai.
– Quero ser procurador hoje mesmo! – insistiu o garoto, continuando a socar com as mãos e a bater com os pés.
– Não pode, meu filho – explicou o pai. – Antes você precisa terminar o ensino fundamental e estudar mais alguns anos até se formar.
– Não preciso estudar nada!
NA HORA DO ALMOÇO
– Come a salada, Dallagnolzinho, é bom pra saúde – recomendou a mãe.
– Não quero salada. Quero é ser procurador.
– Se você não ficar grande e forte não poderá ser procurador – disse o pai.
– Come só o bife com batata frita – conciliou a mãe. – Assim você fica forte.
– Comendo bife posso ser procurador?
– Ainda não, mas sendo forte é mais fácil virar procurador.
– Tem boi que é procurador?
– Não, meu filho – respondeu pacientemente o pai. – Até hoje nenhum boi passou no concurso de procurador.
– E alguma vaca passou?
– Vaca de verdade, também não. Nem vaca, nem macaco, nem coruja, bicho nenhum passou.
– Nem o Rei Leão?
– Não. O Rei Leão nunca estudou direito e, por isso, não pode ser procurador.
– E se ele tivesse estudado direito, poderia?
– Poderia – concordou o pai.
DEPOIS DO ALMOÇO
Na sala, pai e mãe cochilavam vendo o programa do Faustão.
– Se o Faustão quiser, ele pode ser procurador?
– Se passar no concurso, pode.
– E pode levar essa mulherada com ele?
– Não. Só se elas passarem no concurso.
– E os caras do auditório, podem ir junto pra bater palma e gritar?
– Bater palma até que pode, mas gritar é proibido.
– Procurador não pode gritar?
– Só nos interrogatórios.
ENFIM, PROCURADOR
Aos 23 anos, Dallagnolzinho chegou à Procuradoria, depois que alguém driblou a lei para permitir seu acesso, criando um monstro, desta vez jurídico, como o futuro demonstraria.
Ou alguém acredita que, aos 23 anos, o “menino” Dallagnolzinho tinha alguma coisa na cabeça, além de um ego tão inflado quanto o de Neymar Jr.?
Comentários fechados.