Um dia na vida do garoto que sonhava ser procurador da república, por Sebastião Nunes

Alguém acredita que, aos 23 anos, o “menino” Dallagnolzinho tinha alguma coisa na cabeça, além de um ego tão inflado quanto o de Neymar Jr.?

Certo dia, depois de um jogo do Santos, importante treinador brasileiro disse, a propósito do “menino” Neymar Jr.:

– Está na hora de educar esse rapaz, ou vamos criar um monstro.

            O mesmo pode ser dito, mutatis mutandis, a respeito de outro menino desejoso de se tornar notável, ainda que, em termos de talento, não sirva sequer para lamber as chuteiras do famoso cai-cai.

 

DOMINGO, 10 DA MANHÃ

            Deitado no carpete de barriga para baixo, Dallagnolzinho protagonizava um de seus costumeiros e barulhentos chiliques:

            ­– Quero ser procurador da república! – berrava ele, socando com as mãozinhas fechadas e agitando os pezinhos em alvoroço.

            A mãe fingiu não ouvir, o pai continuou lendo o jornal esportivo.

            – Se meu pai pode ser procurador, por que eu não posso? – insistiu ele, suspendendo as hostilidades domésticas e encarando o pai.

            – Você é muito novo, meu filho – argumentou a mãe. – Você só tem oito anos. Por que não para de reclamar e se diverte com seus brinquedos?

(Os brinquedos preferidos de Dallagnolzinho eram um exemplar da Bíblia, a balança da justiça e o martelo que os juízes usam para exigir silêncio no recinto dos tribunais.)

– Não quero brincaaaaarrr! Quero ser procurador de verdade!

            – É quase a mesma coisa, meu filho – contemporizou a mãe. – Você brinca agora, estuda bastante e, quando crescer, vira procurador como o seu pai.

            – Quero ser procurador hoje mesmo! – insistiu o garoto, continuando a socar com as mãos e a bater com os pés.

            – Não pode, meu filho – explicou o pai. – Antes você precisa terminar o ensino fundamental e estudar mais alguns anos até se formar.

            – Não preciso estudar nada!

 

NA HORA DO ALMOÇO

            – Come a salada, Dallagnolzinho, é bom pra saúde – recomendou a mãe.

            – Não quero salada. Quero é ser procurador.

            – Se você não ficar grande e forte não poderá ser procurador – disse o pai.

– Come só o bife com batata frita – conciliou a mãe. – Assim você fica forte.

            – Comendo bife posso ser procurador?

            – Ainda não, mas sendo forte é mais fácil virar procurador.

            – Tem boi que é procurador?

            – Não, meu filho – respondeu pacientemente o pai. – Até hoje nenhum boi passou no concurso de procurador.

            – E alguma vaca passou?

            – Vaca de verdade, também não. Nem vaca, nem macaco, nem coruja, bicho nenhum passou.

            – Nem o Rei Leão?

            – Não. O Rei Leão nunca estudou direito e, por isso, não pode ser procurador.

            – E se ele tivesse estudado direito, poderia?

            – Poderia – concordou o pai.

 

DEPOIS DO ALMOÇO

            Na sala, pai e mãe cochilavam vendo o programa do Faustão.

            – Se o Faustão quiser, ele pode ser procurador?

            – Se passar no concurso, pode.

            – E pode levar essa mulherada com ele?

            – Não. Só se elas passarem no concurso.

– E os caras do auditório, podem ir junto pra bater palma e gritar?

            – Bater palma até que pode, mas gritar é proibido.

            – Procurador não pode gritar?

            – Só nos interrogatórios.

           

ENFIM, PROCURADOR

            Aos 23 anos, Dallagnolzinho chegou à Procuradoria, depois que alguém driblou a lei para permitir seu acesso, criando um monstro, desta vez jurídico, como o futuro demonstraria.

Ou alguém acredita que, aos 23 anos, o “menino” Dallagnolzinho tinha alguma coisa na cabeça, além de um ego tão inflado quanto o de Neymar Jr.?