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Por Fábio de Oliveira Ribeiro

Poltergeist 2015 e o terror da hierarquização geográfica

Há alguns dias publiquei aqui algumas referências ao filme Poltergeist de 1982 e ao terrorismo político diariamente praticado por uma certa rede de TV. Hoje falarei um pouco sobre a nova versão do filme de terror.

Poltergeist 2015 segue o roteiro do filme de Spielberg. Algumas alterações foram feitas na história, mas no geral os dois filmes são bem parecidos. Os efeitos especiais digitais conferem realidade ao irreal mundo paralelo dos mortos para o qual a menina é atraída e do qual ela é enfim salva. Quando tudo parece terminado, bum… o terror recomeça. Mas no fim tudo acaba bem.

A única coisa que me chamou atenção neste filme foi um diálogo. Durante um jantar, uma personagem secundária diz ao chefe da família que acabou de se mudar para a nova casa, que naquele local havia um cemitério. Esclarece que os mortos foram transferidos para um “bairro melhor”.

A referência ao “bairro melhor” é interessante. A expressão lembra os famosos “bairros nobres” exaltados pela imprensa brasileira em oposição às depreciadas “periferias” ou às “comunidades” (eufemismo politicamente correto que substituiu o termo favelas).

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Harry Potter e a teoria do campo político de Pierre Bourdieu

A globalização é um fenômeno econômico e cultural que produz ícones, modas e febres que se espalham rapidamente e que com igual velocidade são substituídas por outras. A tensão criada por um sucesso editorial global que é transposta para o cinema dificulta aos interessados em Literatura e Teoria Literária avaliar com distanciamento e profundidade obras que são vorazmente consumidas por adolescentes em quase todos os países. É preciso a onda ter passado para se poder meditar sobre o que cada obra significa ou pode significar. É o que farei aqui.

Harry Potter é um personagem que dispensa apresentação. Todos o conhecem dos livros ou dos filmes. Há 193 milhões de referências no Google associadas a este personagem. O aspecto que mais me interessou nos livros/filmes foi a existência de dois campos distintos com regras distintas e que no entanto pertencem ao mesmo universo literário criado pela autora: de um lado os mágicos (entre os quais Harry Potter se encontra), de outro as pessoas normais (chamados de trouxas).

Para analisar a articulação entre os dois campos fictícios criados por J. K. Rowling recorrerei à teoria dos campos de Pierre Bourdieu. Em seu livro “O Poder do Simbólico”, ao se referir ao campo político, o autor francês é bem preciso. Ele afirma que o "...campo político é o lugar em que se geram, na concorrência entre os agentes que nele se acham envolvidos, produtos políticos, problemas, programas, análises, comentários, conceitos, acontecimentos, entre os quais os cidadãos comuns, reduzidos ao estatuto de 'consumidores', devem escolher, com probabilidades de mal-entendido tanto maiores quanto mais afastados estão do lugar da produção."

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"A entrevista": guerra e cinema juntos misturados

O novo conflito entre EUA e Coréia do Norte não é apenas ridículo, é preocupante. A disputa começou porque a Sony Pictures estava produzindo uma comédia em que o líder norte-coreano seria vítima de uma tentativa de assassinato. Um grupo de hackers invadiu os servidores da empresa e provocou um prejuízo de 100 milhões de dólares http://tecnologia.ig.com.br/2014-12-19/obama-diz-que-coreia-do-norte-e-culpada-por-ataques-de-hackers-contra-sony.html. Investigando o episódiol, o FBI teria descoberto que o ciberataque foi executado por norte-coreanos e com a utilização de servidores do governo daquele país. Obama imediatamente passou a acusar o governo da Coréia do Norte de ter ordenado o ataque.

A Sony Pictures é uma empresa privada e suas atividades são regidas pelo Direito Internacional Privado. Caso tenha prejuízo em razão da ação de terceiros deve recorrer às medidas judiciais cabíveis e aguardar a solução do conflito judicial. Os responsáveis devem ser processados com base na legislação internacional e na legislação nacional do país em que eles vivem. Os EUA é uma pessoa jurídica de direito público, suas relações com outros Estados são regidas pelo Direito Internacional Público. A confusão jurídica entre Sony Pictures e EUA - e entre os dois ramos do Direito Internacional - não existe e não deveria ser estimulada pelo governo norte-americano. Mas foi exatamente isto o que ocorreu. Barack Obama tratou o ciberataque a uma empresa privada como se fosse um caso de “segurança nacional”.

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"Norte-americanos também torturam?", grande novidade

Esta semana jornalistas espantados noticiaram o relatório das torturas patrocinadas pela CIA. Como isto pode ocorrer? - perguntaram os críticos da tortura que defendem a eterna superioridade moral dos EUA. Em tempo de guerra os exageros são naturais! - afirmam aqueles que apóiam a tortura sem ter coragem de dizer abertamente que acreditam na justiça da barbárie.

Em primeiro lugar é preciso dizer que o compromisso discursivo dos EUA com os direitos humanos é coisa recente. Começou na administração Jimmy Carter. Antes daquele presidente democraca, a questão nem sequer era objeto de preocupação nos EUA. Afinal, os norte-americanos sentiam orgulho de terem exterminado índios e torturado escravos negros durante séculos. Desde a Guerra Hispano-Americana até a Guerra do Vietnã (e mesmo em guerras menores que ocorreram nas últimas décadas), de uma maneira ou de outra os soldados norte-americanos torturaram civis, militares prisioneiros no estrangeiro. Os métodos empregados pelos assassinos e torturadores a soldo dos EUA são bem conhecidos e estão fartamente documentados nos livros e na internet.

Jimmy Carter tentou inaugurar a fase do império piedoso e humanitário. O que ele conseguiu foi algo bem diferente: a institucionalização da hipocrisia. Desde a administração Carter todos os presidentes se disseram comprometidos com os direitos humanos, inclusive aqueles que encomendaram e comandaram guerras externas ou fomentaram ditaduras brutais na América Latina, África e Ásia. Alguns dentre os últimos habitantes da Casa Branca chegaram a acusar de violação de direitos humanos governos estrangeiros considerados inamistosos que seriam atacados por Exércitos humanitários norte-americanos. O resultado é bem conhecido: estupros em massa, tortura registrada em fotos e vídeos, execução sumária e à distância de inocentes considerados suspeitos, etc...

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FHC, de "príncipe da sociologia" a "rei da hipocrisia"

 

Ontem o Jornal da Gazeta veiculou matéria sobre a Operação Lava Jato dando grande destaque ao fato de FHC ter dito que está envergonhado do que ocorre no Brasil. Sobre o passado do próprio FHC nada foi dito pelos telejornalistas.

FHC é suspeito de ter mandado comprar votos parlamentares para garantir a aprovação da Emenda Constitucional que possibilitou a sua reeleição.  Com ajuda da imprensa, ele se apropriou da paternidade do Plano Real, o qual foi concebido por outras pessoas durante a gestão de Itamar Franco. Todos os membros da equipe de FHC enriqueceram de maneira não muito honesta durante a troca da moeda (episódio contado em detalhes por Luis Nassif em seu livro “Os Cabeças de Planilha"). A escandalosa venda de estatais a preço de banana durante o governo FHC é objeto de suspeitas até os dias de hoje e já rendeu vários livros. Durante o governo dele as denuncias de corrupção eram sumariamente arquivadas pelo Procurador Geral da República e a PF era absolutamente inoperante.

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20 anos do "Plano Real" e 7 anos de "Os Cabeças-de-Planilha"

A imprensa comemora as duas décadas do Plano Real. Pessoalmente, prefiro comemorar os 7 anos do livro de Luis Nassif que desvendou os mecanismos utilizados pelos gestores do Plano Real para enriquecer com a troca de moeda exatamente como Rui Barbosa e seus acessores fizeram durante o Encilhamento. Em homenagem aos 20 anos do Plano Real, portanto, republico aqui a resenha que fiz do livro "OS CABEÇAS-DE-PLANILHA". Leia mais »

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A verdadeira disputa na economia

A verdadeira disputa, Nassif, não é entre PIB e Indicadores Sociais. Estas são duas coisas complementares, não havendo qualquer justificativa racional para considerar fracassado um governo que manteve um crescimento pequeno ou moderado num contexto de crise financeira e recessão nos EUA, UE e Japão. O que está em disputa no Brasil neste momento é o bom senso da população que elegeu este governo com base na soberania popular e a vontade irracional de uma minoria que acredita ter o privilégio de dizer qual será o rumo do país porque controla a imprensa ou tem seu apoio.
 
O Brasil tal como pode ser representado rebela-se abertamente contra o Brasil real/constitucional. Isto explica, por exemplo, os incidentes de justiçamento nas ruas do Rio de Janeiro e sua representação/legitimação pela telejornalista do SBT. 
 
Há uma crise de legalidade no país? Não, não há. As instituições brasileiras funcionam de maneira satisfatória, mas para alguns isto é intolerável. Leia mais »
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Fofocas sobre o Lulu

A carreira de Mark Zuckerberg começou com uma brincadeira de mau gosto, o Facemash.com. Através deste website os interessados podiam escolher entre as fotos das garotas da universidade em que ele estudava, ranqueando-as conforme a aparência. Segundo a lenda este website teve uma quantidade tão grande de acessos que derrubou toda a rede de computadores da universidade. O resto é história. Zuckerberg criou o Facebook se tornou bilionário e até fez um filme contando rapidamente a história do Facemash.com.

A polêmica do Facemash.com ajudou a construir a carreira de Zuckerberg e inspirou recentes inovações. Exemplo disto é o Lulu, aplicativo para celular que permite ranquear os garotos atribuindo-lhes notas e comentários. A semelhança entre o Lulu e o Facemash.com é evidente, mas ao contrário de seu ancestral o Lulu chegou rapidamente ao Brasil e detonou uma disputa judicial. Esta disputa ainda não acabou e cada um dos lados tem bons argumentos, pois o caso diz respeito ao conflito entre dois direitos fundamentais garantidos pela constituição federal:  direito de opinar x  direito à privacidade.

Nenhum destes aplicativos é realmente inovador. O que eles fizeram foi apenas e tão somente informatizar a boa e velha fofoca praticada entre homens e mulheres desde que os seres humanos adquiriram a linguagem. A fofoca, o Facemash.com e o Lulu visam a mesma coisa: o compartilhamento de informações/opiniões sobre um parceiro em potencial. Todavia, ao invés de reduzir a incerteza as informações/opiniões obtidas de terceiros somente amplificam a mesma pelo efeito da cacofonia e do acréscimo/subtração.

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Pierre Levy, Paul Virilio e Bill Gates antes e depois de Snowden

 

 

Há algum tempo resenhei três livros considerados fundamentais para aqueles que pretendem navegar no oceeano da cibercultura. Refiro-me às obras Cibercultura (Pierre Levy), A estrada do futuro (Bill Gates) e O Espaço Crítico (Paul Virilio). Os dois primeiros adotam uma perspectiva otimista em relação à internet e aos fenômenos sociais que ela desencadeou. O terceiro é bastante pessimista em relação a ambas.

 

As três resenham foram divulgadas há vários anos. Na oportunidade eu mesmo adotava uma perspectiva bastante otimista em relação a internet. As reveleções feitas por Snowden me obrigaram a rever minhas posições. Deixei de ser um entusiasta da internet.

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A Googlelização de Tudo - resenha do livro de Siva Vaidhyanathan

Antes de Snowden revelar que o Google forneceu e fornece terabites de informações sobre seus usuários para a NSA, os diretores da empresa costumavam dizer que a mesma era uma corporação do bem. Todavia, além de servir aos propósitos escusos do governo deu seu país, o Google é e sempre foi uma companhia com um propósito definido: obter o máximo de lucro com o mínimo de custo.

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A Política e sua negação jornalística

Antes de discutir Política é preciso definir o que significa este termo. Todos os filósofos e cientistas sociais que se debruçaram sob o tema definiram Política à sua maneira com maior ou menor amplitude. Alguns deles até negaram sua existência ou necessidade, outros defenderam a superação do conflito político das classes pela administração das coisas.  Hannah Arendt costumava dizer que a Política é aquilo que existe no espaço comum voluntariamente criado por pessoas diferentes. Este espaço é frágil e pode ser alargado, com aumento da liberdade e da igualdade. Mas também pode ser destruído. Quando o espaço da Política  deixa de existir resta apenas a guerra e a terra devastada que separa inimigos irreconciliáveis. Leia mais »

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Celso de Mello entre o casuísmo e o Estado de Direito

Já disse em outra oportunidade que Celso de Mello foi transformado num verdadeiro sacrificador dos petistas:
http://ajusticeiradeesquerda.blogspot.com.br/2013/09/celso-de-mello-e-o-sacrificio-ritual.html

Ao proferir seu voto hoje ele ficará entre duas opções bastante distintas. Ele pode acelerar a implantação do Estado de Direito, permitindo aos odiados réus petistas terem direito a um recurso que todos os outros réus tiveram, têm e terão se não forem petistas. Pode também nos fazer voltar ao tempo em que dominava a "tradição personalista" herdade da cultura Portuguesa e Espanhola, sobre a qual Francisco Weffort escreveu as seguintes palavras:

"Marcando nítidas diferenças com a cultura dos países que se formaram além-Pirineus, os hispânicos valorizavam as pessoas dando menor importância 'à verdade das coisas, fundada em uma lógica impessoal'. Não é difícil reconhecer nessa valorização da pessoa a gênese do 'homem cordial' dos escritos de Sérgio Buarque de Holanda sobre as origens do Brasil. Encontra-se aí a raiz fundamental da subvalorização das normal e das leis, típica da cultura brasileira e hispano-americana em geral. Daí também que os jesuítas discípulos do espanhol Inácio de Loyola, tenham inventado o casuísmo que, como as subculturas do 'jeitinho brasileiro" (ou do 'arreglo' argentino), do golpismo, do caudilhismo (e dos 'pronunciamentos'), é tão frequente até os dias atuais na política ibero-americana. Baseado não em princípios gerais mas em interesses e circunstâncias particulares, o casuísmo foi visto pelo francês Blaise Pascal, católico jansenista e anti-jesuíta, como um sinal de imoralidade." (ESPADA, COBIÇA E FÉ - As origens do Brasil, Editora Civilização Brasileira, 2012, p. 70).

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