O Brasil não pode parar de proteger a vida dos seus cidadãos, por Francisco Celso Calmon

O dragão das maldades do povo brasileiro, Paulo Guedes, perguntaria de onde viria esse dinheiro? Respondemos: viria de quem tem muito, de quem concentra renda.

Marcelo Camargo - Agência Brasil

O Brasil não pode parar de proteger a vida dos seus cidadãos

por Francisco Celso Calmon

Seiscentos reais de caridade é uma migalha, é um deboche à sobrevivência, é uma atitude cosmética, parece uma ajuda e na verdade é o prolongamento da vulnerabilidade; o dobro, 1200,00, como base, seria razoável; destarte, o parlamento, e a esquerda em particular, deveriam ter acanhamento de estar disputando com o governo a autoria ou o protagonismo desse minguado projeto .

A democracia do Brasil tem dois inimigos históricos: as Forças Armadas e a concentração de renda. 

O primeiro tem uma trajetória antidemocrática e enamorada do fascismo. Sua biografia não é digna nem de admiração e nem de respeito, a guerra do Paraguai e a presença no Haiti são exemplos deprimentes da participação das Forças Armadas no exterior. 

As FFAA protagonizaram 9 golpes no país e mais algumas tentativas mal sucedidas. Esteve 21 anos governando com plenos poderes e foi uma catástrofe política, social e um fiasco econômico. Nem fechando o Congresso, censurando a imprensa, torturando e matando opositores, nem arrochando o salário dos trabalhadores e favorecendo o lucro e a renda dos mais ricos, conseguiu levar o país à realização dos seus imensos potenciais.

Em um ano e três meses desse governo militarizado, o rastro de insucesso na gestão pública só aumenta.

A segunda causa é a concentração de renda, uma das maiores do mundo. Uma concentração que leva 80% da riqueza a ficar na mão de 10% e de 30% ficar com 1% da população, é vergonhoso, impiedoso, revoltante. Enquanto 70% da população vive de razoável padrão de consumo à miséria absoluta, isso torna o país insustentável, gerador de tensões internas e desapreço dos países socialmente civilizados. 

A concentração de renda impede a coexistência pacífica entre as classes, colocando uns poucos na estratosfera da fortuna e a maioria na base da pirâmide da riqueza nacional. A elevadíssima desigualdade social é fator de instabilidade para o desenvolvimento do país e de não aproveitamento das potencialidades do povo brasileiro.

Os países com PIBs maiores e com renda per capta superiores às do Brasil estão destinando 12, 15, 30 por cento para combater a pandemia. Como o Brasil tem essa altíssima concentração de renda e elevado contingente de vulneráveis econômicos – 50 milhões, o percentual do PIB brasileiro deveria ser muito maior do que esses 10 ou 15%, para realmente atenuar a tragédia que está à vista, provocada pela pandemia e recessão econômica. 

O governo deveria destinar 30% do PIB para salvar a vida do povo brasileiro, e , por outro lado, estaria movimentando a economia, pois esses recursos são para adquirir insumos e consumos para a saúde e para matar a fome, isto é: iria para aquisição de material e instrumentos da saúde, higiene e alimentos  necessários, sobretudo, para os mais necessitados.

O dragão das maldades do povo brasileiro, Paulo Guedes, perguntaria de onde viria esse dinheiro? Respondemos: viria de quem tem muito, de quem concentra renda. De acordo com algumas pesquisas, somos o 9º país mais desigual do mundo e o 4º na América Latina, índices que deveriam envergonhar a todos. 

Segundo o G1 da Globo, a lista dos 10 brasileiros mais ricos em 2019:

Jorge Paulo Lemann: R$ 104,71 bilhões (bebidas e investimentos); Joseph Safra: R$ 95,04 bilhões (setor bancário); Marcel Herrmann Telles: R$ 43,99 bilhões (bebidas e investimentos); Eduardo Saverin: R$ 43,16 bilhões internet); Carlos Alberto Sicupira e família: R$ 37,35 bilhões (bebidas e investimentos);André Esteves: R$ 20,75 bilhões (setor bancário);Luiz Frias: R$ 20,34 bilhões (pagamentos móveis e mídia);Joesley Batista R$ 14,78 bilhões (alimentos);Wesley Batista: R$ 14,78 bilhões (alimentos);Candido Pinheiro Koren de Lima: R$ 13,82 bilhões (saúde). 

A fortuna somente desses 10 bilionários totaliza aproximadamente 500 bilhões, que poderia ser taxada em 30%, e os que detêm patrimônio acima de 10 milhões serem taxados a partir de 1% até os 30%. Contribuição provisória enquanto durar a pandemia, pelo menos.

Numa guerra convencional, ou não-convencional como esta, o governo pode emitir papel-moeda e após o seu final acertar a economia, em muitos casos até alavancando-a, como ocorreu com os EUA após a segunda guerra mundial.

A passo de cágado para implementar as migalhas para enfrentar a guerra contra o covid 19, torna o governo aliado preferencial do coronavírus. Nesta guerra o governo bolsonarista está atuando como um quinta-coluna.

Bolsonaro é um ideólogo da morte e um genocida seletivo. Não de agora, mas desde a caserna, quando fez planos para explodir gasodutos, e no Congresso quando pregava exterminar trinta mil esquerdistas e enaltecia o torturador e assassino Brilhante Ustra. 

Como Trump que no meio de uma crise humanitária mundial sem precedentes aproveita para implementar o imperialismo belicista e expansionista para lucrar, o ministro Paulo Guedes também se aproveita para tirar vantagens e saciar o apetite insaturável de lucros do capitalismo de desastre. 

A sociedade brasileira tem demonstrado um altruísmo e solidariedade exemplares na ajuda aos desassistidos e vulneráveis, inclusive doando até para hospitais. Enquanto a parcela rica se mantém silenciosa, provavelmente com suas bundas mal cheirosas sentadas sobre suas burras. 

Essa solidariedade social está ajudando um pouco pela rapidez, exatamente porque o Estado, que tem por obrigação proteger a vida dos seus cidadãos, está fornecendo migalhas e de forma lenta, para que quando as migalhas chegarem ao destino muitos já tenham morrido. 

A ditadura militar não só torturou e matou os opositores, como também jogou mendigos de helicópteros nos mares e rios do Brasil. 

O bolsonarismo prega e implementa, objetivamente, o genocídio seletivo para miseráveis, pobres e idosos. O extermínio dos judeus nos campos de concentração também seguiu uma seleção, e no final ninguém escapava. As inspirações do bolsonarismo continuam coerente com o nazifascismo.

O futuro econômico do país, combinado com os resultados da pandemia, será muito mais trágico do que a nossa imaginação admite, pois o PIB será reduzido entre 5 e 7%, e como em qualquer recessão quem mais perde são os que nada ou pouco têm.

 Somente um outro governo terá condições de minimizar o arrasamento econômico que se avizinha.

Bolsonaro está virando o bode na sala, fede e fede muito, e parte dos que o colocaram lá agora querem tirá-lo. A questão é como e qual será o segundo passo? 

O mais sensato e viável, consoante à correlação de forças, para evitar a explosão da panela de pressão – que levará a saques e depredações, é a saída do Bolsonaro da presidência , seguida de eleições em no  máximo seis meses; cronograma que poderia coincidir com o controle da pandemia no país, oxalá dezembro deste ano de 2020.

A saída pactuada teria potencial de pacificar conjunturalmente o Brasil e o novo governo reorganizar a economia e recolocar a política num patamar de convivência democrática até que seja realizado um novo pacto através de uma Constituinte.   

Ninguém pode se calar diante do sociopata do genocídio social, portanto, defender a vida é lutar pela interdição do Bolsonaro, já! 

Francisco Celso Calmon é Advogado, Administrador, Coordenador do Fórum Memória, Verdade e Justiça do ES; autor do livro Combates pela Democracia (2012) e autor de artigos nos livros A Resistência ao Golpe de 2016 (2016) e Comentários a uma Sentença Anunciada: O Processo Lula (2017).

4 comentários

  1. Para o Ministério da “Economia dos Banqueiros”, estes últimos estão em primeiríssimo lugar como “cidadãos do mercado” que é o que importa, acompanhados, por companheirismo, dos especuladores. Em segundo lugar vêm os empresários em geral, começando pelos grandes, em ordem decrescente de importância. Os trabalhadores são apenas um exército de “colaboradores” na concentração imoral de riquezas no mercado financeiro parasita. Claro, os do alto escalão devem também atuar ideologicamente como capatazes. O resto, desempregados ou subempregados, são um contingente que só faz atrapalhar e que seria melhor se desaparecesse. E muita gente preocupada com as palhaçadas intencionais de Bolsonaro para desviar a atenção.

  2. O retrato histórico e o cenário atual estao muito bem descritos pelo Autor. E é aterrador como somos capazes de reincidir nos erros e aprofundar nossa desigualdade vergonhosa. É urgente dar um basta imediato a esse governo genocida, paupericidade! É urgente voltarmos à civilidade!

  3. um texto que mostra a natureza do bolsonarimo e o governo bolsonaro e sua capilariedade na sociedade , a forte concentração de renda só é possivel em um governo facista o mesmo nazista do tipo que vivemos no pais , vivemos um choque de civilização , no caso brasileiro o fim da nossa republica pós 88.,
    o calmon tem um profundo conhecimentos da lutas pela democracia no pais alem do conhecimento economico e politico
    proponho sr luis nassif uma entrevista na tv ggn que sera bem enriquecedor ao debate em defesa
    da democracia em nosso pais
    jose luiz saavedra baeta
    comite popular de santos memoria verdade e justiça

  4. É inacreditável, desumano até, a forma como esse (des)governo vem tratando a pandemia no nosso país. Teremos conhecimento de uma explosão de casos e mortes quando for possível a realização dos testes para diagnóstico da doença. Mas a impressão que temos é que não fazem a testagem para ficarmos com a impressão de que não há razões para o isolamento social e que o presidente têm motivos para não admiti-lo. Afinal, o astrólogo da Virgínia é quem orienta “cientificamente” a choldra.
    Simples assim. Estamos à deriva!

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