O vírus do negacionismo, por Claudio Angelo

Extrema-direita repete com a Covid-19 os manuais das operações da indústria fóssil contra a ação climática e dos evangélicos contra Darwin.

Comissão de Educação, Cultura e Esporte (CE) realiza audiência pública com o ministro de Estado da Cidadania para que apresente as diretrizes e os programas prioritários de sua pasta. ..À mesa em pronunciamento, ministro de Estado da Cidadania, Osmar Terra. ..Foto: Roque de Sá/Agência Senado

do Direto da Ciência

O vírus do negacionismo

No último fim de semana, minha bolha no Twitter foi tomada pelas repercussões de uma postagem do deputado federal e ex-ministro da Cidadania Osmar Terra (MDB-RS), contendo uma alegação extraordinária: a de que a quarentena dos cidadãos imposta na Itália não havia tido efeito algum sobre a pandemia – e a prova seria que o número de casos e mortes no país europeu aumentara após a imposição do “lockdown”.

O post, e outros subsequentes nos quais Terra recorria ao antigo sortilégio de mentir com estatísticas, teve milhares de compartilhamentos e ganhou uma previsível avalanche de contestações da comunidade baseada em realidade, entre elas a da advogada Gabriela Prioli, a arquetípica fada sensata. As contestações faziam valer o apelido dado ao ex-ministro de Osmar Terra Plana.

O que mais me chamou atenção, porém, foi uma pequena marca discursiva nas postagens de Terra e de seus apoiadores: o que o médico gaúcho estava apresentando nada mais era do que um “ponto de vista diferente”, uma “opinião diferente”, que estava sendo interditada pelos “histéricos”. Veja, por exemplo, o tuíte do deputado José Medeiros (Podemos-MT) – aquele que já chamava garimpeiros e madeireiros ilegais de “trabalhadores injustiçados” antes de isso virar política pública:

Déjà-vu

A “outra abordagem” de Osmar Terra ganhou nesta segunda-feira o alto da página de opinião da Folha de S.Paulo, que publicou artigo do ex-ministro, com duas demãos de verniz científico, atacando o isolamento social. O leitor descobre que Jair Bolsonaro, longe de ser um jumento irresponsável que age por impulso, desconectado das recomendações da ciência e de todos os governantes do mundo exceto os da Bielorrússia e do Turcomenistão, é um líder com “coragem” de ir “contra uma correnteza de pânico”. Para não deixar dúvida sobre sua intenção de expor o “ponto de vista diferente”, a Folha deu destaque ao artigo em sua capa.

Se você acha que já viu esse filme antes, é porque viu. Trata-se de uma estratégia antiga e bem-sucedida de minar consensos científicos emergentes ao transformá-los num “debate legítimo” entre opiniões igualmente válidas.

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Essa estratégia foi aplicada pela primeira vez nos anos 1950, quando a indústria do tabaco dos EUA desenvolveu um manual de relações-públicas para reagir ao corpo de evidências científicas que ligavam o fumo ao câncer. Este envolvia contratar “cientistas” contrários, alguns deles com credenciais sólidas (em outras áreas), achar brechas nas pesquisas que pudessem servir de base para contestações, distorcer a interpretação de números e financiar a produção e a publicação de estudos enviesados que pusessem em dúvida o que a imensa maioria da ciência séria concluía.

Exército de negacionistas

A ideia nunca foi propriamente ganhar o debate suplantando as evidências ou encontrando falhas que derrubassem o consenso científico; o objetivo da quizumba era a própria quizumba (“a dúvida é o nosso produto”, declarava um célebre memorando das empresas em 1969, que empresta o título ao livro espetacular de Naomi Oreskes e Eric Conway, “Mercadores da Dúvida”, de 2010, sobre a indústria do negacionismo). Foi usada para negar a ligação entre CFCs e o buraco na camada de ozônio, nos anos 1980. E foi adaptada por evangélicos no final dos anos 1990, também nos Estados Unidos, para forçar o ensino do criacionismo nas escolas, sob o slogan “teach the controversy” (“ensine a controvérsia”), que equiparava pseudociência de inspiração bíblica com a teoria da evolução. O objetivo declarado era meter uma “cunha” no darwinismo a fim de derrotar “o materialismo científico e seus legados destrutivos”. O documento-síntese da iniciativa foi batizado de Estratégia da Cunha.

Mas em nenhum lugar o manual do tabaco brilhou tanto – nem causou tanto estrago – quanto na campanha movida a partir dos anos 1990 pelas indústrias do carvão mineral e do petróleo para desacreditar a ciência climática e barrar a ação contra o aquecimento global. Um exército bem financiado de negacionistas se dedica há três décadas a garimpar e amplificar, na narrativa, os buracos no corpo de evidências a sugerir que atividades humanas estão superaquecendo a Terra. Aproveitando-se do fato inerente à atividade científica de que todo conhecimento é incompleto e provisório, o negacionismo sequestrou o debate público sobre clima, distorcendo evidências acachapantes (e mais do que suficientes para embasar ação) e levando líderes políticos ao seu território favorito, o da catimba.

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‘Ponto de vista diferente’

A imprensa não falhou uma vez sequer em cair no truque: afinal, a boa prática jornalística reza que toda história tem um “outro lado”, e editores sem o ferramental teórico para decidir que um desses “lados” simplesmente não tinha razão sempre acharam melhor expor o “ponto de vista diferente”, porque, né, o leitor tem o direito de saber, vai que tudo isso é uma grande conspiração.

Essa fraude intelectual maciça teve duas consequências nefastas: primeiro, permitiu que chegássemos em 2020 a quase 1,2ºC de aquecimento global em relação à era pré-industrial, basicamente condenando o esforço de limitar esse aquecimento a 1,5ºC como preconiza o Acordo de Paris. Segundo, tirou tempo e saúde mental dos cientistas do clima, lançados pelados e sem armas na ágora para enfrentar o leão da comunicação pública (spoiler: foram devorados). Ao ponto de frequentemente os climatologistas incorrerem em autocensura, dourando a pílula das próprias conclusões para não soarem “catastrofistas”.

A ascensão da extrema-direita nos Estados Unidos a partir de 2009, num balaio que incluía as viúvas da Guerra Fria, o establishment da velha indústria e o fundamentalismo cristão, deu ao negacionismo a chance de sua vida: para que influenciar o governo quando a gente pode ser o governo? Isso enfim ocorreu em 2016. O resto é história.

 

‘Cuestão’ canalha

O atual regime brasileiro, como espelho do Mundo Bizarro do trumpismo (formado por aliança análoga entre militaristas, evangélicos e a escória do setor privado), é terreno fértil para os negacionismos. Há um negacionista climático cuidando da política externa, outro cuidando do Meio Ambiente e um criacionista decidindo sobre bolsas de pós-graduação. Todos falando em “pluralidade de visões” e chamando os defensores do consenso de “autoritários”. Chupa essa uva.

Como o Brasil não se cansa de ultrapassar o limite do surreal, agora ganhamos também um incrível negacionista da pandemia, na figura de autoridade do doutor Osmar Terra, O Médico. Chega a ser comovente que um sujeito que deu um piti e censurou um estudo de R$ 7 milhões por discordar de seu resultado venha encher a boca para falar de “histeria” e “pontos de vista diferentes”. Mas eis a mágica: hoje ou amanhã algum cientista revoltado vai mandar outro artigo à Folha contestando Terra no mérito. E, Shazam! está criado um debate. Dúvida incutida na cabeça do povo. Quizumba estabelecida. Vitória de Bolsopai e de seus Bolsofilhos Vírion, Capsídeo e Envelope.

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Como escrevi alhures, a realidade da Covid-19 essencialmente condena o negacionismo da doença e das duras medidas contra ela a um cheque de realidade representado por filas de corpos insepultos e caminhões frigoríficos servindo de morgues. Donald Trump que o diga. A “cuestão” especialmente canalha da estratégia negacionista é que qualquer resultado melhor que 1 milhão de mortes no Brasil será apropriado pela narrativa bolsolavista – se seus porta-vozes sobreviverem eles mesmos à pandemia, dúvida legítima caso sigam em suas vidas privadas o mesmo que recomendam ao populacho – como prova de que o remédio foi exagerado, e não como sinal de sucesso das medidas de mitigação. Por enquanto estão quebrando a cara, já que três quartos da população apoiam as medidas de isolamento.

A ver o que revelarão as próximas semanas dessa série de terror que estamos sendo obrigados a maratonar.

* CLAUDIO ANGELO é coordenador de Comunicação do Observatório do Clima e autor de “A espiral da morte: como a alterou a máquina do clima” (Companhia das Letras, 2016).

** Os artigos de colaboradores não exprimem necessariamente a opinião de Direto da Ciência, e são publicados com os objetivos de promover o debate sobre a ciência, a cultura, o meio ambiente e o ensino superior e de refletir a pluralidade de ideias sobre esses temas.


Na imagem acima, o deputado federal Osmar Terra, em março de 2019, então no cargo de ministro de Estado da Cidadania, em audiência na Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado. Foto: Roque de Sá/Agência Senado.

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2 comentários

  1. Muito bom. A teoria da quizumba é mais um bom nome para o diversionismo ou, como prefiro, distracionismo, que em português não se confunde com diverso ou diversificação.
    O resto é milicianismo, seja ele o do crime (preferido dos zeros à esquerda) ou aquele mais politico, nazista paramilitar (vade retro!).
    A ordem é: não tendo argumentos, criam quizumba, paralisam o debate, partem para os xingamentos e (se estiverem em vantagem) saem na porrada.

  2. Bolsonaro não é uma rainha da Inglaterra, tampouco uma figura decorativa. Ele age, com método, é consciente da sua base de apoio, movimenta-se para preservá-la, seja por declarações (para arrebanhar o meio evangélico pentecostal e sua vertente neo, além do patriarcado social de nossa população) seja por ações (para mostrar as elites industriais, financeiras, ruralistas que ele, o presidente, está sensível a suas demandas), não nos esqueçamos dos militares, especificamente as polícias militares, cujos movimentos internos recentes, muito provavelmente, foram fomentados e organizados por base bolsonarista). O bolsonarismo é um movimento que será duradouro…por quê? Saindo Bolsonaro, o Jair, ainda restam, no mínimo, o 01, 02 e 03, foram seus aliados, o personalismo dominou, domina e ainda vai dominar a vida política brasileira, passou pelo populismo no passado, consolidou-se com Lula e pega carona na onda Bolsonaro.
    Como disse, Bolsonaro não age tresloucadamente, não age de forma aleatória, ele tem método, e o seu objetivo é medir a temperatura política após cada movimento seu, ele prioriza o ensaio antes de tomar alguma decisão, é precavido. Não nos enganemos, ele é consciente do seu poder e de sua influência, sendo autoritário como é, não permitirá ser tutelado por militares ou quem quer que seja. Quanto observa alguém que possa lhe fazer sombra, frita e descarta publicamente, tal qual Stalin que destruia a reputação dos seus inimigos para, logo depois, mandá-los para o gulag, pra sorte destes, nesses tempos ainda não chegamos a tanto, ficamos só pela desmoralização pública.
    Não se enganem, Bolsonaro conhece sua força, e vai usá-la para conseguir os seus fins. Os demais agentes políticos, seus opositores, ainda não descobriram uma forma de pará-lo, fica uma sugestão: cortar-lhe a voz, a visibilidade, mesmo a seus crimes, e centrar foco em pessoas que possam fazer frente a ele (novamente o personalismo), o problema é, para o campo progressista, e fica para os nomes disponíveis: Moro, Dória, Witzel, qualquer lado que vier a direita tem nomes alternativos ao capitão, e a esquerda?

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