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sábado, agosto 15, 2020
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    RTP acolhe informação falsa sobre pandemia no Brasil e não apresenta correção à altura, por Sylvia Debossan Moretzsohn

    Uma denúncia de fraude. Porém, uma denúncia falsa, que a RTP assumiu como verdadeira, talvez sem perceber que ela se insere numa estratégia de desinformação sistemática, e com isso contribuiu para alimentá-la.

    Pandemia da Mentira: "a gente vai arrumando as coisas (e os números) devagar aqui" Créditos: ildo.nascimento.31 (Instagram).

    da objETHOS

    RTP acolhe informação falsa sobre pandemia no Brasil e não apresenta correção à altura

    por Sylvia Debossan Moretzsohn

    Uma reportagem da RTP baseada numa informação falsa sobre registros de morte por Covid-19 no Brasil, e a maneira pela qual ela foi retificada, são exemplos que sustentam uma discussão sobre ética em relação à escolha de fontes, ao tratamento que se deve dispensar a elas quando induzem o jornalista a erro ou quando o jornalista opta por valer-se de informações duvidosas, e à própria política de correção de erros de uma empresa jornalística. Tudo isso envolve, é claro, a questão da credibilidade. Mas também expõe um problema central, que é o de informações fruto de redes de fake news serem acolhidas por um canal público de televisão.

    No dia 21 de junho, o Telejornal, da RTP1, o mais importante do principal canal público de televisão em Portugal, veiculou reportagem do correspondente no Rio de Janeiro segundo a qual hospitais brasileiros estariam registrando como Covid-19 a causa da morte de pacientes que não teriam a doença. O motivo: receber verba que o governo federal estaria destinando especificamente a esses casos.

    Embora o termo não tenha sido empregado, tratava-se evidentemente de uma grave denúncia de fraude, que não apenas implicaria a distorção das estatísticas sobre a doença – coerentemente com o que o presidente Bolsonaro e seus apoiadores alardeiam – como revelaria um comportamento flagrantemente contrário à ética médica.

    Uma denúncia de fraude. Porém, uma denúncia falsa, que a RTP assumiu como verdadeira, talvez sem perceber que ela se insere numa estratégia de desinformação sistemática, e com isso contribuiu para alimentá-la.

    Ex-diretor de informação da RTP e principal apresentador do Telejornal, José Rodrigues dos Santos anunciou assim a reportagem:

    Hospitais brasileiros estão a registar como óbitos por Covid pessoas que não morreram de Covid. Em causa parecem estar subsídios dados pelo governo federal às câmaras e aos governos estaduais por cada vítima do novo coronavírus. Como há dinheiro a ganhar se declararem óbitos por Covid, há médicos a registar como morte por Covid óbitos que nada têm a ver com a pandemia, assim inflacionando o número de vítimas no país, como constatou o correspondente da RTP no Rio de Janeiro, Pedro Sá Guerra.

    O correspondente mantém o tom assertivo na abertura da reportagem: “É cada vez maior o número de mortos por Covid-19 que não corresponde à verdade”. Dá como exemplo o caso que ilustra a matéria e afirma: “a família, indignada, fala de uma mentira descarada”. O único entrevistado é um parente da vítima, que diz que as causas da morte foram “choque séptico, pneumonia e suspeita, suspeita de Covid”. Ele garante que exames anteriores comprovavam a inexistência da doença, mas diz que a família foi informada de que “é protocolo do hospital toda vez botar suspeita de Covid”.

    O repórter não esclarece se “suspeita de Covid” se transforma em “certeza de Covid” para efeitos estatísticos. Tampouco oferece informações sobre o “outro lado” – alguém que pudesse falar em nome do hospital em que o paciente estava internado, alguma fonte da secretaria de Saúde do município ou do estado que fosse confrontada com a denúncia. Apenas confia na palavra do entrevistado. Afirma que a vítima fez três testes que apresentaram resultados negativos para o vírus e garante: “A RTP confirmou junto de fonte oficial que por cada vítima mortal de Covid-19 os governos estaduais e as câmaras municipais no Brasil recebem uma verba de emergência do Estado federal”.

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    Uma fonte oficial. Aceitemos como tal, porque o sigilo da fonte deve ser preservado e o jornalista deve zelar pela própria credibilidade. Mas isso desde que a informação não se revele falsa, não é?

    Antes de voltar a dar voz ao entrevistado, o repórter assume a indignação da família, para quem “tudo não passa de um aproveitamento vergonhoso de uma pandemia que se transformou numa guerra política”.

    Que há uma guerra política, não resta dúvida. Mas quem, desde sempre, a promove e tenta tirar proveito dela – mais do que vergonhosa, criminosamente – é o próprio presidente da República, e disso tampouco deveria haver dúvida. Bolsonaro – salvo agora, acuado que está desde a prisão do ex-assessor Fabrício Queiroz – jamais abandonou a tática agressiva que usou na campanha, uma adaptação da “doutrina do choque” voltada para a produção de uma turbulência permanente que instaurasse o tumulto e impedisse a organização de uma oposição eficaz. Desde que a pandemia atingiu o Brasil, em vez de inspirar-se no exemplo de outros países e assumir o comando de uma ação unificada para conter a ação do vírus, Bolsonaro perseverou nessa tática, negando a gravidade do que chamava de “gripezinha” e solapando ostensivamente todas as tentativas empenhadas nas medidas de isolamento que evitariam o contágio. Desde que a pandemia atingiu o Brasil circulam pela internet, em especial nas redes de WhatsApp, tão relevantes na campanha eleitoral, informações falsas sobre o vírus. Entre elas, exatamente essas a respeito da suposta fraude nos registros de óbito, que estaria inflando o número de mortos.

    São mentiras disseminadas pelo menos desde meados de maio, com cifras ao gosto do freguês: ora se fala em remuneração de R$ 12 mil por registro de óbito, ora em R$ 16.450 (quem sabe valores quebrados dão mais credibilidade? numa próxima vez, poderíamos chegar ao detalhe dos centavos…), ora em R$ 18 mil… “Denúncias” sistematicamente desmentidas, como se pode ver em reportagem da editoria “Fato ou Fake” do G1 em 18 de maio (“É #FAKE que Ministério da Saúde repassa R$ 12 mil a hospitais por cada morte por Covid-19”), da Agência Aos Fatos no dia seguinte, do UOL Confere em 5 de junho (aqui a ênfase é no desmentido do vídeo que acusa os hospitais de estarem “provocando a morte” de pessoas para registrar os óbitos como covid) e em 24 de junho (“É falso que hospitais recebem R$ 18 mil por cada óbito registrado como covid”). Nesta extensa reportagem, que descreve passo a passo a apuração minuciosa, um dos vários links que comprovam as informações é o que conduz a uma nota na qual o Ministério da Saúde assevera a inexistência de relação entre repasse de verba e registro de mortes.

    A acusação de fraude contra hospitais foi apenas a mais recente – e certamente mais grave, por suas implicações na ética médica e na confiança do público em relação ao serviço de saúde, que tem efeitos para muito além deste momento específico –, foi, dizíamos, apenas a mais recente onda de fakes destinada a desacreditar os todos os que, de governos estaduais e municipais, entidades representativas do setor de saúde, até pessoas comuns, empenharam-se em adotar ou recomendar medidas de isolamento para evitar o contágio. Antes disso, as redes inundaram-se de “denúncias” sobre caixões que estariam sendo enterrados vazios ou recheados de pedras, ou de imagens de hospitais vazios que comprovariam a inexistência da pandemia.

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    Agitar esses fakes faz parte da estratégia do governo federal, que então tentava também esconder as estatísticas, o que levou algumas das mais importantes empresas de mídia brasileiras a montar um consórcio para atualizar os números diários de mortos e infectados diretamente com os governos estaduais. O que, diga-se de passagem, também foi noticiado pela RTP no mesmo período em que ia ao ar a matéria do correspondente, embora apenas através de uma nota coberta. Quem prestasse atenção haveria de estranhar: afinal o que tinha credibilidade, os números apurados pelo consórcio de mídia, que rompiam com a tentativa de censura do governo federal, ou a denúncia de fraude nos registros dos hospitais, que inflacionava aqueles números?

    Uma retificação envergonhada

    O provedor do telespectador recebeu várias reclamações contra essa reportagem, que foi repetida no dia seguinte no Jornal do Meio-Dia, do canal 3, e depois disso não voltou a ser veiculada. Mas que, até o início de julho, continuou acessível pelo site da RTP, sem qualquer ressalva. Depois, desapareceu dali.

    No dia 27 de junho a informação foi retificada, mas sem o mesmo destaque. A comparação das duas reportagens dá bem a medida dessa discrepância.

    A matéria que gerou tantas críticas foi anunciada pelo âncora com a ênfase coerente com a tarja fixa em que se lia: “FALSOS REGISTOS NO BRASIL/Hospitais estão a registar como óbitos por Covid pessoas que não morreram da doença”. O correspondente também assumiu integralmente a denúncia, que foi o tema exclusivo da reportagem. Já a retificação saiu no meio de uma matéria que abria com o anúncio do número de mortos no Brasil (então, 56 mil) e que destacava o aumento de casos de infecção no interior do país. A legenda da tarja, “PANDEMIA BRASIL/várias cidades do interior reabriram o comércio apesar do grande aumento de infetados”, permaneceu intacta até o fim da reportagem. Foi com essa informação que o correspondente iniciou seu relato e só depois passou à correção, começando por afirmar que “a polêmica das certidões de óbito onde consta como possível causa de morte a Covid-19 continua a revoltar muitas famílias”.

    Mas qual polêmica, se a informação que a sustentaria seria logo a seguir desmentida? O repórter diz que consultou o Gabinete Covid-19 da Faculdade de Medicina da USP e que a informação sobre esses registros “se revelou falsa”, mas é claro que não informa a fonte em que se baseou para divulgar a informação errada. Encerra a reportagem com as sonoras de duas fontes brasileiras qualificadas para tratar do tema, que demonstram o erro da informação inicial.

    É bem claro que a opção editorial adotada para a correção, que além disso deveria ser acompanhada de um pedido de desculpas, não foi correspondente ao erro. Pedir desculpas certamente é raro em empresas jornalísticas, que até hoje padecem da equivocada ideia de que o reconhecimento de um erro é demonstração de fragilidade, que decorre da associação da credibilidade do jornalista à sua infalibilidade. O que deveria ser obviamente falso, de modo que o reconhecimento do erro deveria ser um indicativo do empenho do jornalista – e da empresa para a qual trabalha, ainda mais se essa empresa for pública – em acertar e ser capaz de se corrigir, quando for o caso.

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    Esta seria a primeira questão ética envolvida neste episódio. Mas há outras.

    Uma delas é a da preservação do sigilo da fonte. É um princípio essencial para o exercício da profissão, porém não deveria ser absoluto. Se a fonte induz o jornalista a erro, deliberadamente, deveria continuar a ser preservada? Se o jornalista busca informações em fontes duvidosas, não deveria revelar os seus procedimentos e ser cobrado por isso? No caso em questão, a editora de internacional da RTP não tem qualquer responsabilidade?

    A usina de fake news, apesar de começar a ser investigada pelo STF, continua a funcionar no Brasil. Agora mesmo, em 2 de julho, a Folha de S.Paulo publicou matéria sobre o vídeo de um médico que distorcia informações a respeito da pandemia, acusando “uma esquerda que ficou 30 anos no poder” de querer derrubar o país, o que apenas demonstra a necessidade de se redobrar os cuidados com a escolha de fontes, mesmo as que são em tese qualificadas para falar, nesse pântano de incertezas em relação à pandemia que tanto se presta à exploração política. Antes, em 22 de junho, o mesmo jornal, no âmbito do projeto Comprova – que reúne 28 veículos na checagem sobre o coronavírus –, desmentiu a afirmação de um enfermeiro que, em vídeo publicado em 10 de junho e depois apagado por ele mesmo, dizia que corpos de vítimas do vírus estavam sendo vendidos por milhões para governos estaduais e municipais e que 60% dos óbitos registrados com a doença foram por outros motivos.

    Teria sido esta a fonte “oficial” do correspondente?

    A gravidade da questão não se limita ao erro cometido nesta reportagem sobre o Brasil, e precariamente corrigido, o que ensejaria uma discussão ética da qual a pesquisadora Lívia Vieira se ocupou, há alguns anos, em seu trabalho de mestrado sobre os “Parâmetros éticos para uma política de correção de erros no jornalismo on line”. Diz respeito à própria dinâmica de atuação da extrema-direita no mundo, com a exploração das redes digitais de desinformação.

    Bolsonaro está na boca dos comentaristas e humoristas portugueses desde antes de chegar à presidência, e agora mais ainda, diante de seu comportamento nesta crise sanitária. Mas ele é apenas a ponta mais visível, agressiva e grotesca e uma engrenagem que tende a ampliar seus efeitos deletérios diante da crise mundial que a pandemia antecipou de maneira tão súbita e radical. Em Portugal, o representante dessa extrema-direita conquistou vaga no Parlamento já na primeira tentativa e lançou-se candidato às próximas eleições presidenciais. Não está aí para ganhar, mas para ampliar sua base de apoio. Adota rigorosamente a mesma tática de Bolsonaro e Trump. Nesse contexto, todo o cuidado com a rede de fake news é pouco. É claro que se trata de um cuidado elementar para o exercício profissional do jornalismo em qualquer época, mas que precisa ser redobrado agora, diante das evidentes ameaças à democracia no mundo inteiro.

    Sylvia Debossan Moretzsohn – Jornalista, professora aposentada da UFF, pesquisadora do objETHOS, pós-doutoranda na Universidade do Minho

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