Covid-19: A Atenção Básica pode fazer muito, mas tem que jogar no ataque, por Ion de Andrade

A Atenção Básica, pela carência de uma orientação nacional clara tem atuado de forma heterogênea na pandemia.

Covid-19: A Atenção Básica pode fazer muito, mas tem que jogar no ataque

por Ion de Andrade

Apesar do número crescente e descontrolado de mortes e de casos novos de Covid-19 no Brasil, a imensa maioria da nossa população ainda não teve contato com o vírus.

Por um lado isso significa que o potencial de expansão da doença no nosso país é imenso podendo alcançar limites inimagináveis de casos novos e de mortes. Por outro lado, o momento atual ainda permite ações contundentes de contenção da doença, como a que a Atenção Primária à Saúde poderia erguer numa imensa quantidade de municípios que têm boa cobertura para a Estratégia Saúde da Família.

A Atenção Básica, pela carência de uma orientação nacional clara tem atuado de forma heterogênea na pandemia.

·         A capilaridade da distribuição dos agentes de saúde, por exemplo, não tem sido suficientemente aproveitada em toda parte para fazer chegar à população das áreas cobertas uma mensagem clara de como poderia proteger os seus idosos e doentes crônicos da covid-19 no interior dos seus domicílios, local em que podem contraí-la de outros familiares que estão expostos por estarem obrigados a sair às ruas para compras e pagamentos;

·         Em razão dessa relativa desmobilização, apesar da maioria das unidades terem o cadastro dos seus idosos devido à vacinação contra a gripe, nem todas têm grupos de Whats App entre a equipe e as famílias desses idosos, o que dificulta o trabalho de proteger a saúde desse segmento de onde já sabemos que virão a maioria dos internamentos e pelo menos 80% óbitos se não houver intervenção.

·         Além disto, a visita domiciliar ao idoso pela equipe de saúde continua seguindo a rotina anterior em inúmeros lugares se limitando aos pacientes que não podem se locomover. Isso obriga a população idosa, mesmo agora, a ter que se deslocar à Unidade para suas consultas e estas continuam ocorrendo, em muitos lugares, sem a existência de um horário específico para os mais velhos, havendo, quando há, tão somente o seu agendamento. Idosos e não idosos se encontram na unidade aumentando os riscos de contágio dos primeiros que, como sabemos, se internarão ou morrerão em maior número.

·         O uso de máscaras, ainda limitado em diversas cidades e bairros, cuja necessidade do uso poderia ser difundida maciçamente pela ação da Atenção Primária, tem se limitado muitas vezes apenas à proibição da entrada na Unidade Básica de Saúde (UBS) do usuário sem máscara, o que é feito, sobretudo para proteger o profissional de saúde, fato que, embora justo, não tem foco na promoção da saúde do usuário. O ideal seria que essa norma interna centrada na proibição à entrada do usuário sem máscara fosse completada pelo trabalho proativo do agente de saúde no estímulo ao uso da máscara na comunidade, o que nem sempre há. Feita essa crítica, é importante reconhecer que há também muitas unidades empenhadas em difundir o uso da máscara.

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·         As redes de solidariedade de vizinhança que poderiam evitar a saída às compras pelos idosos que moram sós e que poderiam se beneficiar da ação da Sociedade Civil organizada como as igrejas, associações de moradores, escoteiros e outras entidades locais poderiam contar, no nível local, para a sua organização com o impulso da Atenção Básica.

·         O próprio Isolamento Social vem sofrendo com essa posição defensiva, muitas vezes limitada ao seguimento de uma agenda essencialmente curativista.

 

No entanto, as condições materiais para uma virada estão dadas em inúmeras localidades. Não lhes falta a boa vontade, mas; muitas vezes, a clareza do que deve ser feito. Seria, portanto, viável uma ação da Atenção Primária à Saúde assegurando:

1.    A visita domiciliar do Agente Comunitário de Saúde, guiado pela Cartilha de Proteção ao Idoso no domicílio, à totalidade das famílias com idosos da sua microárea (12%) orientando-as sobre o que fazer para proteger o idoso de contrair a Covido-19 no domicílio;

2.    A criação, sempre que possível,  de grupos de Whats App reunindo a equipe da Atenção Primária e as famílias com idosos de cada área adscrita com vistas a implementar um bom monitoramento clínico e o envio regular de material educativo sobre a doença. O acompanhamento telefônico pode substituir o Whats App onde a cobertura da internet seja falha e na impossibilidade desses recursos, o que poderá ocorrer em zonas rurais ou em situações de pobreza extrema, a visita de seguimento deve ser viabilizada pela equipe.

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3.    A criação de Redes de Solidariedade ou de Vizinhança (articulando igrejas, associações, entidades locais diversas) para colaborar com os idosos vivendo sozinhos ou com o (a) cônjuge também idoso(a) para evitar suas saídas à rua para compras e pagamentos;

4.    O uso de meios de informação que possam atingir às comunidades alvo dessas políticas (rádios, carros de som, cartazes, etc) com informações coerentes com esse esforço e focadas no atingimento da totalidade dessas comunidades;

Todas essas iniciativas são locais, simples, de baixo custo e dependem das Secretarias Municipais de Saúde.

É importante sublinhar que numa doença ainda sem tratamento definido, que torna o médico menos resolutivo do que é em inúmeras outras em que diagnostica e trata, os profissionais estratégicos para evitar que a epidemia se alastre, a serem eventualmente contratados emergencialmente pelos municípios (na ausência do governo federal) com apoio dos estados, com vistas à ampliação do seu poder de fogo no cenário em que podem fazer a diferença, que é o da prevenção e da proteção à saúde, são os agentes comunitários de saúde e os profissionais de enfermagem.

Os primeiros por sua ação no front, quando devidamente orientados, e os segundos por serem os profissionais de ligação entre a unidade de saúde e a comunidade, com papel gestor e capacidade de fazer funcionar as políticas de saúde pela articulação da comunidade e suas lideranças em torno das questões de saúde.

Ora,

·         se o município tiver os seus Agentes de Saúde jogando no ataque realizando a visita domiciliar à totalidade das famílias com idosos (12% do total) para ensiná-las ou encorajá-las a protegê-lo da Covid-19 com base na Cartilha já citada;

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·         se a Atenção Primária acompanhar efetivamente essas famílias com idosos com estratégias como grupos as de Whats App, acompanhamento telefônico ou visitas regulares de seguimento realimentando a necessidade de continuidade das ações preventivas e monitorando a saúde do grupo;

·         se a Unidade Básica estabelecer como ação prioritária o acompanhamento clínico desses idosos nos domicílios, fazendo nas visitas o uso de máscaras e dos EPIs recomendados, evitando que se exponham na rua;

·         se para as exceções, que obriguem o idoso a ter que se deslocar à Unidade, houver um horário previsto para ele em que não se encontrará com usuários de faixas etárias mais jovens,

·         se o uso de máscaras estiver sendo encorajado pela Secretaria Municipal de Saúde como uma prioridade;

·         se as comunidades de forma solidária tiverem criado redes de vizinhança capazes de evitar que o idoso que vive só ou com o cônjuge também idoso(a) se exponha com as tarefas incontornáveis que o levam à rua; e

·         se o município viver clima de mobilização contra a doença e em favor do Isolamento Social, produzindo obediência às medidas por sua comunidade;

é previsível que esse dado município consiga reduzir enormemente os óbitos e os internamentos por Covid-19 e não haverá, materialmente falando, como a taxa de replicação da doença explodir. Ao contrário, tal como vimos em países como Portugal, haverá controle da epidemia naquele território.

Não nos resta muito tempo, mas ainda podemos tomar iniciativas que podem mudar o curso da doença, reduzir internamentos e óbitos.

Senhores Prefeitos, Secretárias e Secretários municipais de Saúde, escutem porque está em suas mãos:

A Atenção Primária pode fazer muito, mas tem que jogar no ataque.

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1 comentário

  1. Meu caro, fico impressionado com o teu otimismo, fiz a pouco cálculos baseados num grau de mortalidade num país onde o sistema de saúde ainda tivesse funcionando e com um coeficiente de reprodução viral de longo prazo, 4,6 e cheguei a seguinte conclusão.
    Se nada for feito chegaremos num valor máximo de em torno de 5,2 milhões de mortos no Brasil, porém quando esse valor ultrapassar o milhão provavelmente alguém tentará fazer algo efetivo e daí poderemos chegar a somente 3 milhões de mortos.
    Até alguém fazer algo o máximo que poderá ser feito em termos de políticas públicas dentro do contexto atual será contratar mais coveiros e expandir os cemitérios.
    Achar que soluções via a população sem que haja uma grande comoção é simplesmente ingenuidade.

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