A crise e o surgimento de uma nova esquerda, por Aldo Fornazieri

A crise e o surgimento de uma nova esquerda

por Aldo Fornazieri

Um dos saldos positivos da presente luta em defesa da democracia, dos direitos e contra o golpe se expressa no surgimento de uma nova geração de militantes de esquerda e de ativistas das lutas sociais, populares e progressistas. Uma geração certamente mais realista e, consequentemente, mais cética. Necessariamente, uma geração mais radical do que essa que se conformou na ascensão declínio do PT.

Mais realista, mas cética e mais radical por uma série de razões. As lições da história dessa nova geração são amargas. A sua perspectiva de futuro e suas esperanças se inspiram menos na ideia de uma sociedade redentora da humanidade e mais numa luta vinculada às demandas sociais concretas, ao enfrentamento da hegemonia avassaladora do capital financeiro e das grandes corporações da economia globalizada e à necessidade de estabelecer confrontações ao aumento das desigualdades, aos danos ambientais à vida e ao planeta e de reduzir os males causados pelo capitalismo. Uma geração que terá que encontrar alternativas ao caráter volátil e brumoso da vida sem sentido das grandes cidades, do consumismo, do individualismo e da solidão.

Essa geração vê a democracia aprisionada pelos esquemas do grande capital, percebe a misancene do atual sistema político ocidental e se rebela contra a colonização cultural propagada pela grande mídia e pelo marketing da manipulação. Essa geração aprendeu com a experiência do PT que, no Brasil, há um claro limite para a política de conciliação com os conservadores e que as elites não são confiáveis, pois não vacilam em quebrar a ordem democracia e conspurcar o Estado de Direito quando os seus interesses estão em jogo. Essa geração compreendeu que quanto mais se concede às elites econômicas, mais elas querem e menos estão dispostas a conceder socialmente para que se crie uma sociedade mais justa e se garanta uma segurança social aos menos protegidos. Essa geração aprendeu que vale mais a pena estar nas ruas e nas periferias, organizando e mobilizando os movimentos sociais, do que ocupar uma secretaria numa prefeitura, num governo estadual ou um ministério no governo federal.

Essa geração compreendeu que mesmo sob um governo dito de esquerda, a reforma agrária não avança, os índios não têm as terras demarcadas, os jovens pobres e negros continuam vítimas de violência e de injustiça nas periferias e que os direitos das mulheres não são respeitados e garantidos. Percebeu que o Bolsa Família é ínfimo perto dos subsídios ao grande capital, que por meio de muitos programas sociais, a exemplo do Prouni, o Estado termina por financiar o capital. Realisticamente, essa geração percebeu que suas demandas sofrem a repressão policial, o gás de pimenta, as bombas de efeito moral, as balas de borracha. Percebeu que para se fazer ouvir precisa ocupar escolas, bloquear ruas, avenidas e rodovias e invadir terras, terrenos e prédios.

 

Essa geração percebeu o quanto é uma miragem ilusória a confraternização com vinhos franceses, uísques envelhecidos, ternos George Armani, lençóis de linho do Egisto, hotéis e restaurantes de luxo, carros blindados, dinheiro fácil do capital para financiar campanhas etc. Percebeu que quem entra nessa pode ser enxotado hoje pelas convivas de ontem e que o lucro não tem mesuras com a democracia, com o Estado de Direito, com as leis, com a honorabilidade dos cargos públicos, com a fidelidade dos acordos e com a decência da política. O grotesco do dia 17 de abril revelou a face verdadeira da elite e de muitos acadêmicos e intelectuais que se apresentam com o lustre do saber, dos juristas que sempre estiveram ao lado do confisco perpetrado pelos estamentos. Por esses e outros motivos, a nova geração de ativistas políticos e sociais é mais realista, mais cética e mais radical.

Em busca de um novo conteúdo e de uma nova forma

Esta nova geração de ativistas políticos e sociais sabe que o lugar que os indivíduos ocupam não sistema de produção não é condição suficiente para determinar seu engajamento em lutas determinadas e nem garantia de uma suposta portabilidade de um projeto social e político transcendente. Ela sabe que as pessoas se mobilizam a partir de lutas concretas como moradia, educação, transporte, saúde, trabalho, direitos variados e plurais. É a partir dessas lutas que será preciso fazer florescer um novo projeto político e novas formas de organização.

Com a pluralização das lutas e das demandas, com a complexificação social, com as formas monitórias de controle e de crítica ao sistema político e com a crise de legitimidade e de representação das democracias ocidentais as formas tradicionais de organização política e de representação social enfrentam uma crise brutal. É como se operassem de forma analógica em uma sociedade digital. A nova geração é digital: é menos papel e mais internet, menos jornal e mais rede social, menos TV e mais smartphone, menos partidos e burocracia e mais movimentos organizados horizontalmente.

Mas com o junho de 2013 no Brasil, com os Indignados de Madri e com os Occupy Wall Street, esses novos ativistas aprenderam também que é preciso combinar formas horizontais de participação com formas verticais de organização. Não há como conquistar direitos, enfrentar o conservadorismo sem força política organizada e atuante. A lição de Maquiavel de que a força é condição imprescindível de êxito, de poder e de empoderamento nunca pode ser esquecida ou abandonada.

O PT não será mais o referencial hegemônico para esses novos movimentos e grupos de ativistas que se organizam e agem em torno de organizações diversas e plurais. Mas é preciso fazer um esforço para criar um movimento de convergência e de união desses movimentos e grupos de esquerda, socialistas, democráticos, republicanos e progressistas. Esses movimentos e grupos tendem a se unificar em questões gerais e a manter suas singularidades nos temas e demandas específicos.

As experiências das frentes Povo Sem Medo e Brasil Popular são importantes e precisam ser examinadas para ver como podem contribuir para essa convergência. Mas nem tudo o que surgiu está nessas frentes. Existem vários grupos de jovens, de mulheres, de intelectuais e de movimentos sociais específicos que não estão nessas frentes.

Será preciso examinar experiências como a do espanhol Podemos e da Frente Ampla do Uruguai para ver até que ponto elas podem contribuir para a aglutinação do novo ativismo político e social brasileiro. A experiência da Frente Ampla, que aglutina indivíduos, partidos e grupos políticos e movimentos sociais e organizações da sociedade civil poderá ser uma referência importante. Existem, claro, entraves da legislação partidária e eleitoral que bloqueiam a adoção de determinadas formas. Mas sempre é possível encontrar formas criativas e inovadoras para garantir a unidade na pluralidade. Esse conceito, “unidade na pluralidade”, terá que ter uma operacionalidade fundamental para que se construa algo novo e forte em termos de ativismo social e político.

Terá que se encontrar uma forma inovadora de organização que seja capaz de combinar MTST e MST com a CUT e a CTB, setores das igrejas evangélicas com setores de base da Igreja Católica e com as religiões Afro, os grupos e movimentos feministas com grupos e movimentos negros, o cultural com o político, o sindical com a militância LGBT, o ambiental com o Rap e com o Hip Hop, o PSol com o PC do B, partes do PT, Causa Operária e assim por diante. A Rede Sustentabilidade terá que definir em que campo ficará.

Essas forças terão que atuar na institucionalidade política sem abandonar a organização social, sem deixar as ruas, as periferias, as mobilizações e os enfrentamentos. O que importa é que aqui está a energia da mudança, do futuro e da esperança. Não há futuro no MBL e assemelhados, no Partido Novo, na Casa das Garças, nos golpistas do Congresso, no Judiciário estamental e patrimonialista, no PSDB que capitulou ao atraso conservador e ao golpismo do tipo Bolsonaro e Eduardo Cunha. Não há futuro num governo Temer, em torno do qual se articulam os maiores corruptos do país. Pensar que pode haver algum futuro em grupos conservadores que pregam mais desigualdades e preconceitos num país desigual  e excludente como o Brasil é pensar o contrassenso ou pregar a maldade.

É preciso perceber que uma nova democracia, mais igualitária, mais libertária e mais humanizadora, comporta novas formas de representação social e política. Reduzir a representação política à forma partido é uma maneira de estreitar a ideia de representação. Se os partidos não são formas mortas, não é mais possível pensar o futuro da democracia em termos de uma recuperação e ressignificação dos partidos. Estes continuarão ocupando um lugar importante na democracia, mas terá que ser um lugar compartilhado com outras formas de organização e representação.

Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo

 

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18 comentários

  1. “Essa geração aprendeu com a

    “Essa geração aprendeu com a experiência do PT que, no Brasil, há um claro limite para a política de conciliação com os conservadores e que as elites não são confiáveis, pois não vacilam em quebrar a ordem democracia e conspurcar o Estado de Direito quando os seus interesses estão em jogo.”

    Por um lado, ninguém poderá acusar de que pelo menos não houve uma tentativa de conciliação, a direita e os golpistas que se lembrem disso quando sofrerem as consequências pelo golpe. Por outro lado, não são apenas as novas gerações que aprenderam que não existe diálogo possível com a direita, muitos dos que já não são jovens também descobriram isso. E isso provoca desanimo, mas também torna mais forte o rancor e desejo de revanche contra os golpistas. Quanto à tal Rede Sustentabilidade, é coisa da direita. Como ninguém mais se ilude com o “Social Democracia” presente no nome do psdb golpista, eles precisavam inventar outra coisa pra enganar os incautos. Apelaram para a ecologia, coisa que anda na moda entre os jovens e nem tão jovens.

  2. Bom seria.

    Seria bom que essa geração existisse, mas ainda me parece muito cedo para vaticinar sua existência política.

    Por enquanto, o máximo que dá pra dizer é que parece consumada a tendência que aponta para o completo esgotamento do PT, sua caducidade política e sua progressiva incompatibilidade com inquietações políticas efetivamente progressistas.

    O momento a que chegamos, iniciado com as jornadas de junho de 2013, configura cada vez mais claramente a saída definitiva do PT do campo progressista. O progressismo conciliatório está definitivamente morto.

    Daí que surja algo novo… há uma esperança. É preciso dar mais um tempo para constatar sua efetiva probabilidade. Mas, já sem nenhuma dúvida, o PT perdeu o bonde do progressismo.

    • Se o problema que temos hoje

      Se o problema que temos hoje fosse acabar com o PT….

      Em momentos como esse, fazer das demandas pessoais, das idiossincasias pessoais o mote central do processo político soa ou ignorância política (o que não deve o caso) ou hipocrisia. Mostra que não entendeu o que ocorre. Dilma (e o PT) não está caindo pelos seus erros. Ela está caindo (i) pelo pouco, pouquíssimo que acertou, mas, principalmente, (ii) por ser simbólica sua queda, mostrando de fato quem são os donos do poder neste país. 

      Por fim, nada como expressões peremptórias, como  “completo esgotamento do PT”, ao mesmo tempo em que Lula é o prinpipal candidato à presidência da república.  

    • o novo sempre vêm…

      Tenho as mesmas dúvidas.

      Mas sinceramente não existe espaço vazio na politica. Se o PT perdeu a hegemonia da esquerda isso não significa uma inexistencia de algo novo na esquerda. O novo já existe, não é o que vai vir.  Tenho conversado com muita gente e consigo perceber a diferença entre as pessoas mais velhas que eu e as mais jovens – na média, sempre existem exceções. O que ele diz faz todo sentido.

      Agora, que a força politica da  esquerda vai demorar muitos anos para ser retomada é algo que eu também acho. Acho que o novo já existe, mas vai ter que trabalhar sobre território arrasado.

  3. “Não há futuro no MBL e

    “Não há futuro no MBL e assemelhados (…), no PSDB que capitulou ao atraso conservador e ao golpismo do tipo Bolsonaro e Eduardo Cunha.”

     

    Correção a bem da verdade histórica:

    Não há futuro no MBL e assemelhados, no PSDB que capitaneou o atraso conservador e o golpismo…

    E isso desde sempre.

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=MeAOen8vyiQ%5D

  4. Caro Nassif
    Espero que essa

    Caro Nassif

    Espero que essa nova geração, faça avançar as reformas sociais, onde o PT emperrou, mas que tinha como meta em seu inicio.

    Muitos dinossauricos, desejam isso ardorosamente.

    Saudações

  5. Engraçado! O que estamos

    Engraçado! O que estamos fazendo, eu e tantos outros, nas fileiras do PT lutando nas ruas contra este golpe, defendendo os direitos dos trabalhadores, duramente conquistados, reclamando melhoria dos serviços públicos e que sejam universais? Se a reaglutinação da esquerda se deixar contaminar por este ressentimento com o Partido dos Trabalhadores, não chegará muito longe, fortalecerá muito mais a direita conservadora. Concordo que não existe mais a possibilidade do partido hegemonizar o campo de esquerda como se deu até então, até porque no movimento social já é assim. Mas esta diferenciação programática entre os diversos atores que atuam nisto que se insinua uma frente única de combate, se dará no pórprio processo de luta social a partir de agora. Nem a Rede Sustentabilidade está dispensada, em que pese o seu perfil mais de centro, neste momento.

  6. a unidade na luta desses

    a unidade na luta desses movimentos é essencial, sob  qualquer

    hipótese e sob qjalquyer análise, mesmo as enviesadas…

  7. Organizações de bairros pode ser a nova forma alternativa

    Em príncipio este organismos não teriam o caráter de classe das organizações sindicais e das organições camponesas, mas em momentos de tensões como agora a maioria destes organismos podem adquirir o caráter de classe em função  esmagadora presença de trabalhadores na composição social.

    Os organismos de bairros também estaria longe do sistema repressivo existente nas empresas usado para combater o ativismo sindical, o que  inibe de certa forma a formação de quadros nos movimentos sindicais.

    Este fator contribuiria para uma formação maior e mais rápida de quadro para mobilizar, organizar e liderar as diversas lutas sociais.

    Além disso as organizações de bairros exige além de uma organização para luta e o enfrentamento, uma necessária organização administrativa para as tarefas da vida diária dos bairrros.

     

  8. Nova esquerda

    Formada pelos satélites do PT e pelas mesmas caras e  cabeças brancas de sempre? parece mais um desejo da parte do autor do que uma previsão.

  9. Aldo Fornazieri

     

    A proposta de unir as esquerdas  não é atual…já vimos esse filme…em outras paragens e outros tempos… A luta carniceira para saber quem manda, mesmo o mandante não apresentando um mínimo competência e espírito democrático, já traz natimorta essa possibilidade… Enquanto a direita, com poucas divergências, se locupleta em meio ao poder… e usufrui Estado como se fosse sua cozinha… Triste…mas real… 

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