A elite que falsifica títulos acadêmicos, por Leonardo Avritzer

O problema parece ser particularmente grave nas corporações judiciais, tal como vimos nos casos de Deltan Dallagnol, Alexandre de Moraes e agora no de Kassio Marques.

A elite que falsifica títulos acadêmicos

por Leonardo Avritzer

Sérgio Buarque de Holanda observou há algumas décadas que a elite extrativista brasileira forjada na valorização do não trabalho tinha problemas em como classificar os seus poucos membros que se destacavam em atividades intelectuais ou científicas. Afinal, havia ali um paradoxo: como valorizar uma atividade que exige trabalho se o valor maior da elite é o não trabalho? Segundo Sérgio Buarque, foi com esse intuito que a palavra “gênio” foi introduzida no nosso país, para designar aqueles poucos casos de um Santos Dumont ou de um Ruy Barbosa que se destacaram devido aos seus conhecimentos. Havia algo inato naqueles indivíduos que explicaria os seus feitos, uma vez que o trabalho mesmo do intelectual não podia ser valorizado. Ouso afirmar que essa questão não está resolvida e está na base do problema da elite local com títulos acadêmicos, problema que se manifesta uma vez mais na nomeação, pelo presidente Bolsonaro, de Kassio Marques para o STF.

O problema da nossa elite com os títulos acadêmicos é bastante amplo e envolve até mesmo a ex-presidente Dilma Rousseff, que achou que estava correto se auto atribuir no currículo Lattes o título de doutora apesar de ter apenas completado créditos na Unicamp, para depois corrigir a informação; Decotelli o indicado por Bolsonaro para o MEC fez o mesmo ostentando um título que a Universidade de Rosário não havia lhe concedido; ou o ex-jornalista da Folha de S.Paulo Carlos Eduardo Lins da Silva que, durante muitos anos, apresentou-se como pós-graduado pelo Wilson Center, uma instituição que não oferece cursos de pós-graduação. Recentemente, ele teve o cuidado de corrigir esses dados no seu currículo Lattes. Lattes é o nome da plataforma do CNPq onde pesquisadores e universitários reúnem as referências aos seus trabalhos.

Leia também:  Segundo turno das eleições e os riscos de retrocesso

No entanto, o problema parece ser particularmente grave nas corporações judiciais, tal como vimos nos casos de Deltan Dallagnol, Alexandre de Moraes e agora no de Kassio Marques. Eu entendo este problema como derivado da maneira absolutamente atrasada como o direito continua sendo ensinado no Brasil, onde a grande maioria das pessoas sai da faculdade com pouco conhecimento jurídico, mas com fortes redes pessoais. Acrescente-se a isso a ilusão sobre o que é o direito norte-americano ou europeu e uma visão completamente equivocada da operação do sistema judicial naqueles países. Assim, Deltan Dallagnol disse coisas absurdas sobre o sistema jurídico americano com base em um argumento de autoridade: “Sou doutor pela Harvard Law.” No final, não era. Tinha apenas sido ouvinte de algumas disciplinas. Ou seja,  não se busca conhecimento nas universidades estrangeiras: busca-se autoridade em cursos relâmpago que algumas dessas universidades oferecem por motivos financeiros. Recentemente um colega de uma universidade inglesa admitiu para mim que atividades com juízes federais brasileiros viraram uma das principais fontes de financiamento do seu programa. Só tem um problema: os títulos oferecidos por essas atividades são meros certificados, sem grande valor em qualquer sistema acadêmico que preze o nome. Daí a ficção.

Há ainda a questão dos pós-doutoramentos. Não tenho quaisquer dúvidas: o pós-doutoramento não é um título acadêmico e não existe nenhuma universidade séria no mundo que ofereça um curso nessa modalidade. Até mesmo no nosso sistema acadêmico, o uso do pós-doc está exagerado e ele não pode ser considerado superior ao doutorado por um motivo muito simples: ele não tem um trabalho de conclusão avaliado por pares e, portanto, é um título de natureza fortemente administrativa. A secretaria do departamento no qual o pós-doc foi feito emite o certificado. Isso não quer dizer que o pós-doc seja desnecessário ou que nenhum seja produtivo. Quer apenas dizer que não há valor intrínseco ao título. Tudo depende do que se fez em um pós-doc, se houve publicações, resultados de pesquisa que justificam o trabalho e os custos. E, diferentemente do título atribuído no doutorado, o pós-doc não expressa uma avaliação da qualidade do trabalho. Por isso, encaixa-se tão bem no funcionamento do nosso sistema judicial. Serve para status e promoções administrativas, ainda que nada tenha sido feito durante o período, na boa tradição da doutrina do não trabalho das nossas elites.

Leia também:  20 de novembro e governo Bolsonaro – quando vidas negras não importam, por Tania Maria de Oliveira

Tenho dúvidas se a falta de comprovação das atividades do candidato Kassio Marques ao STF terá qualquer impacto. Kassio Marques não terá sido o primeiro integrante do STF a ter um pós-doc para inglês ver, ou a ter concluído o pós-doutorado antes do doutorado que, a se julgar pelos poucos exemplos que vêm a público, parece ser comum entre os membros das corporações judiciais do nosso país. Não é necessário ter qualquer saber jurídico especializado para se tornar membro do Supremo Tribunal Federal. Há toda uma carreira que passa pelos quintos da OAB e pelas famílias judiciais e que permitem a ascensão nos meandros do sistema. Quem tiver dúvidas, assista a sabatina para desembargadora feita pela filha de Luiz Fux. Está disponível no Youtube e teve um minuto e trinta segundos. Kassio Marques parece ser apenas mais um caso e não será por isso que ele deixará de ser juiz do STF.  Afinal, se Sergio Buarque de Holanda estiver certo, é muito mais importante assistir ao jogo do Palmeiras com Alcolumbre e Toffoli do que ter respeitabilidade acadêmica, quando o assunto é nomeação para o STF.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

8 comentários

  1. Eu lembro que alguém tinha dito que a (risos) “elite brasileira” é vira-lata. E isso é uma grande prova do que ele disse. Especialmente esses “juízes” que acham que julgar é decidir de qualquer forma que eles quiserem, essa ralé jamais conseguiria progredir em um curso de direito de verdade.

    11
    • “…O problema parece ser particularmente grave nas corporações judiciais,..” OAB. 90 ANOS. O mesmo tempo desta farsante Elite de Estado Ditatorial Caudilhista Absolutista Assassino Esquerdopata Fascista. Pobre país rico. Abacateiro não produz laranja. mas de muito fácil explicação.

  2. São individuos que perdem credibilidade sob quaisquer aspectos.
    Mas isso reflete o brasil, um país que vem sendo desconstruido à partir de bases falsas de intelectualidades, de religiosidade, de fé, de idoneidade e, principalmente, de moralidade.
    Ou seja: uma republica de embusteiros.

    13
  3. vamos falar de um tal “principe” que esteve presidente, mora em Paris,, diz lecionar na Sorbone e de titulos, não tem porra nenhuma….os que ganhou, foram doados e conseguidos pela sua mulher que realmente era um GENIO feminino

    11
  4. Eu realmente nunca seria ministra. Meu currículo tá sempre defasado, não coloco o nem que faço e muito menos o que eu não faço. É o que é extra curricular que vai definir quão útil e benéfico será o trabalho de uma pessoa.

  5. Brasil é o único país onde contas bancárias e títulos acadêmicos crescem juntos…
    uso um método de confirmação muito simples:
    ficou rico falando e fazendo merda na função, não é nem a metade do que disse ser quando entrou

    é autoridade falsificada, não conquistada

    2
    1
  6. Prezado Leonardo – no Brasil existe muita confusão sobre pós-doutorado nos EUA e na Inglaterra motivados por desconhecimento do que é um Pós-Doctoral Fellowship. Para o modelo educacional estadunidense, os médicos e advogados são ‘doutores’ no sentido de que antes de realizar os estudos dessas profissões antes fazem a graduação em uma universidade conhecida com o nome de “College”. Lá os médicos cursam antes profissões como biólogo, psicólogo, nutricionista, fisioterapeuta, bioquímico, e depois se candidatam aos cursos das escolas de ‘doutoramento’ – medicina ou direito. Um médico brasileiro que vá para um estágio de pesquisa com duração de um ano em universidade estadunidense fará um pós-doctoral fellowship mesmo que não tenha doutorado. O mesmo acontece com advogados, que são ‘doctors in-law’. Muitos médicos lá interrompem o curso médico e fazem um ‘doutorado’ ou um ‘philosophy doctor’ para depois concluir o curso médico. Sáo peculiaridades que os brasileiros não entendem. Nessa incompreensão também surgem os brasileiros espertinhos que se dizem pós-doutorados sem nunca ter realizado um doutorado, escondendo que PDF é apenas um estágio de pesquisa pós-graduado.

  7. O livro Os Onzes registra a informação de que a Min Carmen Lúcia teria incluído um doutorado inexistente na Fac Direito da USP; a informação teria sido retirada após observação de um colega.

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome