A esquerda dividida sempre será vencida! Por Dora Incontri

A questão é que todas essas diferenças – que podem até ser profundas – deveriam se diluir, ou ao menos serem temporariamente deixadas para depois – diante da situação trágica em que nos encontramos.

Tug of war, isolated on white

A esquerda dividida sempre será vencida! Por Dora Incontri

Assistimos a um quadro estarrecedor no Brasil: um (des)governo genocida, que permite impassível mais de 110 mil mortes, há 100 dias sem ministro da saúde; um (des)governo contra pobres, estudantes, negros e indígenas; que arrasa a educação e as matas – e esse horror não conseguiu unir a esquerda numa frente ampla e única, para se opor a tantas barbaridades.

Entenda-se, entretanto, o que é a esquerda (hoje é preciso explicar tudo detalhadamente, porque conceitos fundamentais e óbvios estão ofuscados pelas máquinas de fakenews e pelo analfabetismo político do povo). Esquerda é qualquer posição que genericamente se opõe ao status quo, que busca uma mudança estrutural da sociedade, para maior justiça social, igualdade e bem-estar de todos os seus membros. Pode ser uma esquerda que queira mais Estado ou um pouco menos Estado, ou não queira Estado nenhum (como é o caso do anarquismo). Pode ser uma esquerda reformista ou revolucionária. Uma esquerda que acha um caminho viável a implantação de mudanças através de ocupação do poder na democracia liberal; ou uma esquerda que renega totalmente o jogo político e só acredite numa derrubada do poder ou numa autogestão política e econômica dos atores sociais.

Pode ser ainda uma esquerda que rejeite qualquer expressão de religiosidade, num ateísmo radical ou uma esquerda, que embora critique as hierarquias e instituições religiosas que oprimem o indivíduo, aceita que a espiritualidade possa ser progressista e aliada de uma transformação social. E ainda há uma esquerda que se foca nas questões identitárias (anti-racista, feminista, pelos direitos dos LGTBs) e outra que não considera que isso seja o prioritário agora – que depois das profundas e necessárias mudanças de estruturas da sociedade, essas questões serão resolvidas. Os primeiros argumentam que só se essas pautas forem incluídas prioritariamente, haverá de fato uma transformação radical das estruturas sociais.

A questão é que todas essas diferenças – que podem até ser profundas – deveriam se diluir, ou ao menos serem temporariamente deixadas para depois – diante da situação trágica em que nos encontramos.

Pessoalmente, me denomino espírita, anarquista, numa esquerda que não acredita na democracia liberal, mas considero possível, necessário e mesmo urgente, nos reunirmos em torno de uma frente forte para nos opormos ao (des)governo atual.

A popularidade do dito cujo – recuso-me a escrever seu nome – aumentou! Pasmem! Então, estamos ameaçados ainda de ele se reeleger em 2022. E o que estão fazendo os partidos de esquerda e de centro-esquerda? Cada qual preocupado com as eleiçõezinhas de prefeitos e vereadores… em campanhas isoladas, tendo inclusive nesse nível municipal, muito poucos se reunido em torno de uma liderança mais certeira.

Por isso, considero a democracia um sistema tão pernicioso (embora no momento não haja outro melhor) e por isso sou anarquista. O poder atrai, mexe com os egos – no mundo ainda, majoritariamente com egos masculinos, que são mais complicados ainda – e as pessoas vão perdendo de vista o bem comum, as urgências do momento, as estratégias possíveis para que um fim seja atingido – nesse caso a oposição ferrenha a esse governo, a luta pela sua retirada, uma boa, eficiente e ampla comunicação com o povo, a perspectiva da próxima eleição, aliás a preocupação mesmo para que essa eleição se fato haja…

Então, vamos indo de vento em popa para o abismo… não há lideranças brasileiras suficientemente desapegadas do próprio umbigo, das próprias demandas, interesses e particularidades partidárias, para num momento grave como esse, deixar vaidades e mesmo alguns princípios que podem ser retomados depois, para frear o Brasil no caminho do caos. Aliás, estamos exatamente nessa situação em parte porque já não houve essa união da esquerda antes das eleições de 18. Enquanto os egos e os dogmas políticos forem maiores que as vidas de 110 mil brasileiros, esquerda e direita são responsáveis por essas mortes. Somos todos responsáveis.

 

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