A Lava Jato e dona Marisa Letícia, por Eliara Santana

A força-tarefa de Curitiba ganhou glamour e foi transformada num feito heróico pela mídia conivente, que fez papel de assessora de imprensa quando deveria ter feito o mínimo que se espera do trabalho jornalístico, a apuração e a apresentação de versões.

A Lava Jato e dona Marisa Letícia

por Eliara Santana

A aclamada e midiática força-tarefa da Lava Jato de Curitiba foi extinta hoje, 3 de fevereiro. Sem qualquer alarde ou grande encenação, apenas com um comunicado do MPF. A força-tarefa de Curitiba ganhou glamour e foi transformada num feito heróico pela mídia conivente, que fez papel de assessora de imprensa quando deveria ter feito o mínimo que se espera do trabalho jornalístico, a apuração e a apresentação de versões. Cada cena na TV (especialmente no JN) que mostrava as ações nas inúmeras operações desencadeadas era cuidadosamente espetacularizada, glamorizada, e os agentes eram como Avengers tabajaras.

Foi assim desde 2014, tendo o espetáculo tomado grande vulto a partir de 2015. Hoje ela foi encerrada. Sem glamour ou apoteose. Mas tendo cumprido a função para a qual foi destinada e pela qual seus agentes passaram a ser os heróis no imaginário nacional: criar caminhos jurídicos para eliminar do poder um determinado grupo e possibilitar a ascensão de outro. Definitivamente, não há o que comemorar.

A Lava Jato foi responsável, entre várias outras coisas, por penalizar e jogar no limbo uma empresa sólida e histórica como a Petrobras, que legaria ao Brasil a chance de autonomia e de investir decentemente em saúde e educação. Coincidentemente, a força-tarefa de Curitiba se encerra no momento em que Jair (o que ascendeu) tem sob controle o Congresso. Agora, definitivamente, essa história de “enfrentar a grande corrupção no Brasil” voltará ao ostracismo em que sempre esteve no cenário político e social do país. Nada mais de ações apoteóticas ou magistrais na mídia. Aliás, o repertório corrupção já sumiu da pauta há muito tempo.

É uma coincidência triste que também hoje se completam quatro anos da morte de dona Marisa Letícia Lula da Silva, ex-primeira-dama, mulher do ex-presidente Lula. E onde é que esses dois acontecimentos se encontram na história, além da coincidência das datas? O que a morte de dona Marisa tem a ver com a turma de Curitiba? Muita coisa. Voltemos ao dia 16 de março de 2016. Naquela data, o então juiz Moro, em franco entendimento com o então coordenador da Força-Tarefa, Deltan Dallagnol, decidiu liberar áudios das gravações de conversas do ex-presidente Lula. O assunto foi destaque absoluto no Jornal Nacional (a liberação teve endereço certo) e dominou magistralmente o restante da mídia nos dias que se seguiram. Não vou discutir esse fato específico, amplamente documentado e agora bem escancarado pelos áudios  recentemente liberados à defesa de Lula. O ponto que me interessa é: nos áudios havia conversas de dona Marisa com um dos filhos, em que ela mostrava sua raiva e indignação com os então paneleiros (figuras que também andam sumidas) e sugeria que eles “enfiassem as panelas no c… (também já tive esse pensamento várias e várias vezes).

Nem é preciso dizer que a imprensa deitou e rolou com isso. Mostrou, destacou, escancarou, problematizou, fez chacota, debochou, ficou indignadinha. As conversas de dona Marisa não acrescentavam nada às investigações. Mas foram violentamente usadas para atingir a sua família, para atingir seu marido. Dona Marisa ficou reclusa, mal saía de casa. Menos de um ano depois, em 3 de fevereiro de 2017, ela morreu, vítima de um AVC hemorrágico. Quando foi internada, médicos limpinhos, cheirosos e “indignados” com tanta “corrupção” vazaram seus exames, que circularam em vários grupos de outros cidadãos “de bem”. Um desses médicos limpinhos e cheirosos chegou a comentar, sobre os procedimentos para estancar o fluxo de sangue feitos em dona Marisa: “Tem que romper no procedimento. Daí já abre pupila. E o capeta abraça ela”,

Certamente, esses médicos e grupos limpinhos e contra corrupção deviam estar igualmente muito indignados agora com o genocídio que ocorre no Brasil, especialmente em Manaus, não é mesmo? Mas essa é outra história.

Retornando ao ponto inicial desta conversa, o que importa é que a Lava Jato, especialmente a força-tarefa que ora se encerra melancolicamente, fez muito mal a dona Marisa Letícia. E fez muito, muito mal ao Brasil.

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2 comentários

  1. Poiszé Senhora Eliara Santana,parabenizo-a pelo belo e comovente artigo.
    Antes da publicação seu lúcido texto,o acima assinado fez uma CARTA ABERTA ao Prof.Ivan Salomão,aqui apresentado como componente do Departamento de Economia da Universidade Federal do Paraná (só podia ser de lá),que também em CARTA ABERTA implorava a Lula,pareceu -me que estava ajoelhado,que para o bem de todos e felicidade geral da nação,abdicasse da candidatura em favor de Ciro Gomes.
    Em minha resposta a ele,também em CARTA ABERTA,lembrei-lhe que antes de mais nada,deveríamos por dever de justiça,levar a júri popular,os assassinos de Dona Mariza Letícia.
    Ainda não recebi a resposta dele.
    Forte abraço e mais uma vez,parabéns pelo texto.

  2. Posso adicionar algo ao texto?
    O episódio da Marisa Leticia e seu filho, apesar de ser uma conversa intima e sem importância para a Lava Jato, mereceu indignação publica até de ministro do supremo. Lembram?
    Hoje o presidente manda (e repete ) a imprensa enfiar latas e nenhum ministro do supremo fala nada. Nada.

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