Argentina, Bolívia, Brasil: sobre convergência política e heterogeneidade cultural, por Roberto Bitencourt da Silva

Há de chegar o dia em que, sobre a base dessa nossa rica diversidade cultural, nós brasileiros iremos construir um projeto político que permita desenvolver larga convergência

Argentina, Bolívia, Brasil: sobre convergência política e heterogeneidade cultural

Por Roberto Bitencourt da Silva

Do ponto de vista da defesa dos interesses nacionais e populares, um dos principais desafios políticos brasileiros consiste na sua expressiva heterogeneidade cultural e regional, em suas clivagens ponderáveis: étnicas, geográficas, econômicas etc.

Essas clivagens tendem a criar obstáculos sérios, ainda que não intransponíveis, à construção de valores, expectativas e visões comuns de Nação, à delimitação de projetos de destino nacional. Elas limitam a criação e a preservação de culturas políticas que deem sentido aos indivíduos, grupos e classes sociais, às suas ações, esperanças e ideais.

A respeito, o getulismo e o seu legado mais sofisticado – o trabalhismo e as instituições que chegaram a se enraizar na sociedade e no estado brasileiro, direitos trabalhistas e empresas públicas -, por décadas a fio, após o golpe vende pátria de 1964, foram submetidos a não poucas iniciativas destrutivas.

Alvo dos conglomerados de mídia e das classes dominantes domésticas e gringas, particularmente após o neoliberal FHC e, sobretudo, nos governos ultraentreguistas de Temer e Bolsonaro, um legado sistematicamente destruído, que, infelizmente, não tem contado com sólidas barreiras de contenção.

Convenhamos, algo impensável na Argentina, no tocante ao peronismo. Mas, aí, entre los hermanitos, um grau considerável de homogeneidade cultural e étnica, com força de incidência politica, assim como ponderável concentração demográfica na grande Buenos Aires (cerca de 40% da população aí vivem), dão respaldo à defesa da cultura política peronista.

Dão respaldo eleitoral, como visto nas recentes primárias eleitorais para a Presidência da Argentina, ao apontar números sobremodo favoráveis aos peronistas/nacionalistas, opositores do neoliberalcolonialismo do presidente Macri . Trata-se de fatores que balizam significativos ingredientes políticos de ação, olhares e expectativas razoavelmente comuns em torno dos rumos nacionais. Suporte de identificação e clareza das adversidades, dos antagonistas e inimigos da Pátria.

Igualmente, na Bolívia, o peso dos grupos étnicos aymara e quéchua guardam sentido similar, proporcionando importante homogeneidade e identificação cultural, com força reservada a gestar influência política na defesa do país. Entrecruza-se com as dimensões de classe e Nação, promovendo condições que viabilizam consensos, visões e projetos comuns de destino a amplas frações da população. Obviamente, também mapeando os elementos antagônicos, inspirando cuidados e receios para a realização das esperanças e quereres comuns.

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No Brasil, toda uma vasta gama de variáveis socialmente heterogêneas – geográficas, naturais, étnicas, históricas, econômicas, culturais, regionais – propiciam uma riqueza, uma diversidade cultural extraordinária. Nossa cultura misturada, compósita, mescla de heranças, valores, práticas, gentes, as mais diferentes, estimulam a pensar numa “nova Roma”, como nos chamava o Brasil o grande Darcy Ribeiro. Uma potencial nova civilização.

Corresponde a uma potencialidade absolutamente singular – em ambiente mundial caracterizado pela intolerância e o grotesco desprezo por grossa parte do povos e das tradições culturais dos países periféricos do capitalismo -, que nos reserva, a nós brasileiros, posição única e inovadora entre as gentes do globo. Algo nada trivial.

Nesse sentido, há de chegar o dia em que, sobre a base dessa nossa rica diversidade cultural – motivo de orgulho pela singular criatividade e engenhosidade que nos marca -, nós brasileiros iremos construir um projeto político que permita desenvolver larga convergência entre a miríade de grupos, classes e gentes da nossa Pátria, que nos faça sermos agentes, sujeitos da nossa própria história. E não subalternos vassalos de vontades mesquinhas, espoliativas, das potências estrangeiras, dos seus testas de ferro medíocres, antinacionais, que detestam o Brasil e o Povo Brasileiro, como o lesa pátria e repugnante presidente Jair Bolsonaro.

Roberto Bitencourt da Silva – historiador e cientista político.