As charges como resistência atual e memória do presente, por Andrés del Río e André Rodrigues

As charges são o DNA da democracia. E com elas não só resistimos e respiramos, mas também não esquecemos e ensinamos.

As charges como resistência atual e memória do presente

por Andrés del Río e André Rodrigues

O governo Bolsonaro tem na guerra cultural um de seus principais objetivos. Apoiado pelo setor militar, estrutura um governo de tradição castrense. Neste sentido, a tarefa de terminar com a ideologia de esquerda e o marxismo cultural, o que tanto grita aos quatro pontos cardiais o chanceler Araújo, coloca na mesa que a política de destruição do governo não materializou os ideais de eliminar um imaginário que eles evocam publicamente, dia a dia.

Vários setores da sociedade brasileira rejeitam o estilo e o norte do caminhar do governo. Entre a surpresa da sociedade diante de tanta bizarrice e ausência de políticas, a estratégia comunicacional do governo tem gerado seus frutos. Pareceria que a sociedade, o tempo todo, está como aquele boxeador que foi nocauteado mas que tenta ficar em pé, mesmo mareado. Assim são os efeitos das notícias bombásticas diárias (e com formas pouco respeitosas) do governo. Mesmo com o frenesi informacional estratégico do governo, os imaginários estão sendo produzidos a partir de diferentes setores da sociedade. Nos mundos artístico, acadêmico e, até, empresarial, os imaginários que criam a atualidade estão em andamento.

Salientamos, uma coisa são os imaginários com relação ao processo atual do (des)governo, outro tema é o campo fértil para existir um Bolsonaro. Porque Bolsonaro é um sintoma de uma doença que se alastra na sociedade. É o campo fértil para a prepotência, violência e pouca civilidade. Por outro lado, existe um movimento onde vai se definindocomo os setores sociedade desalinhados ao governo e ao avanço de sua miliciana atravessam este momento agressivo e violento e criam sua imagem, retratos, desenham sua silhueta política.

Além das charges, existem outros sintomas que indicam as fraquezas do governo com relação à guerra cultural desde os primeiros dias de vida. Talvez o âmbito exterior (e seu imaginário global), sensível a vários aspectos do governo e setores nacionais, seja determinante: existem frentes internacionais contra o governo atual; as capas das revistas e jornais do exterior só reforçam as facetas mais problemáticas do governo atual: autoritarismo, negligência consciente e gosto pela morte. Mas além de manifestações e capas nos diferentes meios de comunicação, Bolsonaro se tornou o principal vilão internacional, ganhando ao perseverante presidente dos Estados Unidos, o mimado Donald Trump.

As charges têm um papel fundamental na historia brasileira. As charges são ilustrações humorísticas que procuram produzir uma sátira a respeito de um ou mais personagens, geralmente contendo uma crítica política, uma potente e eficaz crítica política, pedagógica e didática. Seu poder comunicacional resulta da capacidade de síntese e do recurso visual para expressar argumentos de modo denso. Esta síntese, raramente, resulta em superficialidade, em simplificação.

No presente, enquanto nos custa respirar sob as mazelas do governo, as charges nos aliviam e ficam como memória do presente. Elas resumem com clareza os desafios do presente, do dia, do mês, do irascível governo.

Neste processo, desde antes da chegada ao Planalto, Bolsonaro foi retrato interna e externamente como uma figura autoritária e precária. E, nesses quesitos, ele tem capacidade e atributos acima da média, lamentavelmente. Com a chegada ao poder, Bolsonaro foi sendo retratado das mais diversas formas: palhaço, desastrado, louco, negligente, autoritário, miliciano, militar, representanda de uma ideologia econômica ultraliberal, ministros à sua altura.

Ao longo do 2019, Bolsonaro foi incorporando a vestimenta verde oliva e autoritária, principalmente. A questão da a tutela dos militares não é parte da discussão dos humoristas, nas charges. Os militares atualmente são o principal tema das charges. Eles são sempre representados pela força torta e pela morte, caricatos. Assim, os militares, já sem a presença do Jair (melhor já ir se acostumando…), são os protagonistas exclusivos das charges dos últimos tempos. Com a gestão de transição do ministro Teich, os militares desembarcaram, não na Normandia, mas no Ministério da Saúde, para atrapalhar toda possibilidade de boa gestão e mudança de sua própria imagem histórica de ineficiência autoritária. Ou mais conhecido como outro 7×1.

No início deste ano, entrou a figura do vírus pandêmico, entre muitos temas. Atualmente, as charges, cada vez mais precisas e potentes, já deixaram de lado a figura precária e desequilibrada do presidente. Como falamos, os protagonistas são os militares, o vírus, a força torta e a morte. E esse imaginário recriado, essa cartografia do sofrimento social atual tem atravessado fronteiras emocionais e físicas: no exterior, a figura caricata, precária e autoritária de Jair é acompanhada dos militares e do vírus. Ou seja, na guerra simbólica, os militares só estão reforçando o pior de sua imagem, dentro e fora de Terra Brasilis.

Em menos de dois anos, as charges mudaram muito. Mas estiveram sempre presentes as características precárias e desequilibradas do Jair. Dependendo da semana e de sua infinita atividade de comunicação estratégica pra nos deixar paralisados, o cenário foi se aprofundando. Fomos nos acostumando à excepcionalidade de um homem que não entendeu seu cargo, nem tem capacidade para isso. É por isso que, de tempos em tempos, o presidente precisa lembra a todos que ele foi eleito. Porque é difícil lembrar disso e porque ele não se movimenta de acordo com cargo.

As charges foram colocando acentos nos eventos mais relevantes de cada momento, nos imaginários deste pequeno tempo histórico, mas longo tempo de sofrimento coletivo. Diante de tamanha produção de (des)informação, as charges são as que resumem, as que nos indicam o que não pode ser naturalizado, o que não pode ser esquecido. São nossos respiradores.

O presidente não apresentou sua proposta de governo durante a campanha eleitoral. Mas aos poucos deixou na mesa os nortes do governo. A guerra cultural é, sem sombra de dúvidas, uma das poucas agendas que foram enunciadas e salientadas. Ela foi também o motor do capital político de Bolsonaro, que aos moldes do fascismo histórico, atua sob a lógica da mobilização permanente. Desde o primeiro dia de governo, na sua posse, Jair declarou que a bandeira brasileira nunca será vermelha. Neste imaginário, setores sociais insatisfeitos com os rumos da história, como os militares, coluna vertebral do governo, apoiam essa guerra comunicacional.

Claro, o estilo próprio do Jair é, sem dúvidas, exótico ao âmbito castrense, que sempre procura emular os símbolos da ordem, da disciplina, da hierarquia e da sobriedade. No estilo militar, o excesso se restringe aos porões da tortura e às tentativas de demostração de falsa erudição, como Mourão manejando toscamente a filosofia política dos federalista e Pazuello dando lições de geografia em reunião ministerial. Cenas dignas dos bacharéis da República Velha retratados nos contos de Lima Barreto. Lembramos do doutor Barrado, praticante da Astronomia do centro da terra, e do antropologista Tucolas, empenhado em aferir medidas de crânios de formigas, retratados no conto “Como o ‘homem’ chegou”, publicado em 1915. Mas, se fizermos um exame de sangue do governo, ele será positivo para castrense. São as charges que têm revelado de modo mais nítido a imagem da natureza profunda do atual governo. Elas têm desempenhado o papel desse laboratório de análises clínicas dos fluidos e secreções que emanam do atual governo.

As charges são o DNA da democracia. E com elas não só resistimos e respiramos, mas também não esquecemos e ensinamos, para que este momento de excepcionalidade e falta de humanidade seja lembrado como tem que ser: quando o pior de nós chegou ao poder.

Uma homenagem e gratidão sentida a todas e todos que com seu trabalho aliviam nossa realidade e nos resumem a importância do presente, para hoje e amanhã.

Andrés del Río e André Rodrigues – Cientistas políticos, professores da UFF.

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