Brasil, o país da gastança? O que os números mostram sobre déficit, juros e dívida
por Mauricio Martinelli Luperi
Há uma afirmação que se tornou quase automática no debate econômico brasileiro. A dívida cresce? O governo gastou demais. O déficit aumenta? Faltou austeridade. Os juros permanecem elevados? Seriam consequência do risco fiscal provocado pelo excesso de gasto público.
A repetição dessa sequência acabou transformando uma hipótese sobre a economia brasileira em algo semelhante a uma identidade contábil.
Mas identidade contábil e explicação causal são coisas diferentes.
Para compreender por que um governo apresenta determinado déficit, é necessário separar pelo menos dois componentes: o resultado primário e a despesa líquida de juros.
Uma comparação entre Brasil e Estados Unidos entre 2014 e 2024 ajuda a revelar por que essa distinção é fundamental.
Para evitar comparar conceitos diferentes, utilizamos dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) para governo geral, expressos como proporção do PIB. Para a comparação detalhada do período 2022–2024, utilizamos os relatórios do Artigo IV de 2024 do FMI para Brasil e Estados Unidos, preservando uma mesma vintage para resultado primário, resultado global, juros e dívida.
Os anos de 2020 e 2021 são tratados separadamente, pois correspondem ao período excepcional da pandemia. A análise histórica pode, portanto, ser dividida em três fases: 2014–2019, pré-pandemia; 2020–2021, pandemia; e 2022–2024, pós-pandemia.
1. O Brasil realmente apresenta déficits primários excepcionalmente elevados?
Comecemos retirando os juros da análise.
O resultado primário mede a diferença entre receitas e despesas antes dos pagamentos líquidos de juros.
Se a explicação para os déficits brasileiros fosse simplesmente uma excepcional propensão do Estado a gastar, seria razoável esperar que o Brasil apresentasse resultados primários sistematicamente piores que os de outros países.
A comparação com os Estados Unidos mostra algo diferente.

Em praticamente toda a série histórica, o resultado primário brasileiro foi melhor que o norte-americano.
Os anos de 2020 e 2021 merecem tratamento específico. A pandemia produziu gastos e transferências extraordinários nos dois países e, portanto, não deve ser utilizada como representação de uma situação fiscal normal.
Mais revelador para a discussão da suposta “gastança” é observar o que acontece depois dela.
Utilizando os relatórios do Artigo IV de 2024 do FMI, encontramos, para 2022–2024:
| 2022 | 2023 | 2024 | Média | |
| Brasil | +1,3% | −2,0% | −0,7% | −0,47% |
| EUA | −1,3% | −4,1% | −3,8% | −3,07% |
Fonte: FMI, relatórios do Artigo IV de 2024 para Brasil e Estados Unidos. Governo geral, % do PIB. Elaboração própria.
Entre 2022 e 2024, portanto, o déficit primário médio brasileiro foi de apenas 0,47% do PIB.
Nos Estados Unidos, foi de 3,07% do PIB.
O déficit primário americano foi mais de seis vezes o brasileiro.
Se a palavra “gastança” estivesse sendo utilizada simplesmente para designar a produção de grandes déficits antes dos juros, seria difícil caracterizar o Brasil como o caso extremo dessa comparação.
2. Quando entram os juros, a história muda
O resultado primário, entretanto, não é o resultado final das contas públicas.
O governo também paga juros sobre sua dívida.
O FMI utiliza o conceito de net interest, ou juros líquidos: a despesa com juros deduzida das receitas de juros recebidas pelo governo.
A relação contábil pode ser expressa de maneira simples:
Resultado global = resultado primário − despesa líquida de juros.
Consequentemente:
Despesa líquida de juros = resultado primário − resultado global.
É importante entender o que esse indicador significa.
Ele não é a Selic.
Também não é uma taxa de juros real.
É o fluxo líquido de juros suportado pelo governo durante determinado ano, expresso como proporção do PIB.

A inversão é evidente.
Em 2022:
Brasil: 5,3% do PIB
Estados Unidos: 2,8% do PIB
Em 2023:
Brasil: 5,6%
Estados Unidos: 3,5%
Em 2024:
Brasil: 6,1%
Estados Unidos: 4,0%
Na média dos três anos, temos:
Brasil: 5,67% do PIB
Estados Unidos: 3,43% do PIB
O Brasil apresenta déficit primário muito menor, mas despesa líquida de juros significativamente maior.
E é a combinação dessas duas variáveis que produz o resultado fiscal final.
3. Dois déficits semelhantes produzidos por caminhos diferentes
O resultado aparece de maneira particularmente clara quando reunimos os três indicadores.

Este talvez seja o gráfico mais importante do artigo.
Os déficits globais médios são próximos:
Brasil: 6,13% do PIB.
Estados Unidos: 6,50% do PIB.
Se olhássemos apenas para esses dois números, poderíamos concluir que os dois países apresentam desequilíbrios fiscais semelhantes.
Mas basta abrir a conta para descobrir estruturas completamente diferentes.
No Brasil:
0,47% de déficit primário + 5,67% de juros ≈ 6,13% de déficit global.
Nos Estados Unidos:
3,07% de déficit primário + 3,43% de juros ≈ 6,50% de déficit global.
No Brasil, portanto, aproximadamente 92% do déficit global médio de 2022–2024 corresponde ao componente líquido de juros.
Nos Estados Unidos, os juros correspondem a aproximadamente 53%.
A diferença é fundamental.
Os dois países chegam a déficits finais relativamente semelhantes por caminhos muito diferentes.
4. Talvez o Brasil pague mais juros porque possui muito mais dívida?
Essa seria uma hipótese intuitiva.
Se o Brasil paga muito mais juros, talvez simplesmente possua uma dívida muito maior.
Mas ocorre justamente o contrário.

Em 2024, no Artigo IV daquele ano, o FMI estimava a dívida bruta do governo geral em aproximadamente 87,5% do PIB brasileiro e 123,2% do PIB americano.
Portanto, os Estados Unidos carregavam uma dívida cerca de 35,7 pontos percentuais do PIB maior.
Mesmo assim, sua despesa líquida de juros era menor: 4,0% do PIB contra aproximadamente 6,1% no Brasil.
Esse resultado demonstra que o tamanho da dívida, isoladamente, não determina seu custo.
Importam as taxas de juros, a estrutura de maturidade, a indexação dos títulos, a moeda em que a dívida é denominada, a profundidade do mercado financeiro, a base de investidores e as características monetárias e institucionais de cada país.
5. Quanto custa carregar cada 100 unidades de dívida?
Podemos tornar essa diferença ainda mais intuitiva.
Imagine duas famílias.
A família A deve R$ 100 mil e paga R$ 8 mil de juros durante o ano.
A família B também deve R$ 100 mil, mas paga R$ 3 mil.
As duas possuem exatamente o mesmo estoque de dívida, mas o custo de carregá-la é completamente diferente.
Podemos construir uma aproximação semelhante para os governos.
Chamaremos esse indicador de taxa implícita nominal aproximada da dívida:
Taxa implícita nominal ≈ despesa líquida de juros ÷ estoque médio da dívida bruta.
O estoque médio é aproximado pela média entre a dívida existente ao final do ano anterior e a existente ao final do ano corrente.
Em linguagem simples, a pergunta é:
quanto o governo paga aproximadamente de juros durante o ano para cada 100 unidades monetárias de dívida que carrega?
Essa taxa não é a Selic.
A Selic é a taxa básica determinada pelo Banco Central. A dívida pública contém títulos emitidos em diferentes momentos, com diferentes prazos, indexadores e taxas.
Também não se trata de uma taxa real de juros, porque não estamos descontando a inflação.
É uma aproximação contábil do custo médio de carregamento da dívida.

A comparação reforça o resultado anterior.
O Brasil não apenas apresenta uma despesa de juros maior em proporção do PIB.
Ele suporta esse custo apesar de possuir dívida significativamente menor relativamente ao PIB.
É necessário fazer uma ressalva metodológica: estamos dividindo juros líquidos pelo estoque de dívida bruta. Portanto, o indicador deve ser interpretado como uma aproximação comparativa e não como a taxa contratual exata de todos os títulos públicos.
Ainda assim, ele ajuda o leitor a compreender algo fundamental: o problema brasileiro não é apenas o tamanho da dívida, mas também o preço pago para a carregar.
6. Uma identidade contábil não é uma teoria causal
Podemos agora voltar ao problema inicial.
A identidade é simples:
Déficit global = déficit primário + despesa líquida de juros.
Mas ela não estabelece causalidade.
Quando alguém observa déficit de 6% do PIB e imediatamente conclui que “o governo gastou demais”, acrescentou à identidade contábil uma hipótese causal que precisa ser demonstrada.
A comparação entre Brasil e Estados Unidos mostra precisamente por que isso é necessário.
Entre 2022 e 2024, os Estados Unidos apresentaram déficit primário médio de 3,07% do PIB.
O brasileiro foi de apenas 0,47%.
Apesar disso, os déficits globais foram semelhantes porque o Brasil suportou despesa financeira muito maior.
Chamar os dois resultados simplesmente de “déficit fiscal” e atribuí-los indistintamente à “gastança” elimina a informação econômica mais importante.
7. Isso significa que o Brasil não possui problemas fiscais?
Evidentemente não.
O Brasil possui problemas importantes relacionados à composição e eficiência do gasto, Previdência, renúncias tributárias, subsídios, rigidez orçamentária, estrutura tributária e capacidade de investimento público.
Tudo isso deve ser discutido.
Seria igualmente simplificador inverter o argumento fiscalista e afirmar que todo o problema fiscal brasileiro decorre dos juros.
Não é essa a conclusão dos dados.
A conclusão é outra: é necessário decompor empiricamente os fatores antes de estabelecer a causalidade.
E, quando fazemos essa decomposição, descobrimos que o componente financeiro da dívida brasileira é grande demais para permanecer fora da explicação.
8. Política monetária também produz consequências fiscais
Há ainda uma dimensão frequentemente tratada como externa ao debate fiscal.
Política monetária e política fiscal não habitam compartimentos estanques.
Quando o Banco Central aumenta a taxa básica de juros, o custo de financiamento e refinanciamento da dívida tende a aumentar. A velocidade dessa transmissão depende da composição, prazo e indexação dos títulos.
Pode formar-se então um circuito:
juros mais altos → maior despesa financeira → maior déficit global → maior dívida → percepção de deterioração fiscal → pressão por maior ajuste do gasto primário.
Parte da deterioração fiscal produzida pelo próprio custo financeiro pode, assim, terminar posteriormente atribuída ao gasto primário.
Isso não significa que a causalidade opere somente nessa direção.
Uma deterioração fiscal também pode elevar prêmios de risco e taxas de juros.
A relação pode ser bidirecional.
O erro está justamente em presumir uma única direção causal antes de examinar os dados.
9. A comparação com os Estados Unidos tem limites
Brasil e Estados Unidos são economias estruturalmente diferentes.
Os Estados Unidos emitem a principal moeda de reserva internacional, possuem o maior e mais profundo mercado de títulos públicos do mundo e apresentam uma estrutura financeira, institucional e monetária muito diferente da brasileira.
Portanto, não estamos argumentando que, se os Estados Unidos conseguem sustentar dívida superior a 120% do PIB, o Brasil necessariamente poderia fazer o mesmo.
Esse seria o erro simétrico ao que estamos criticando.
A comparação possui outra finalidade.
Ela funciona como um teste de consistência da narrativa.
Se dívida elevada e déficit nominal elevado fossem evidências suficientes de “gastança”, essa interpretação deveria sobreviver quando abríssemos os componentes do déficit.
Não sobrevive.
10. Então qual é a pergunta correta?
Talvez o debate fiscal brasileiro esteja começando pela pergunta errada.
Não basta perguntar:
Quanto o governo gasta?
Precisamos perguntar:
Quanto gasta antes dos juros?
Quanto arrecada?
Quanto investe?
Quanto paga de juros?
Quanto custa carregar cada unidade de dívida?
Quanto a economia cresce?
Quem detém os títulos públicos?
Qual é o prazo e a indexação da dívida?
E, sobretudo:
quanto da dinâmica fiscal brasileira decorre do resultado primário e quanto decorre do custo financeiro da própria dívida?
Entre 2022 e 2024, o Brasil apresentou déficit primário médio de aproximadamente 0,47% do PIB, diante de 3,07% nos Estados Unidos.
Apesar disso, os déficits globais médios foram relativamente próximos: 6,13% e 6,50% do PIB, respectivamente.
A diferença estava fundamentalmente na composição.
A despesa líquida de juros brasileira alcançou aproximadamente 5,67% do PIB, contra 3,43% nos Estados Unidos.
E isso ocorreu mesmo com os Estados Unidos carregando dívida pública significativamente maior em proporção do PIB.
Esses números não demonstram que o gasto público seja irrelevante.
Demonstram algo mais preciso:
não se pode explicar a dinâmica fiscal brasileira olhando apenas para o gasto primário e tratando o custo financeiro da dívida como se estivesse fora da própria dinâmica fiscal.
Quando abrimos a contabilidade, a “gastança” deixa de ser uma explicação.
Torna-se uma hipótese.
E hipóteses precisam ser confrontadas com os dados.
Nota metodológica
Resultado primário é o resultado das contas do governo antes dos pagamentos líquidos de juros.
A despesa líquida de juros corresponde à despesa de juros menos as receitas de juros do governo. Para o período 2022–2024, utilizam-se dados dos relatórios do Artigo IV de 2024 do FMI para Brasil e Estados Unidos, evitando a mistura de diferentes vintages.
A taxa implícita nominal aproximada é calculada pela razão entre despesa líquida de juros e estoque médio da dívida bruta. Como relaciona juros líquidos a dívida bruta, deve ser interpretada como indicador comparativo aproximado, e não como taxa contratual exata do estoque de títulos. Não corresponde à Selic e tampouco é uma taxa real de juros, pois a inflação não foi descontada.
Fonte geral: Fundo Monetário Internacional (FMI), Brazil: 2024 Article IV Consultation, United States: 2024 Article IV Consultation, Western Hemisphere Regional Economic Outlook; Federal Reserve Bank of St. Louis (FRED). Cálculos e elaboração própria.
Leituras recomendadas
FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL. Brazil: 2024 Article IV Consultation — Press Release; Staff Report; and Statement by the Executive Director for Brazil. IMF Country Report n. 24/209. Washington, D.C.: IMF, 2024.
FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL. United States: 2024 Article IV Consultation — Press Release; Staff Report; and Statement by the Executive Director for the United States. IMF Country Report n. 24/232. Washington, D.C.: IMF, 2024.
FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL. Fiscal Monitor. Washington, D.C.: IMF. Diversas edições.
DOMAR, Evsey D. The “burden of the debt” and the national income. American Economic Review, v. 34, n. 4, p. 798–827, 1944.
BLANCHARD, Olivier. Public debt and low interest rates. American Economic Review, v. 109, n. 4, p. 1197–1229, 2019.
BOHN, Henning. The behavior of U.S. public debt and deficits. Quarterly Journal of Economics, v. 113, n. 3, p. 949–963, 1998.
Mauricio Martinelli Luperi é economista, doutor pela FGV-SP e mestre pela USP. Professor e pesquisador há mais de duas décadas, dedica-se ao estudo da macroeconomia, do desenvolvimento econômico, da política monetária e da história do pensamento econômico. Autor de trabalhos sobre equilíbrio geral, metodologia da economia, industrialização e regime de metas de inflação, tem concentrado suas pesquisas recentes na relação entre sistema financeiro, Banco Central e desenvolvimento, formulando o conceito de “autonomia capturada” para analisar a condução da política monetária brasileira.
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