Concursos, por Wilson Ramos Filho

A grande maioria dos empossados nos últimos tempos e das dezenas de milhares de “concurseiros” se identifica com a maneira bolsonara de existir

Foto Ac24Horas

Concursos

por Wilson Ramos Filho, Xixo

Nos últimos dez anos os concursos públicos para cargos no aparato repressivo do Estado (polícias, MP, magistratura e servidores destes órgãos) selecionaram majoritariamente (há exceções, óbvio) pessoas descomprometidas com o enfrentamento à injusta distribuição de renda no Brasil. Nem pensam nisso. Integram o que venho denominando como Direita Concursada. São, na maioria, jovens de classe média que não precisam trabalhar depois de formados. Dedicam-se a prestar concursos. Qualquer concurso. São bancados por familiares para somente estudar. Alguns acabam passando. Dificilmente se vê trabalhadores aprovados. As condições de concorrência são muito desiguais e os concursos são cada vez mais difíceis.

A grande maioria dos empossados nos últimos tempos e das dezenas de milhares de “concurseiros” se identifica com a maneira bolsonara de existir, com valores conservadores nos costumes e liberais na economia. São pequeno-burgueses típicos. Estiveram nas ruas defendendo o golpe, apoiaram a Lava-Jato, votaram no Coiso e defendem a meritocracia. Consideram-se melhores, mais preparados, que os demais brasileiros que vivem da venda de suas forças de trabalho.

Dia desses, em um grupo em rede social, no qual fui incluído por ser professor de Direito do Trabalho, uma jovem perguntou algo como “na real, vocês acham que vai haver concurso para Juiz do Trabalho?”. As respostas demonstravam desalento. Alguns mencionavam que em 2018 faltou 1 bilhão de reais para fechar as contas da JT e que neste ano os 21 bilhões previstos no orçamento serão novamente insuficientes. Fala-se mesmo em extinção da JT. Outros aludiam à queda nos ajuizamentos de ações depois da reforma trabalhista para prever um longo período sem novos concursos. Muitos lamentavam ter que mudar seus planos e trabalhar, a família já reclamando. Nenhum se manifestou contra as consequências nefastas da precarização dos direitos. Curioso foi constatar a quantidade de jovens se dizendo decepcionados. Votaram em Bolsonaro e agora não haverá mais concursos. Sentiam-se traídos.

O que era uma hipótese, mais do que previsível em face do discurso neoliberal, agora se confirma. O governo estuda a suspensão de todos os concursos. Se necessário terceirizarão. Contratarão servidores por intermédio de interpostas pessoas jurídicas, pagando aos contratados salários ínfimos e sem estabilidade no emprego. O sonho dos cargos públicos e das garantias a eles correlatas se esfuma.

Quem já soma tempo suficiente acelera sua aposentadoria. Aqueles que entraram no serviço público nas décadas de oitenta e noventa, temendo a reforma da previdência, correm para se jubilar. Restarão em muitos órgãos os que, concurseiros no passado, ingressaram no serviço público há menos de vinte anos. A Direita Concursada, de hegemônica, passará a ser cada vez mais majoritária. E sem freios. A recente decisão do STF, por apertados seis votos contra cinco, colocando limites à soberba e à arbitrariedade da Lava-Jato, ainda não pode ser considerada uma tendência.

Um dia, quando findar o Estado de Exceção, se imporá a questão do que fazer com esses funcionários do aparato repressivo do Estado, ciosos de seus privilégios e pouco afeitos à democracia e ao respeito à vontade popular.

7 comentários

  1. há décadas, algumas pessoas vem observando, inclusive nos blogues do nassif,a postura e conduta desses ‘concurseiros profissionais’; essa casta de mimados, que transferem seus ‘estrimiliques’ de impúberes mentais para as carreiras de estado.
    o perfil deles, dos aprovados nesses concursos para as carreiras de estado, é determinado por entidades totalmente desconhecidas da sociedade.
    o resultado só poderia ser essa caterva de “gangsteres” e “cretinos”, referidos com total precisão pelo gilmar mendes no julgamento de ontem.
    e o ministro conhece muito bem do assunto.
    o quê fazer com esses funcionários quando houver a redemocratização e uma nova constituição?
    simples: nas disposições transitórias dela, serão compulsoriamente submetidos a provas de títulos e competência para o exercício da função e, se reprovados, exonarados sumariamente, sem direitos a qualquer título.

    • Correto em sua análise. E outra.Nesses concursos, criar cotas para aquele pessoal que não venham da burguesia, que já vem da família com pensamentos elitistas e preconceituosos.E também, acabar com a estabilidade dessa gente.Magistrados que fugirem da conduta do habitual, seriam demitidos sumariamente.Se a esquerda voltar ao poder,terá que ser feito um pente fino nessa gente e não deixar pedra sobre pedra.

  2. “Votaram em Bolsonaro e agora não haverá mais concursos. Sentiam-se traídos.” Estudam tanto e não entendem que estado mínimo significa menos gente no estado. Terceirizar tem comissão das empresas que ganham os contratos, concurso público não tem

    É um castigo merecido

    Ótimo artigo!

    • E fora que podem colocar quem quiserem nos cargos, sem problema nenhum de nepotismo…..

      Ou seja os concursos foram regulamentados na CF para acabar com o nepotismo e apadrinhamento, e a terceirização vai trazer toda essa desgraça de volta ao serviço publico……..

  3. Pra mim esses concurseiros tem outro nome: idiotas úteis.
    São bons apenas na área a qual se dedicam e nada mais. Amam os tais “proventos”…. Em contrapartida odeiam o conhecimento, abominam a cultura e detestam quem pensa.

    • É isso ai Marcos K. Esses cretinos coitados, são uns pobretões ignorantes e desprovidos de humanidade.
      Provavelmente, esperam ser enterrados encerrados em seus cofres cheios de moedas.

      Orlando

  4. Existem muitos concurseiros ou concursandos que se dedicam a estudar para ingressar no serviço público para trabalhar em prol da sociedade e garantir condições melhores de trabalho, que apesar de toda dedicação estão desempregados ou em subemprego. É um erro fazer generalizações, pois em tantas milhões de pessoas, existem pensamentos e motivações diversas. Esquerda e direita são corentes ideológicas “garantido na constituição” e não é um ser humano, pois afinal cada um é cada um “DNA, Digital, personalidade, consciência”. Se nós ditos com a ideologia da esquerda com um pensamento progressista não respeitarmos as diferenças, não influenciaremos nada e nem a ninguém. A democracia deve ser respeitada devemos debater, sim, ideias e não atacar pessoas. Termos como “idiotas, inúteis” e generalizações não contribuem em crescimento e sim em distanciamento e falta de reflexão. A propósito comecei a estudar para concursos depois de sofrer discriminação por ser mulher no local em que trabalhava. Só mais uma questão nos últimos anos se investiu muito dinheiro para construir uma ideia que levou a eleição do Bolsonaro, então, muita gente que votou nele infelizmente foi somente manipulado mesmo. Mas… Não precisamos amar o próximo como a nós mesmos, mas respeitá-lo é uma obrigação para quem quer o mundo mais humano e cooperativo.

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