5 de junho de 2026

Elton Medeiros: um orgulho do samba do Brasil, por Eliete Negreiros

Elton Medeiros deixa uma obra maravilhosa. Um tesouro. Seus sambas estão e estarão entre as mais belas canções populares brasileiras

Jornal da USP 

Elton Medeiros: um orgulho do samba do Brasil

por Eliete Negreiros*

Momento de luto no samba. Dia 3 de setembro morre o grande sambista Elton Medeiros. Deixa uma obra maravilhosa. Um tesouro. Seus sambas estão e estarão entre as mais belas canções populares brasileiras. Não são apenas belos sambas, o que já seria muito. São canções emblemáticas que, mesmo sendo eternas, falam de uma época, de um modo de viver, de ser, de compor. Só para citar algumas: O sol nascerá, com Cartola, Pressentimento, com Hermínio Bello de Carvalho, Mascarada, com Zé Kéti, e Onde a dor não tem razão, com seu parceiro mais constante, Paulinho da Viola.

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Elton Medeiros nasceu na Glória, no Rio de Janeiro, no dia 22 de julho de 1930. Estava com 89 anos. Sobre ele, Luiz Fernando Viana disse: “Viveu o suficiente para testemunhar o seu reconhecimento como mestre em tudo que se propôs a fazer em música – compositor, cantor, ritmista e até pensador, já que era um militante contra a estigmatização racista do samba como algo menor”.

Elton Medeiros em foto de 2011, durante lançamento do livro Ensaiando a canção – Paulinho da Viola e outros escritos, de Eliete Negreiros – Foto: Arquivo pessoal da autora

Em sua juventude, tocava trombone e talvez aí esteja a origem de tão refinadas melodias. Sobre isso, Zuza Homem de Mello disse: “Do mesmo nível dos mais destacados compositores da história do samba, Elton Medeiros levava uma vantagem que se reflete nitidamente em sua obra, a de ter sido trombonista. Suas melodias tinham uma elaboração mais refinada, sua obra é mesmo a de um compositor diferenciado”.

Outro elemento que o identifica é a sua inconfundível caixinha de fósforos, que ele tocava como ninguém. Basta lembrarmos das gravações de Para ver as meninas (Paulinho da Viola) e Meu mundo é hoje (José e Wilson Batista), ambas por Paulinho da Viola.

Os anos 60 foram especialmente marcantes para ele. Nessa década, fez parte de dois grupos de samba muito importantes: A Voz do Morro e Os Cinco Crioulos. Formavam este último: Elton, Paulinho da Viola, Jair do Cavaquinho, Nelson Sargento e Anescarzinho do Salgueiro.

Elton Medeiros, Eliete Negreiros e Eliane Faria, filha de Paulinho da Viola, Rio de Janeiro, abril de 2011 – Foto: Arquivo pessoal da autora

Em 1961 ele e Cartola compuseram O sol nascerá. Há uma história conhecida e surpreendente sobre a criação desse samba. Ele nasceu de um desafio: num encontro, um amigo os desafiou a fazerem um samba naquele momento. E surgiu esta beleza, que veio a ser gravada por Nara Leão, em seu disco de estreia, em 1964. Foi nessa década também que Elisete Cardoso gravou dois sambas seus: Meu viver (Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho e Kléber) e Rosa de Ouro (Elton Medeiros, Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho). Elisete ouviu as canções no restaurante Zicartola, no antológico show Rosa de Ouro, criado por Hermínio Bello de Carvalho e que revelaria Clementina de Jesus. Conta Elton: “O Zicartola nasceu dos encontros na casa do Cartola, na Rua dos Andradas. O Cartola se reunia com a gente”. Foi lá que nasceram dois dos principais shows do período: Rosa de Ouro e Opinião. E é por isso que Hermínio Bello de Carvalho disse que o “Zicartola não foi um restaurante, foi um movimento cultural”.

Foi em volta de Cartola que Elton Medeiros e Paulinho da Viola foram tecendo os laços de uma grande amizade e de uma parceria musical que os uniria por toda vida – RecomeçarVida e Onde a dor não tem razão.

Um dia, eu estava pensando nessa incrível parceria. Como será que eles compunham? Quem fazia o quê? Elton, a música e Paulinho, a letra? Seria o mais provável. Mas… quem sabe fizessem ambos as duas coisas? Ou não havia regra, cada vez acontecia de um jeito? Eu podia perceber que em algumas composições a melodia parecia ter a assinatura do Elton, como em Vida e em Onde a dor não tem razão. Mas não tinha certeza. Fui então perguntar para o Alexandre Rainer, amigo e produtor do Elton, que respondeu o seguinte: “Ele me disse que as composições dele em parceria com Paulinho alternam melodias de um e de outro e nas letras o mesmo caso, sendo que no processo criativo os dois se permitem também sugestões de frases melódicas e versos, tanto de um como de outro. No caso de Vida, a melodia é toda dele e a letra toda do Paulinho. É o mesmo caso de Onde a dor não tem razão.

Paulinho da Viola compôs um lindo samba para o amigo Elton Medeiros, Um cara bacana. E é com esses versos que termino esta homenagem ao grande sambista, mestre que tive a felicidade de conhecer, de ouvir, de gravar – Peito vazio, parceria com Cartola, e O melhor carinho, parceria com Eduardo Gudin – e de ter como amigo querido nesta vida:

Carregar uma lua no peito e a fama/ De tecer melodias em busca de um samba/ Que desfaz e refaz/ Como fosse um menino/ É assim que se tem a essência/ De um cara bacana/ Aprendiz de uma escola de amor onde o lema/ É criar e sonhar espalhando poemas/ E se o sol nascerá/ O melhor é sorrir/ Pra levar esta vida […] E são tantas histórias e tantos parceiros/ Sou um deles e posso mostrar seu perfil/ De quem falo, é claro/ É de Elton Medeiros/ Um orgulho do samba do Brasil.

Eliete Negreiros – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

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