Forças Armadas e o risco de se tornarem valhacouto de fascistas e corruptos?, por Francisco Celso Calmon

As Forças Armadas ou assumem o governo como sendo militar, ou saiam enquanto podem. Permanecendo ficarão marcadas por corrupção e pela tragédia ocasionada pela pandemia.

Agência Brasil

Forças Armadas e o risco de se tornarem valhacouto de fascistas e corruptos?

por Francisco Celso Calmon

AS FAs, conhecendo o histórico do ex-capitão Bolsonaro, não deveriam ter-se envolvido com o governo. Nada em seu currículo é meritoso, pelo contrário, tudo é desabonador.

Publiquei um artigo neste blog, no dia 19 de junho de 2019, cujo título é:  Bolsonaro: militar ou miliciano? (encontra-se disponível no blog), no qual demonstrei, com fartura de provas, que está mais para miliciano do que para militar.

Sua carreira foi até tenente e no período que permaneceu no Exército foi um agitador lumpem, falastrão, muambeiro, e incapaz de colocar em prática até mesmo os seus planos terroristas. Não fez nenhum curso no oficialato. É despreparado como militar, como foi como deputado. É esse charlatão que está fraudulenta e perigosamente como comandante-em-chefe das Forças Armadas.

As FAs estiveram 21 anos no comando da nação e com poderes ilimitados, pois era uma ditadura, e entregaram o país com inflação altíssima, 178%, desemprego elevado, o poder de compra do salário mínimo caíra 50%, a dívida externa nos valores atuais de 1,5 trilhão, e muito mal vista no exterior, por conta das graves violações aos direitos humanos – um rastro de barbárie e sangue.

Foi esse o quadro econômico final da ditadura, sem apoio popular interno, nem mesmo das forças políticas de direita, só contava com o desespero da extrema direita, militar e civil, e entre os seus adeptos lá estavam, à época, o tenente Bolsonaro e o capitão Augusto Heleno.

Bolsonaro vem cooptando o apoio das FAs com generosos aumentos nos soldos dos militares, bem como através de nomeações para cargos, atualmente na ordem de três mil militares no governo, portanto, um governo militarizado.

Esses 3 mil militares no governo devem ter aumentado suas contas bancárias ao triplo. Se por um lado, o apego deles é um estimulo na defesa do governo, por outro lado, causa inveja aos que não estão, porém, por ora, não reclamam, por conta do aumento que tiveram. Mas, com o tempo, a comparação entre os que estão na caserna e os que estão na Administração Pública, a diferença de padrão de vida vai incomodar, mormente com o governo fazendo água, ou seja: perdendo aprovação popular e com resultados econômicos, sociais e sanitários calamitosos.

De novo ficarão marcadas como sofríveis gestoras da Administração Pública.

As Forças Armadas são instituições de Estado, por isso mesmo, não deveriam se confundir e promiscuir-se com governo, seja qual for o seu colorido, pois destinam-se à defesa da Pátria e à garantia dos poderes constitucionais. Como poderão garantir os poderes constitucionais se estiverem comprometidas com um só poder, o Executivo?

Governar é para políticos com experiência. Administrar a saúde, especialmente em tempos de pandemia, é para médicos com experiência em saúde pública, entretanto, a irresponsabilidade do presidente e o propósito de comprometer mais e mais os militares, está levando a conta da crise política, econômica e sanitária a ficar com os militares.

Bolsonaro sabe que se apeado do governo, acabará preso com os filhos.  Vale a pena as Forças Armadas serem usadas para servir de escudo a um delinquente terrorista virótico?

É muito provável que o ano termine com o Trump derrotado nas eleições americanas e que os novos prefeitos eleitos no Brasil sejam antibolsonaristas. Neste cenário para 2021, a China, tão ofendida pelo  governo bolsonarista, estará assumindo o papel de país mais importante economicamente e deve haver nova reorganização mundial, novos valores, e a saúde e a vida mais valorizada e o consumismo, oxalá, menos, enfim,  é bem possível que a solidariedade e o cooperativismo assumam relevância e o capitalismo de desastre e o belicismo nazifascista reduzam seus domínios e sejam estancados no Brasil.

As Forças Armadas ou assumem o governo como sendo militar, ou saiam enquanto podem. Permanecendo ficarão marcadas por corrupção e pela tragédia ocasionada pela pandemia. A Covid-19, tendo com aliado o presidente, matou mais de 30 mil brasileiros, meta desejada há muito tempo pelo Bolsonaro.

Continuar e radicalizar, deixará de ser, na prática, uma instituição de Estado, comprometendo seriamente a sua identidade e ficará com mais uma dívida com o povo brasileiro e vista no exterior como Forças a serviço de um presidente miliciano. Um fardo que ficará na história da instituição.

Bolsonaro passará, mas a instituição é permanente, a mancha jazerá para sempre, assim como as atrocidades da ditadura, inaugurada com o golpe de 1964, permaneceram registradas na história.

O movimento pela anistia ampla, geral e irrestrita na ditadura começou no seio das famílias de militares e de prisioneiros políticos, quem sabe, talvez, as atuais famílias militares (esposas, maridos, filhos, netas, sobrinhas)  também não estejam indignadas pelo que assistiram da reunião de 22 de abril, vendo seus parentes de cabeça baixa recebendo reprimenda de um sociopata incontrolável exigindo dos presentes serem protetores dele, dos filhos e dos amigos milicianos, em plena pandemia.

Antes que manchem de novo de barbárie e sangue do povo as suas fardas, já salpicadas do branco dos 39 quilos de cocaína num avião militar, tomem  tenência antes que a revolta popular os obrigue a retornar de cabeça baixa para a caserna, de onde não deveriam nunca sair, salvo em defesa da pátria.

Francisco Celso Calmon é Administrador, Advogado, Coordenador do Fórum Memória, Verdade e Justiça do ES; autor dos livros Sequestro Moral E o PT como isso?(1997) e Combates pela Democracia (2012), e autor de artigos nos livros A Resistência ao Golpe de 2016 (2016) e Comentários a uma Sentença Anunciada: O Processo Lula (2017).

 

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