Frustrações, por Abrão Slavutzky

Toda história de amor é uma história de frustração, e aprender a amar é aprender a conviver com frustrações e gratificações

Imagem: balanço, de acrílico e agulhas (Nazareth Pacheco)

do Psicanalistas Pela Democracia 

Frustrações, por Abrão Slavutzky

A arte da vida está em tornar compatíveis os desejos incompatíveis. O  desafio de uma vida, uma prática difícil, por momentos impossível. Para desfrutar a vida, é preciso aprender a suportar as frustrações. Frustração é a recusa de um desejo, de uma satisfação pulsional, pois nem tudo que se deseja está ao alcance. Aí podem se gerar os sofrimentos, e não é por acaso que dos Dez Mandamentos da Bíblia sejam as proibições mais lembradas: Não roubarás, Não matarás. Aliás, do sexto mandamento ao décimo são as proibições, o que o ser humano não pode fazer. Não pode satisfazer suas pulsões, seus desejos, as tendências antissociais. Exemplos de frustração não faltam, como ser traído por um amigo em situação de urgência pela qual você está passando, trabalhar muito mas ser dispensado do emprego, estudar muito mas ir mal na prova, ser abandonado numa relação amorosa. Diante das frustrações podem ocorrer reações agressivas, depressivas ou ambas. Os vícios estão ligados a frustrações, pois as dependências são formas de aliviar as dores existenciais, criando um ciclo vicioso. Também tem os que vão à luta para superar perdas, desprezos, transformando as frustrações em superações impressionantes.

Toda história de amor é uma história de frustração, e aprender a amar é aprender a conviver com frustrações e gratificações. A capacidade de tolerar a frustração requer uma capacidade negativa ou resiliência. Ambas as expressões revelam o quanto, às vezes, é possível transformar derrotas em vitórias, lágrimas em sorrisos. Desenvolver uma capacidade de pensamento que transformem as pulsões em artes, estudos, novas iniciativas.

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A frustração decorre das expectativas do poder do outro, pois, quanto maior é, mais difícil será suportar a frustração. Um exemplo é o que ocorreu com o “Rei Lear” de Shakespeare. Lear, ao envelhecer, deseja dividir seu reino entre suas três filhas. Entretanto pede a elas, em troca do que daria, palavras de amor, uma casa para si e cem cavaleiros de sua guarda. O Rei assim transforma suas filhas em mães. O Rei ao final da vida se manifesta como uma criança, busca criar uma seita de adoradoras. É o Bobo quem diz no ato I cena IV: “Não devias ter envelhecido antes de teres criado juízo”. É ridículo quando se envelhece sendo imaturo, pedinte de provas infinitas de amor, com a arrogância de saber tudo. Foi o que ocorreu ao Rei Lear numa tensa conversa com Cordélia, filha de sua preferência. Ela retém suas palavras na mesma medida em que ele é ávido por elas. Lear é a expressão das pessoas que sempre têm toda a razão, contra o mundo todo, e expressa sua loucura.

Portanto, a frustração decorre do fato de que uma pulsão não pode ser satisfeita. A norma que se estabelece, a proibição, resulta numa privação.“Cabe esperar que as classes relegadas invejem aos privilegiados suas prerrogativas” ; “Uma cultura que deixa insatisfeitos a um número tão grande de seus membros e os empurra à revolta não tem perspectivas de se conservar de forma duradoura, nem o merece”. Em outras palavras: a luta de classes põe de um lado a classe relegada e de outro a classe privilegiada. É possível imaginar esse pensamento como sendo de um marxista  ou de algum esquerdista. Acreditem se quiserem, mas foi escrito por um homem avesso à política.

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Seu nome é Sigmund Freud, e os curiosos podem buscar o trecho no segundo capítulo do livro “O futuro de uma ilusão” de 1927. Pensamento importante diante das revoltas populares atuais. A Psicanálise, em geral, está distante do que ocorre fora dos consultórios e das instituições psi. Entretanto, Freud, a partir da Primeira Guerra Mundial, se acordou para o mundo. Pobre é o nosso narcisismo das grandes indiferenças. Entretanto, sempre é tempo de despertar.

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