Governo destrói o Enem na cara dos brasileiros, por Gustavo Conde

O Enem era o mais espetacular catalisador de sonhos dos brasileiros. Havia nele uma concepção educacional que era uma verdadeira obra de arte

Governo destrói o Enem na cara dos brasileiros

por Gustavo Conde

Erro no Enem, por menor que seja, é bola de neve. Todos os candidatos que se sentiram prejudicados por essa lambança inacreditável do MEC vão querer revisão da prova – e com razão.

É por isso o MEC já encerrou o recebimento das reclamações, que já atingiram 60 mil.

A ideia do governo nazista de Bolsonaro, todo mundo sabe, é acabar com o Enem.

E convenhamos: como é fácil destruir.

O Enem foi criado pelo ministro Paulo Renato Souza no governo FHC. Depois, foi aperfeiçoado pela ministro Fernando Haddad nos governos Lula (olha como o PT é despeitado, radical e polarizador: prosseguiu com uma política educacional do adversário!).

Um trabalho árduo, difícil com múltiplas pressões orçamentárias, técnicas e políticas vindas de todos os lados.

O resultado foi o maior e mais bem sucedido exame simultâneo de Ensino Médio do mundo, atrás apenas do Gaokao chinês, que atinge 10 milhões de inscritos.

(Proporcionalmente, o Enem é maior: em 2014, atingiu 8,7 milhões de inscritos; a população da China é 6,5 vezes a brasileira).

Em suma, um dos mais complexos exames educacionais do mundo, fruto de muita inteligência e muito espírito democrático (que atravessou governos), cuja aplicação demanda a logística de uma operação de guerra e cujo processo de correção lida com softwares sofisticados e imensas bancas especializadas para a correção das provas de redação, é solenemente jogado no lixo pela administração mais porca já vista na história do Brasil.

E tudo isso sob os olhares incrédulos da opinião pública, que é obrigada a testemunhar o desvio de ortografia do próprio Inep, o assassinato da língua portuguesa cometido diariamente pelo ministro da Educação e o ódio de um presidente que reclama do excesso de palavras em livros didáticos e insulta constantemente o mais respeitado educador do país, Paulo Freire.

Fora os espetáculos de nazismo explícito e o silêncio ensurdecedor do ministério da Justiça para absolutamente tudo o que acontece no país em termos de violações de direitos humanos.

A imprensa, que ao menor e mais insignificante problema no Enem durante os governos Lula e Dilma, fazia um estardalhaço gigantesco que durava semanas no topo das manchetes de jornal, com o dedo editorial apontado com muita raiva para o petismo, hoje, silencia.

Noticiam a destruição deliberada do Enem com a fleuma de um cadáver.

Vale lembrar que os candidatos que se submetem ao Enem, na maioria adolescentes, são muito sensíveis ao descaso do governo com relação ao exame. A quantidade de inscritos já desabou do golpe de 2016 para cá e os erros na correção de 2019 devem completar o serviço para desacreditar a prova em definitivo.

O Enem era o mais espetacular catalisador de sonhos dos brasileiros. Havia nele uma concepção educacional que era uma verdadeira obra de arte, contemplando toda a diversidade cultural de um país profundamente complexo e heterogêneo.

Valorizava-se a inteligência do candidato, sem menosprezar o domínio da norma culta, equilibrando ambas as competências para potencializar aquilo que realmente interessa: a produção de riqueza intelectual, material, civilizatória, tecnológica e de inovação.

A anulação da prova de redação mediante violação de direitos humanos era uma das mais espetaculares manifestações de civilidade que um país já oferecera ao mundo.

Era um exemplo e uma inspiração.

A ministra Cármen Lúcia, pressionada pelos nazistas que iam se criando sob o silêncio covarde do STF, revogou esse dispositivo técnico da grade de correção da redação.

Ou seja, disse em alto e bom som: podem violar direitos humanos à vontade.

Ela é responsável direta pelo espetáculo de horror protagonizado pelo ex-secretário de cultura Roberto Alvim.

O Brasil, hoje, é muito pior do que o pior Brasil da ditadura militar. É um país que promove abertamente a desigualdade social, a pobreza, a política de extermínio, a ideia de vingança e a ignorância truculenta dos assassinos bolsonaristas que vão fazendo “escola”.

Tudo isso em nome do ódio ao PT. Tudo isso sob o silêncio da mídia. Tudo isso regado à mais escandalosa corrupção, como no caso do repasse de verbas na Secom de Fábio Wajngarten, das candidaturas laranjas do ministro do Turismo Marcelo Álvaro Antônio, dos gastos do cartão corporativo da presidência da República, enfim, da estrutura corrupta de um governo tosco que opera sob a égide da vingança.

Faço votos de que o carnaval – a única instituição digna de respeito hoje no Brasil – produza a crítica necessária a esse massacre moral em curso no país.

Porque a crítica que emana do carnaval tem a participação do povo, diferentemente da opinião pública elitista e oportunista que se esconde na assepsia do discurso conciliador.

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1 comentário

  1. “O Brasil, hoje, é muito pior do que o pior Brasil da ditadura militar”.
    Apesar do evidente exagero retórico, dado que com os senões não estamos (ainda) numa ditadura formalizada; bem ou mal as instituições estão funcionando e algumas expressões de uma democracia, a exemplo das liberdades civis, ainda não foram confiscadas.
    Só que não basta só isso para que uma nação trilhe o caminho do desenvolvimento com justiça social. Há de se ter um norte e uma ambiência social, política e econômica com um mínimo de estabilidade para se atingir os objetivos nacionais atuais e permanentes.
    Para isso, há se ter um Executivo atuante e competente em termos administrativos-operacionais, articulado politicamente e que desperte confiança e entusiasmo na maioria da população.
    Infelizmente, o que temos é exatamente o oposto: um governo central capitaneado por um inepto, grosseirão, que, de forma inédita, incorpora todos os defeitos de seus antecessores mais uma cota pessoal, cujos auxiliares diretos(ministro(a)s, emulam o chefe nas bizarrices que seriam até folclóricas, se não fossem uma tragédia para o país.
    Caso, por exemplo, do ministro da (des)Educação, um rematado tolo que tenta camuflar a incompetência administrativa e indigência intelectual com incivilidades e espasmos de histrionices.

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