Mais novidades modernistas, por Walnice Nogueira Galvão

Como se constata, as novidades são muitas e não pecam pela falta de interesse. São livros, exposições, música, ópera, programas de rádio...

Mais novidades modernistas

por Walnice Nogueira Galvão

Livros, exposições, música, uma ópera, programas de rádio…Tudo isso, afora o que já comentamos nesta coluna (26/2, 11/3, 10/5), ganhou vida graças à instigação do Centenário da Semana de Arte Moderna de 22.

Uma vasta e abrangente exposição no Centro Cultural Fiesp da Avenida Paulista, Era uma vez o moderno (1910-1944), resultou de parceria com o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP), o maior centro existente de acervos e pesquisas sobre modernismo.  A curadoria de Luiz Armando Bagolin e Fabrício Reiner não se restringiu às obras de arte, desentranhando documentação menos corriqueira.

Saúde-se a publicação da monumental Edição Crítica de Oswald de Andrade por Jorge Schwartz, estudioso que vem há muitos anos se dedicando à edição das obras completas do autor modernista, o que já fez em diferentes formatos e diferentes editoras.  É um modelo de erudição e alta crítica literária. As 1.500 páginas desmentem sua modesta apresentação como Obra incompleta. Em primorosa edição da Edusp.

Devemos a Eliane Robert de Moraes a Seleta erótica de Mário de Andrade. Especialista   no Marquês de Sade, a autora, que já publicou uma antologia de poesia erótica, pinça nos escritos de Mário sua complexa relação com o tema. A colheita é abundante: em Macunaíma, a autora restaura e nos devolve o curioso fragmento censurado a partir da 1ª. edição.

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O livro Modernismos: 1922-2022, volume com 800 páginas de ensaios, é fruto dos esforços de dois especialistas nas vanguardas, a organizadora Gênese Andrade e o consultor Jorge Schwartz.  Um compêndio caleidoscópico, que abarca os mais variados aspectos do movimento e de seus desdobramentos. A assinalar a farta e inovadora presença das mulheres,  como estudiosas e como objeto de estudo. 

Tendência que é corroborada pelo livro da pesquisadora do IEB Ana Paula Cavalcanti Simioni, Mulheres modernistas – Estratégias de consagração na arte brasileira.  Argumentando que a proeminência de Anita Malfatti e Tarsila do Amaral é rara, em meio à hegemonia masculina entre os vanguardeiros, vai estudar os motivos destas duas exceções. Mais uma guinada rumo às mulheres, e da autoria de uma mulher.

O Diário confessional, organizado por Manuel da Costa Pinto, inédito que só tardiamente foi dado à luz, cobre os últimos anos de existência do escritor. Dá ao leitor acesso  ao que Oswald andou caraminholando e planejando no período final de sua vida.

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Uma dissertação de mestrado inédita é Modernistas à mesa: a coleção de cardápios de Mário de Andrade (1915-1940), de Paula de Oliveira Feliciano. Vem agregar-se ao livro de Rudá K. Andrade sobre Oswald à mesa, já comentado. Analisa a iconografia dos cardápios  de banquetes e jantares de cerimônia a que Mário de Andrade compareceu, tratando de colecioná-los.

Programas de rádio também concorreram para o maior brilho das celebrações. Um especial  da Rádio Cultura, no dia da festa da cidade a 25 de janeiro, intitulou-se “Modernistas das cavernas ou os futuristas de São Paulo”. O partido tomado revelou-se vivaz e original. ao  reconstituir a interação entre os principais artistas.  Oswald, Mário, Menotti Del Picchia, Anita Malfatti e Villa-Lobos, interpretados por 5 atores, procederam à leitura de textos, manifestos, cartas e entrevistas, memórias e notícias de jornal.

Outra iniciativa da Rádio Cultura teve um âmbito ainda maior. Foram 13 programas de Camila Fresca (do projeto anteriormente comentado, comandado pelo trio  Flávia Camargo Toni, Cláudia Toni e mais ela própria, Toda Semana: a música da Semana de 22): “Vanguarda e tradição: a música da Semana de 22”. Foram ao ar a partir de 5 de fevereiro, todos os domingos às 14 hs, com duração de 1 hora. Os programas enfatizaram como a música foi importante na Semana, e entraram pelos desenvolvimentos e legados, chegando até Tom Jobim.

Como se constata, as novidades são muitas e não pecam pela falta de interesse.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

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