Marielle Franco, mulheres negras em marcha e a urgência do “feminismo afro-latino-americano”, por Paula Nunes

Dois anos após o seu assassinato, as sementes de Marielle espalharam-se por todo o país e deram frutos.

Foto Deutsche Welle

Marielle Franco, mulheres negras em marcha e a urgência do “feminismo afro-latino-americano”

por Paula Nunes

Hoje, dia 27 de julho, Marielle Franco completaria 41 anos de vida. No último sábado, dia 25, lembramos o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha e Dia Nacional de Tereza de Benguela: duas datas importantes para o resgate político do feminismo negro e das mobilizações impulsionadas pelas mulheres negras no Brasil e em toda a América Latina.

Lélia Gonzalez (1935-1994), antropóloga negra e uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado (MNU), escreveu sobre a urgência de um “feminismo afro-latino-americano”, já que a construção da identidade da América Latina como conhecemos tem uma grande influência histórica das pessoas negras sequestradas do continente africano e aqui escravizadas.

Marielle representou em vida a potência desse feminismo: mulher, mãe, LBT, cria da favela da Maré e a sexta vereadora mais votada do Rio de Janeiro. Defensora de direitos humanos, entrou na Faculdade de Sociologia depois de estudar em um cursinho popular e acabou mestra ao pesquisar o impacto das UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora) nos territórios cariocas. Seu último evento público antes de ser assassinada teve como tema “mulheres negras movendo estruturas”.

Dois anos após o seu assassinato, as sementes de Marielle espalharam-se por todo o país e deram frutos. Na política, o número de parlamentares negras ativistas dos movimentos sociais aumentou nas últimas eleições. Nas ruas, periferias e universidades, diversos coletivos surgiram em sua homenagem. Cada vez mais urgente, como lembrou Lélia Gonzalez, o feminismo negro hoje é parte das principais disputas políticas da sociedade.

Há cinco anos, a Marcha de Mulheres Negras em São Paulo carrega o legado teórico e político das feministas negras de gerações anteriores e organiza manifestações com milhares de pessoas no 25 de julho. Este ano, com formato virtual, o mote da mobilização foi “Nem cárcere, nem tiro, nem covid: corpos negros vivos! Mulheres negras e indígenas! Por nós, por todas nós, pelo bem viver!”. Com uma programação que começou no dia 15 de julho e terminará em 31 de julho, os debates representam a pluralidade do feminismo negro, suas diferentes vertentes e seus principais temas de mobilização.

No ano em que mobilizações antirracistas ganharam o mundo a partir do assassinato de um homem negro nos Estados Unidos, a luta pelo direito de respirar no Brasil, impulsionada pelas mulheres negras, questiona as diversas formas de nos matar: desde o menosprezo dos efeitos da pandemia da Covid-19 pelo presidente da República, que já vitimou quase 90.000 pessoas, até a atual política de Segurança Pública, que mata e encarcera jovens negros todos os dias.

Paula Nunes – advogada, especialista em Segurança Pública, ativista do movimento negro e pré-cocandidata da candidatura coletiva “Bancada Feminista do PSOL” em São Paulo

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