Memória de Varsóvia: Resistência e luta pela vida, por Caio Henrique Lopes Ramiro

Para aqueles e aquelas que se interessam pelos acontecimentos ligados à segunda guerra planetária, ao período sombrio da história alemã com o nazismo e ao Holocausto, uma das questões que se apresentam está ligada à resistência.

Memória de Varsóvia: Resistência e luta pela vida[1]

por Caio Henrique Lopes Ramiro[2]

No último domingo, dia 19 de abril de 2020, completaram-se 77 anos da insurreição dos judeus do gueto de Varsóvia, na Polônia, ocorrida no dia 19 de abril de 1943, também um domingo, véspera da páscoa judáica[3]. A pretensão aqui é de recuperar a memória do ato de resistência de homens e mulheres que lutaram contra o projeto imperial e o poderio bélico da Alemanha à época capitaneada por Hitler e pelo partido nazista. Vale destacar que no ano de 2001 foi produzida uma dramática narrativa cinematográfica, a saber: Uprising, filme escrito por Jon Avnet e Paul Brickmann ─ que no Brasil ganhou como título Insurreição ─ que relata de maneira muito interessante o levante dos judeus de Varsóvia, liderados por Mordechai Anielewicz (Hank Azaria).

Para aqueles e aquelas que se interessam pelos acontecimentos ligados à segunda guerra planetária, ao período sombrio da história alemã com o nazismo e ao Holocausto, uma das questões que se apresentam está ligada à resistência. Na literatura de testemunho dos campos de concentração, não é incomum o relato da questão: Por que não resistiram? Antes mesmo de meditarmos a respeito da resistência, mostra-se interessante notar que a proposta da lembrança de Varsóvia denuncia uma técnica política utilizada pelos nazistas, mas que não foi uma invenção de seus “gênios”, sem dúvida, malignos. Conforme Giorgio Agamben destaca ─ no livro que inaugura o projeto Homo Sacer, a saber: “o poder soberano e a vida nua”─, o campo pode ser compreendido como o paradigma biopolítico da modernidade e, desse modo, o filósofo italiano pretende sublinhar que esse último pode encontrar seus ancestrais remotos, não sem alguma controvérsia entre os historiadores, nos campos de concentração espanhóis em Cuba, surgidos a partir de 1896 com o objetivo de reprimir a insurreição da população da colônia do Caribe ou, ainda, nos concentration camps ingleses do início do século XX. De qualquer modo, o que interessa a Agamben é destacar que o campo é utilizado como uma técnica da guerra colonial europeia em que o estado de exceção é extendido a uma população civil inteira.

Além disso, ressalta Agamben que os primeiros campos de concentração na Alemanha não surgem no período em que sobe ao poder o nazismo (1933-1945), mas aparecem em 1923, em governos social-democráticos, sendo que nesse ano foi nomeado como chanceler do Reich Gustav Stresemann. A utilização de tal expediente de combate ao inimigo político encontra seu fundamento jurídico nas Schutzhaft (que em tradução literal significa custódia protetiva), tendo sido, então, utilizado após a proclamação do estado de exceção com apoio no artigo 48 da Constituição de Weimar, oportunidade em que aos suspender os direitos fundamentais dos cidadãos, fecharam-se milhares de militantes comunistas e, ainda, criaram os Kozentration für Ausländer que abrigaram refugiados hebreus orientais.

A capital polonesa à época se encontrava ocupada pelas forças militares de Hitler, que se projetavam como uma sinistra sombra autoritária pela Europa e utilizavam como técnica de combate à política do campo. Nesse sentido, tendo em vista o caráter espectral dessa racionalidade técnica, que se constitui como uma localização-deslocante, os nazistas recuperam uma antiga tradição de combate dos europeus e a utilizam na Polônia ocupada, com o objetivo de reunir os judeus em guetos. Como bem destaca Roberto Bueno[4], no caso de Varsóvia era crescente o número de pessoas que foram sendo aprisionadas em um pequeno espaço da cidade, apresentando-se no horizonte uma única certeza, a saber: a morte.

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Para Bueno a constituição do espaço de exceção do gueto de Varsóvia traduz a face da bárbarie nazista, uma vez que o objetivo dos ocupantes da Polônia era o da construção de um espaço para a destruição de vidas, da liberdade e da dignidade humanas, com a exposição dos judeus à morte e a toda sorte de violências. Dessa maneira, pode-se observar a comprovação de tal política da morte com os dados surgidos a respeito dos campos após o término da Segunda Guerra Mundial, oportunidade em que se verificou, de acordo com Roberto Bueno, o extermínio pelos nazistas de ¾ da população do gueto, o que se traduziria “como uma ‘eficiente’ organização para o assassinato”. No testemunho de Marek Edelmann, sobrevivente do Gueto de Varsóvia, verifica-se algo a dimensionar das condições de sobrevivência e da dor perpetrada aos prisioneiros, pois no bairro onde viviam cem mil pessoas, foram como diz, amontoadas 400 mil, com a convivência de sete a oito pessoas num quarto, assim, “havia fome, aperto e frio”.

Ao se considerar o gueto a partir da estrutura espectral do campo, torna-se possível compreender que dentro de um pequeno espaço situado em área empobrecida da capital polonesa, fechado com muros, cercas de arame farpado e toda sorte de dispositivos de vigilância, constitui-se um espaço de anomia, ou seja, um estado de exceção como vazio normativo, o que significa, em última análise, a suspensão da normatividade jurídica e moral. Nessa linha, o princípio válido e de sustentação das práticas nazistas é o de que “tudo é possível”, em especial naquilo que diz respeito à violência contra o inimigo judeu. Não obstante, o gueto contava, ainda, com um milicianato interno de prisioneiros desarmados, organizado pelos nazistas a fim de se prevenir as fugas, prática de desigualação hierárquica que também será verificada nos campos de concentração e extermínio. Essa última não é a única coincidência do gueto com o campo, uma vez que a gama de restrições impostas aos forçados habitantes de ambos os lugares eram em muito semelhantes, em especial no que diz respeito à quantidade de alimentos notoriamente racionados, totalmente insuficientes para as necessidades elementares de um ser humano. Além disso, na luta pela sobrevivência, os esgotos serviam de abrigo e esconderijo das constantes rondas e buscas das SS (Schutzstafell), grupo paramilitar, que podemos compreender a partir do léxico do historiador Daniel Goldhagen, como os sombrios, brutais e leais carrascos voluntários de Hitler e do partido nazista. No que tange às mílicias judias, Roberto Bueno as caracteriza como a radicalização do mal e da perversidade das práticas nazistas, em especial em sua forma do “conselho de judeus” que, dentre outras tarefas, tinha de limpar e organizar o campo, inclusive com o dever de dar “bom” andamento as deportações para as fábricas da morte operadas pelo regime. Dessa forma, foram deportados de Varsóvia para Treblinka cerca de 300 mil judeus. As deportações começaram no verão de 1942 e, após o vazamento das informações dos assassinatos em massa e sua chegada ao gueto de Varsóvia, organizou-se a Z.O.B (Organização Judaica Combatente, em polonês: Zydowska Organizacja Bojowa), liderada por Mordechai Anielewicz.

A crueza de tal racionalidade técnica terá também a sua imagem nos campos de extermínio nazistas. Conforme o testemunho do sobrevivente italiano Primo Levi, houve a elaboração pelas SS de uma política de seleção e de privilégios dentre os prisioneiros judeus. Alguns foram escolhidos como Kapos, algo como uma posição hierárquica e de auxílio dos SS e, para além de outros critérios, eram selecionados aqueles indíviduos particularmente ferozes, vigorosos e desumanos. De outro lado, alguns se tornaram muçulmanos ─ expressão que era utilizada pelos prisioneiros de Auschwitz e de outros campos para se referirem às pessoas que se encontravam totalmente destruídas justamente pelo cumprimento integral das ordens, do trabalho, por comerem apenas a ração, ou seja, pelo fato de obedecerem se tornaram um feixe de funções biológicas cuja postura arqueada do corpo lembra a maneira de oração dos muçulmanos ─, vindo a ser parte constitutiva dos Sonderkomando, grupo encarregado de tarefas como o enterro dos mortos, bem como da condução para e da limpeza das câmaras de gás. Os muçulmanos são descritos por Levi como aqueles que desejam sucumbir, pois já não tem interesse pela vida, tornando-se mortos-vivos, figura que é compreendida por Giorgio Agamben como um produto biopolítico do campo.

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Feitas estas considerações acerca do sinistro espaço de exceção do campo, que se materializa e toma forma legal no gueto de Varsóvia, voltamos à questão: Por que não resistiram? Essa pergunta, em linhas gerais, pode ser colocada para além das demarcações do recorte da memória do gueto e da luta pela vida ali existente. A resistência já foi considerada um direito natural dos seres humanos, em especial no que diz respeito à luta contra a tirania, justificando, inclusive, o tiranicídio (assassinato do tirano). Contudo, houve o interesse de amaldiçoá-la, de criminalizá-la, a fim de que fosse esquecida para a despolitização da vida e a neutralização da luta e dos corpos, docilizando-os. Desse modo, Primo Levi bem destaca em seu texto O tempo das suásticas, que compõe o livro Assim foi Auschwitz, que a resistência sempre teve e ainda têm inimigos, esses últimos articulam para que não se fale dela, para que não se ative sua memória. Ora, outra não foi à estratégia nazista, especificamente de Himmler, que ordena a Jürgen Stroop a destruição, em abril de 1943, do que restava do gueto de Varsóvia, após já terem sido emitidas, em janeiro do mesmo ano, as ordens de deportação em massa. Todavia, as tropas lideradas por Stroop vão se deparar com a inesperada resistência judia organizada pela Z.O.B. Motivados pela dor e pelo desespero, no dia 19 de abril de 1943, iniciou-se o primeiro levante contra as forças nazistas na Europa, oportunidade em que cerca de 750 partisans, homens e mulheres, em heróica atitude, iniciaram um combate desproporcional contra as forças de Hitler, em muito superiores em nutrição, armamento e contigente.

A ordem de destruição do gueto dada por Himmler tinha como prazo 3 dias. No entanto, o combate perdurou por 27 dias (19/04/1943-16/05/1943), findando-se o conflito no mês de maio de 1943, “com o paradigmático incêndio da sinagoga do gueto”. No horizonte desse conflito, do ponto de vista dos prisioneiros que se levantaram para resistir à violência nazista, jamais esteve à perspectiva da vitória. Justamente aqui se encontra a virtude da coragem, podendo-se, talvez, reconhecer a herança das Termópilas e dos bravos espartanos. Dessa maneira, a memória da resistência em Varsóvia ultrapassa a consideração do objetivo básico de um combate, qual seja: o triunfo. Aqui parece oportuno lembrar novamente com Primo Levi, em Se isto é um homem, da sombria imagem do campo de extermínio de Auschwitz, para dimensionar a memória da dor, mas, também, da luta, da resistência pela vida daqueles que se encontraram no espaço anômico erguido no coração da Europa e diante do dilema de sucumbir ou salvar-se. Nesse lugar rigorosamente controlado, instituiu-se uma gigantesca experiência biológica e social, oportunidade em que o experimentador pode estabelecer condições tais para examinar o comportamento do “animal-homem perante a luta pela vida”.

Assim, mesmo sem a perspectiva elementar da vitória, os combatentes continuaram lutando com o que tinham em mãos e no espírito, ou seja, a certeza de que era imperativo recuperar a tradição daqueles que se opõem aos tiranos, à tirania e à injustiça; era necessário lutar pela liberdade daqueles que virão depois de nós, logo, o que estava em jogo era que em política, entre muitas coisas e em alguns momentos, pode-se dar o cenário do antagonismo de máxima intensidade com a decisão que nos reconhece como o inimigo político (hostis) último, o que implica que será preciso arriscar a própria vida para sedimentar à resistência como esperança para a liberdade, desse modo, torna-se imperiosa a revolta contra a dominação e a falta de sentido da dor infligida aos corpos e a alteridade e, portanto, a pergunta pelo sentido da vida se repõe e apresenta uma possibilidade de leitura do caráter histórico da experiência da morte, questão já meditada por tantos sistemas de religião, tradições metafísicas e culturais, passando a morte a poder ser reconhecida como um dia em que se valeu a pena viver e, dessa maneira, retomando o canto dos poetas ou mesmo os ritos e monumentos funerários, ela pode assumir, na epopéia, por exemplo, a função de construção da memória coletiva, de tal modo, quando falamos dos resistentes de Varsóvia e de sua morte é aos vivos e ao nosso tempo que nos dirigimos.

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[1] Agradeço de maneira muito especial aos amigos professores Roberto Bueno e Felipe Alves da Silva, pela oportunidade do diálogo, pelas preciosas sugestões e pelo estímulo à publicação.

[2] Professor no curso de direito do Centro Universitário Central Paulista (UNICEP).

 

[3] Os registros de dados do levante foram retirados da The Holocaust Encyclopedia. Em especial ver o verbete: Levante do gueto de Varsóvia. In: https://encyclopedia.ushmm.org/content/pt-br/article/the-warsaw-ghetto-uprising. Acesso em: 20/04/2020.

[4] Todas as referências ao amigo prof. Dr. Roberto Bueno dizem respeito ao seu instigante texto Resistir ao extermínio, publicado no último dia 19/04/2020 em: https://www.brasil247.com/blog/resistir-ao-exterminio. Acesso em 20/04/2020.

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