Merencório, por Wilson Ramos Filho (Xixo)

O filme ressignifica, criando empatia, com as distintas e opostas narrativas. Brincadeirinha. Viram como essas palavras que me irritam empobrecem o texto?

Merencório

por Wilson Ramos Filho (Xixo)

Certas palavras entram em moda. Outras saem das ruas e textos e restam esquecidas no fundo de esquizofrênicas gavetas do passado e nos dicionários. Gosto delas. Das da moda, muito menos. Irritam-me tanto quanto os anglicismos intrusos em nosso cotidiano. Por isso, debochado, grafo-os foneticamente, répiauar ou laive, e tento evitar as modinhas de usar palavras como ressignificar, empatia e narrativas, por exemplo. Sou esquisito, bem mais que o Fernando Morais, que também implica com algumas palavras.

Lembrei de uma encontrada em músicas antigas ao assistir, na Netflix, o filme francês chamado Eu Não Sou um Homem Fácil.

Um sujeito machista bate a cabeça e desperta em um universo paralelo onde os papéis sociais se invertem. Mulheres têm atitudes masculinas e os homens, as femininas segundo estereótipos.

Não se trata de uma comédia, embora provoque risos nervosos, desconcertados, a cada identificação. Nada a ver com a proposta do divertido filme nacional com Tony Ramos e Gloria Pires. Neste, europeu, há várias camadas de crítica das relações sociais onde os estereótipos são usados para criticar a estereotipização e a normalização dos papéis, com metáforas inteligentes, para provocar reflexão.

O filme ressignifica, criando empatia, com as distintas e opostas narrativas. Brincadeirinha. Viram como essas palavras que me irritam empobrecem o texto?

Ao problematizar as relações sociais o enredo nos conduz, de maneira sutil, nada didática, a um angustiante desconforto. Não esperem portanto um filme, digamos, fácil. É francês, não estadunidense, logo, evita oferecer-se como padrão de conduta desejável, não é normativo nem maniqueísta. Prestem atenção nos detalhes, na conversa com a psicanalista, na cena final, no nome do filme, na normalização progressiva dos papéis, na estigmatização invertida dos gueis (esta cena é genial), na velada crítica à emasculação do masculino e no empoderamento (outro anglicismo insuportável) feminino naquilo que desbordam do que seria razoável. Não há mulheres ou homens fáceis, não há análises fáceis diante de questões complexas.

Nesses tempos soturnos, sombrios, merencórios, em que proliferam propostas normativas para condutas alheias, onde pessoas, grupos, movimentos se sentem no direito, na obrigação moral, de reprimir e punir os desviantes demais, em que competem como extremos as caretices e as posturas aparentemente libertárias se metendo e fiscalizando a vida dos outros, vamos ficando, sem que nos apercebamos, merencórios como a luz da lua, como nas músicas antigas, fora do tempo, incomodados com a maneira de existir em sociedade que nos impõem, sorrateiramente ou não, como normal e desejável.

Recomendo que assistam esse filme de Eleonore Pourriat, diretora e roteirista, sem esperar uma comédia romântica ou mero entretenimento imbecilizante, que só admitem opções binárias. A vida, assim como a arte, é mais que isso. Afortunadamente.

Wilson Ramos Filho (Xixo), doutor em direito, professor na UFPR, preside o Instituto Defesa da Classe Trabalhadora.

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