Militantes e eleitores ressentidos – A unidade das frentes de esquerda nas eleições municipais, por Tiago de Castilho Soares

As eleições para os eleitores não são como os campeonatos de futebol. Nenhum torcedor em fim de campeonato deixa de torcer pelo seu time, mesmo tendo sido ele desclassificado.

Militantes e eleitores ressentidos – A unidade das frentes de esquerda nas eleições municipais

por Tiago de Castilho Soares

Se aquela sensação de que fomos desprezados ainda persiste, estamos ressentidos. Desprezados, preteridos, sem ter o que merecemos, minguados. Em tempos de competição e velocidade, cada dia é dia de uma batalha e cada dia podemos estar diante de uma derrota. Não falo aqui daquelas perdas em batalhas ideais, digo do real e intenso dia a dia, das disputas comuns, de uma oportunidade perdida, uma proposta recusada, um passo em falso na profissão, uma desaprovação, uma violência sofrida, sermos mal tratados ou mesmo não sermos valorizados por quem esperamos que nos considere. Esse ressentimento, uma sensação de apequenamento, costuma se acomodar dentro de nós na forma de um discurso ressentido: quando narramos nossas virtudes e nosso fracasso, sob os vapores da raiva.

O ressentimento é força motriz de nossas relações, um sentimento que todos precisamos lidar. Na família, no trabalho, na escola, nos grupos religiosos e também na política, o ressentimento atua como fator de repulsão, de afastamento, desentendimento e silêncio. E quando se trata de política institucional por associações em partidos e grupos de interesse, de escolhas em eleições periódicas e de escolhas propriamente governamentais, o ressentimento ganha papel fundamental na compreensão da dinâmica dessas relações.

Nelson Rodrigues falava da necessidade de se escrever uma “História da Burrice Brasileira” para confrontar o clássico “História da Inteligência Brasileira” do Wilson Martins, e dizia que a história da burrice teria mais a dizer sobre nós do que a história da inteligência. Do mesmo modo, sem o brilho dos chistes do Nelson, podemos dizer que na política o ressentimento tem tanta força quanto as razões e a lógica; o sentimento organizado em discurso ressentido tem tanto poder quanto, por exemplo, os discursos organizados e desenhados, oferecidos de bandeja ao eleitor nos tradicionais esquemas de manipulação da grande imprensa.

Na dinâmica das relações políticas, há eleitores ressentidos, militantes ressentidos, que mudam de lado, representantes eleitos ressentidos ou os que meramente se apropriam de um discurso ressentido para justificar as suas posições. O voto de birra ou o voto de vingança é comum entre eleitores; o militante que sofreu um revés em uma campanha dos próprios correligionários, não raramente se vinga mudando de lado; os laços estabelecidos no ambiente de uma assembleia não podem dispensar a força de ressentimento entre seus membros; e ainda há interesses, inclusive oportunistas, que não raro andam camuflados com um discurso ressentido.

As eleições para os eleitores não são como os campeonatos de futebol. Nenhum torcedor em fim de campeonato deixa de torcer pelo seu time, mesmo tendo sido ele desclassificado. O eleitor, por sua vez, a cada eleição, possui uma história pessoal, um testemunho, e não de vez em quando um ressentimento, que o fará seguir outro time. Quem bate esquece! Para quem apanha o ressentimento é um modo de sobrevivência, não exclusivo, uma voz para a qual devemos dar ouvidos: fala muito alto o ressentimento e a frustração dos excluídos.

Por mais que a grande imprensa ofereça pacotes de discursos e sentimentos, por mais que ofereça discursos ressentidos para o público, o gênero já é outro. O ressentimento, genuíno e cotidiano, cada ser humano forma com suas experiências.

Ressentir é sentir outra vez, reviver a dor sofrida, reabilitar aquele fato que nos atingiu. Organizamos esse sentimento pela linguagem, narramos o acontecido e recuperamos as emoções passadas com gestos de fala, com a carga afetiva e emocional que envolve a narração. Não é tão óbvio constatar que somente podemos estar ressentidos por algo que nós próprios sofremos, pois há muitos casos de usarmos um discurso ressentido sem termos sido a vítima, e, assim, reproduzirmos o discurso ressentido alheio. Aqui é a compaixão que gera o ressentimento, sofre-se com o sofrimento alheio e em seguida ressente-se. Por outro lado, diante da televisão ou do rádio podemos nos deparar com um discurso ressentido enlatado, quando não há nem experiência nem compaixão, apenas réplica barata do discurso emocionado de outrem.

Nada de novo que a grande imprensa prepare e ofereça para o grande público ressentimentos coletivos, narrativas já prontas para o público usar, contendo além da carga emocional a ideia de que fomos nós que sofremos. É certo que a identificação do público com o âncora/apresentador favorece essa transferência de rancores e ódios. Um Sardenberg tem grande parcela de seu poder no apelo familiar – ele se coloca no lugar de um tio, no lugar de um pai que quer cuidar da prole –, e estando nesse lugar familiar é muito fácil transferir discursos ressentidos, onde compramos as dores que querem nos convencer de serem as nossas dores!

Mas, se essa penetração dos discursos ressentidos da imprensa nas relações cotidianas é forte mesmo, não temos como saber: a contingência da vida, o confronto de experiências, a sucessão de acontecimentos descosturados, mas cheios de sentidos, tendem a reorientar e corrigir o ressentimento enlatado. Assim, o peso, o ódio e a mágoa de uma frase do Sardenberg, que à primeira vista pode ser boa para incorporarmos, num segundo momento pode revelar-se desprovida de sentido ao se confrontar com nossas próprias experiências.

Fico pensando se hoje aqueles paneleiros pobres, que consumiram à época o ressentimento enlatado, já vivendo alguma dificuldade decorrente do achaque político, fico pensando se hoje eles não estariam mais amadurecidos, menos ingênuos. Fico pensando no abismo com o qual essas pessoas se defrontaram: assumir o discurso ressentido “contra os corruptos que quebraram o Brasil” e, após o gozo da vingança, viver a dura realidade de perder o seu emprego, morar de favor, interromper um curso na faculdade.

Mas não há nada de surpreendente na diversidade da fauna humana. Quando o discurso ressentido contra a política se torna uma justificativa para o que os outros podem julgar como erro, é melhor que esse ressentimento continue sempre ativo e colorido. Muito ouvi com minhas próprias orelhas chorumelas de eleitores contra a política, experiências frustradas, narradas para concluir: “– Por isso hoje vendo o meu voto. Se eles ganham durante quatro anos, temos o direito de ganhar uma vez a cada quatro anos.”

Quanto aos temas da frustração que não gera ressentimentos, da superação da perda, da reformulação de nossas expectativas, da responsabilização e do risco implicados em nossas escolhas, a teoria das escolhas racionais dá conta de explicar.

O ressentimento paralisa, aguardando a vingança que nunca chegará. O ressentido, diminuído, rumina a mágoa com certo prazer e irresponsabilidade. O militante ressentido já abandonou a política, foi traído ou desconsiderado, e, por um caminho inverso transformou-se no analfabeto político. No discurso ressentido, a narrativa de sua história de vida: “– Eu já fiz campanha pro Fulano de Tal”, ou, “- Eu já trabalhei na campanha do Fulano de Tal”. A seguir, a razão de sua saída, o golpe que lhe desviou da atividade política: “– Houve falcatruas e me sacanearam.” A necessária conclusão: “– Político é tudo igual! Não quero saber mais de política”.

Pelo Brasil afora a militância política é ativa dentro dos partidos tradicionalmente de direita, reproduzindo a dicotomia do regime militar MDB e ARENA, e ativa também nos partidos mais à esquerda, principalmente PT, PC do B e PSOL. Os vínculos que costumam reunir os militantes dos partidos mais tradicionais, situados à direita do espectro ideológico partidário, são vínculos pessoais, que associam padrinhos e afilhados, caciques políticos e seguidores. Por outro lado, a abertura democrática dos anos 80 reuniu pessoas em torno de interesses de classe e organizou as relações de militância, especialmente nos partidos de esquerda, em função de interesses legítimos e projetos políticos.

A dimensão do personalismo, sem dúvida, até mesmo dentro da militância de esquerda, tem muita força. Historicamente, seja em função das raízes comunitaristas de nossa sociedade, das raízes patrimonialistas do Estado e da malemolência da aplicação das leis, o personalismo atua como vetor poderoso em nossa vida política. É exemplo bastante comum um político migrar de partido e arrastar “seus eleitores”.

Esse laço pessoal, que nos interiores e periferias se aprofunda nas relações com cabos eleitorais, é mais do que uma relação de admiração ou veneração: um vestido de debutante, o batizado do filho mais novo, uma festa de formatura, uma dentadura e alguns caminhões de entulho são prendas oferecidas pela fidelidade ao personagem político. O preço dessa relação pessoal e desigual, entre um padrinho e um afilhado, é o preço que a sociedade toda paga quando vislumbramos o perfil do poder legislativo, retrato assustador, enfeiado pelo silêncio e sombras recebidos pela imprensa durante a campanha eleitoral.

E o que gostaria de dizer, desde o início, é que a carga de ressentimento no contexto de relações pessoais de poder é muito maior do que em contextos onde as pessoas estão ligadas por interesses comuns, impessoais. A posição de afilhado ou de subordinado a um cacique político, essa posição subalterna, favorece a fantasia de que não somos capazes de dar conta da malícia do outro. E então, o militante está a um passo de alimentar a narrativa onde a personagem principal deixa de ser o padrinho e passa a ser ele próprio, quando os acontecimentos da sua experiência de ativismo político retornam para que ele reviva os momentos de desconsideração, traição ou desilusão. O virtuoso ruminador, vítima, ferido e com a ferida aberta, goza, sabendo lá no fundo que foi objeto da maldade de um poderoso!

Quando nos confrontamos com a força do inconformismo, a importância dos ideais e a coerência entre experiência de vida e ideologia, ainda não chegamos ainda à necessária pergunta sobre o que reúne as pessoas em agremiações políticas na nossa geração. A força do ressentimento no processo de formação das frentes de esquerda nessas eleições municipais é grande e pareia com as pressões de autopreservação dos partidos e das agremiações políticas menores. Os cálculos eleitorais de sobrevivência possuem sempre muitas razões, mesmo carregando certas previsões. O ressentimento é essa força que apesar de grande não ter visibilidade e precisar atuar escamoteada. A incapacidade de esquecer e a não aventada gentileza de não cobrar empurram os duelos partidários da frente para o campo da justiça privada e da vingança. Não são razões puramente psicológicas, sabemos bem o quanto nossas personalidades são construídas e ancoradas socialmente e o quanto isso acontece no percurso do tempo histórico. A “questão de honra!” é fertilizada pela pessoalidade.

Tiago de Castilho Soares – Doutor em Sociologia Política UFSC/Autor do livro “Désceo Machado nas chanchadas do CBN Brasil” (prelo).

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