Na dura travessia, precisamos sobreviver, por Ricardo Cappelli

Se não consegue nem a unidade de seus partidos em votações estratégicas - onde estiveram em jogo a questão democrática e direitos consagrados -, como a esquerda pretende construir um pólo que volte a polarizar o país?

Na dura travessia, precisamos sobreviver

por Ricardo Cappelli

Três votações dão sinais da atual situação política da esquerda. Muito mais do que a matéria votada, espelham o processo que se desenvolve no país há algum tempo.
No impeachment, Dilma contou com parcos 137 votos. Todo o centro político votou contra a ex-presidenta. Apenas PT, PSOL e PCdoB defenderam integralmente seu mandato. Houve defecções no PDT. O PSB votou pela sua deposição.
Na votação sobre a transferência do COAF para o ministério da Justiça, a esquerda se dividiu novamente. Não se tratava de uma questão meramente técnica. No simbólico, estavam em julgamento os ataques da Lava Jato ao Estado Democrático de Direito.
Na esquerda, apenas PT e PCdoB votaram unidos contra Moro. No PSOL, três abstenções pró-Moro. O PDT encaminhou contra, mas parte da bancada votou a favor. No PSB, a maioria dos deputados desautorizou a orientação do líder e votou com o ex-juiz.
Quem garantiu a derrota de Moro no Congresso foi o “famigerado” Centrão.
Na votação da previdência, os contrários somaram parcos 131 votos, resultado muito parecido com o de Dilma. Integralmente contra a reforma, novamente apenas PT, PCdoB e PSOL. Defecções no PDT e no PSB se repetiram, apesar das orientações partidárias contra a reforma.
Se não consegue nem a unidade de seus partidos em votações estratégicas – onde estiveram em jogo a questão democrática e direitos consagrados -, como a esquerda pretende construir um pólo que volte a polarizar o país?
A população se dividiu no apoio à reforma que lhe retira direitos. A derrota do campo popular e democrático foi estratégica. A defensiva ideológica é imensa. E a leitura equivocada da correlação de forças abre brecha para todo tipo de ilusões. Não haverá a esperada guinada fantástica à esquerda.
Prestem atenção no discurso de Rodrigo Maia comemorando a vitória. Possui algumas dicas da disputa real. Ele ignora solenemente a esquerda.
O presidente da Câmara demarca como uma vitória do Centrão, diz que os ataques do Planalto à política devem cessar e que um novo padrão de relacionamento deve ser inaugurado.
É duro reconhecer, mas a verdadeira disputa no país hoje é entre a extrema-direita e a centro-direita democrática. O eixo da política brasileira foi deslocado radicalmente.
A vitória da reforma da previdência alimenta o programa dos dois. A visão liberal os aproxima, mas não é exatamente a mesma. Próceres bolsonaristas amanheceram atacando o Congresso, dizendo que a politicagem desqualificada fez concessões demagógicas que reduziram a tal “potência fiscal” de 1 trilhão para pouco mais de 700 bilhões.
Se existe proximidade na economia, um abismo se abre na questão democrática. Bolsonaro não fecha o Congresso porque não tem força para isso. Ficou claramente constrangido e contrariado explicando a liberação de emendas. Todos viram.
Acusar os deputados do Centrão de “comprados” é o caminho correto para quebrar o isolamento? Execrar deputados de partidos do campo progressista que votaram pela reforma é a saída para reunificar a esquerda? Na atual quadra política, estamos em condições de prescindir de alguém?
O desafio do campo progressista é sobreviver, apenas sobreviver, não se afogar na avassaladora onda conservadora que se formou em 2013. O risco de um naufrágio sem sobreviventes é imenso.
O momento exige frieza, firmeza, muita paciência, generosidade, menos verdades, mais inteligência política e o principal, a capacidade de compreender a centralidade de alianças amplas em torno da questão democrática.
Não se iludam, a travessia será longa e tortuosa.

6 comentários

  1. É preciso compreender que o bloco de oposição a um governo nunca conseguiu nada de útil, à exceção período de lulalá, um extraclasse em matéria de política, daí o pavor sempre demonstrado pelo bloco de situação & amigos com o “nove dedos”.
    Sem ele, tenho plena convicção de que pouco teria acontecido nos 4 anos de governo petista, pois não teria existido reeleição. Os políticos deputados federais de partidos de oposição nunca se mostraram cientes de suas atribuições naqueles 14 anos de Brasília, boa parte deles demonstrava uma única preocupação, que era a de aparecer no JN, e na CPI de Carlinhos Cachoeira chegou-se ao ápice do pouco caso com o mandato, pois, diante de provas robustas tiveram os Civita e os Marinho à disposição, e o que fizeram ? E pela prá lá de necessária regulação dos meios de comunicação, a partir do excelente ante-projeto de Franklin Martins, o que fizeram ?Nada, tiveram medo do escuro.
    Agora tem sido o mesmo samba do crioulo doido, não conseguem se entender entre eles mesmo diante da situação tenebrosa em que a sociedade brasileira passou a ter pela frente – regras elementares para aposentadoria inteiramente massacradas; esta reforma da Previdência que será um deus nos acuda pra milhões daqui a alguns anos; esta medida surrealista, de suspender quaisquer direitos trabalhistas enquanto existirem mais de cinco milhões de desempregados no país, o que equivale a dizer que nunca mais existirão direitos trabalhistas, ou alguém se lembra de quais anos tiveram esta meta atingida por aqui ? E quem se beneficiará deste pandemônio ? Nem é preciso mencionar.
    Todo este rol de maldades inéditas passou diante de uma oposição que parece não existir.

  2. Ora, qualquer néscio concluem que psb, pdt não são de esquerda…..
    E quanto as eleições ….urnas eletrônicas, fio…..hummmmmmm
    Não será pelo voto que esse país irá mudar…..o sistema político não representa o Estado….. não é democrático convivermos com bancada disso ou daquilo…… congressistas são eleitos para governar conforme os interesses da sociedade e do próprio Estado que lhes paga, mas o que vemos, são lacaios que implodem todo o aparato estatal e trabalham em favor de uma parte da sociedade, das grandes corporações e do grande capital, ou seja, distalmente inverso do que deveriam fazer……
    Se depender desses lacaios, larápios, voltaremos ao sistema colonial, com o povo escravizado…..
    Esqueçam mudar o status quo através de eleições, é apenas o lenitivo que se utilizam para ludibriar o povo e sufocar a revolta….tem o mesmo significado que a religião, a manipulação midiática, as drogas e o futebol……. Marilena Chauí explica isso muito bem……
    Nessa prenderam Lula, depois de tirar Dilma na marra, na próxima inventam outra mutreta, e se nada adiantar sempre tem o algoritmo pra salvar, com o presidente do tribunal trancada com mais cinco capitais fazendo a apuração…….
    Nem se diga do crime organizado e do narco-estado em que o país se transformou….
    Aliás, até agora não disseram quanto vale os 39 quilos de pó do avião do coiso. ….deve ser uma merreca……

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  3. Absolutamente perfeito, cabe dizer que a esquerda está mais preocupada com o Lula do que com o restante da população mais necessitada. Falta líderes a esses partidos que tenham a coragem de levar o povo a compreensão do que acontece. Pagarão caro por isso, as próximas eleições comprovará o que digo pois poderá acontecer o o mesmo que aconteceu com o psdb quase extinto.

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  4. Sua pergunta central é fundamental: “como a esquerda pretende construir um pólo que volte a polarizar o país?”

    A resposta, a meu ver, é que a esquerda encontra-se fraturada entre as bases e as direções. As bases (que é a classe trabalhadora organizada que realmente sente na pele os retrocessos) querem fazer uma luta frontal contra o governo. As direções, em sua maioria professores universitários que ocupam cargos do estado, não querem confrontar, inclusive querem compor, com o governo Bolsonaro. Aí está o impasse.

    Enquanto a população clama por uma guerra contra a direita, as direções querem fazer “pactos” com a direita.

    Ou seja, a cabeça quer ir para a direita, o corpo quer ir para a esquerda, e nisso não se vai a lugar nenhum. A rigor, é nessessário um rearranjo interno da esquerda antes que seja possível confrontar a direita.

  5. Ricardo Capelli,
    Bons argumentos e bom post. Alguns pontos que eu tenho de divergência. Você questiona: “Acusar os deputados do Centrão de “comprados” é o caminho correto para quebrar o isolamento?”. Houve compra ou houve fisiologismo, toma-lá-dá-cá, é dando que se recebe, barganhas? Se o que houve foi fisiologismo, a sua frase sem a interrogação é frase da direita radical que não aceita a democracia tal como ela é.
    A composição de interesses conflitantes no processo democrático só se realiza mediante o fisiologismo e a frase, sem a interrogação, deveria ser corrigida para “Acusar os deputados do Centrão de “comprados” não é o caminho correto para quebrar o isolamento”
    E se trata de compra de votos, o que se tem é corrupção que é inaceitável no sistema democrático. E a frase deveria vir sem a interrogação e seria mais enfática na acusação escrita do seguinte modo: “Acusar os deputados do Centrão de “corruptos” é o caminho correto para quebrar o isolamento.”
    Na sequência você faz outra pergunta com a qual não divirjo, mas que avalio que tem muitas facetas que a tornam muito mais complexas que a primeira leitura transmite. Você diz “Execrar deputados de partidos do campo progressista que votaram pela reforma é a saída para reunificar a esquerda? Na atual quadra política, estamos em condições de prescindir de alguém?”.
    A segunda questão reduz muito a amplitude da primeira. Com o sentido restrito pela segunda questão, eu avalio que embora não estejamos em condições de prescindir de alguém, a esquerda precisa criar certa uniformidade no seu comportamento. Assim, alguns quadros que são mais da direita do que de esquerda não deveriam participar do partido. É claro que o problema de consciente eleitoral é importante. Um Tiririca em um partido de esquerda, elege muitos candidatos da esquerda.
    A primeira questão, entretanto, ao particularizar para a reforma da previdência, dá margem a dúvidas e requer uma avaliação mais aprofundada. Nesse caso, então, seria preciso considerar qual a linha limite de pontos da reforma que não seriam refratários a um apoio da esquerda. Considero que o aumento de cinco anos na idade em um prazo de 20 anos seja medida correta. Pode ser até que dentro de 30 ou 40 anos, dado o desenvolvimento tecnológico com o avanço da informática e da inteligência artificial seja necessário que as pessoas aposentem mais tempo para que os mais jovens possam ter postos de trabalho à disposição.
    Em relação a aposentadoria a medida mais reveladora de uma mentalidade de direita sem sensibilidade social era a da capitalização que foi jogada fora. Então é preciso ter mais atenção na avaliação daqueles que votaram com o governo na aprovação da Reforma da Previdência.
    Um ponto importante a considerar é o seu seguinte parágrafo:
    “O desafio do campo progressista é sobreviver, apenas sobreviver, não se afogar na avassaladora onda conservadora que se formou em 2013. O risco de um naufrágio sem sobreviventes é imenso.”
    Retirando do parágrafo a data de 2013, eu concordo com o que você diz nele e até venho dizendo isso há muito tempo. Avalio como relevante mencionar o ano de 2013, pois foi um ano como poucos e de forte repercussão na política e na economia brasileira.
    Agora em minha opinião não foi em 2013 que se formou a onda conservadora. É só lembrar que no impeachment da ex-presidenta às custas do golpe Dilma Rousseff, em 2016, ela não contou com um terço dos votos do Senado que impediriam o golpe e dois terços do Senado foram eleitos em 2010, em uma eleição em que Lula tinha 80% de popularidade. É a dura realidade para a esquerda: em qualquer lugar do mundo ela é pequena. E ela é ainda menor na representação quanto mais desigual for um país. No Brasil, então é diminuta a presença da esquerda no parlamento. É tão trágico que só resta brincar e dizer que aqui, a pequenez da esquerda é tão grande que ela se afoga num pingo d’água.
    Clever Mendes de Oliveira
    BH, 13/07/2019

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