O Brasil e a nova escravidão – a lei do ventre preso, por Cristiane Alves

O Brasil e a nova escravidão – a lei do ventre preso

por Cristiane Alves

Parece que somos um povo com a maior resiliência do universo. Nos adaptamos e nos conformamos após as dificuldades, às tragédias, às barbáries. Na maioria das vezes isso parece bom, mas nem sempre.

Estamos superando todos os outros povos. Os alemães superaram o holocausto; os japoneses superaram ataques nucleares; europeus superaram as muitas guerras; africanos superam a exploração. Nós brasileiros estamos tentando superar o futuro.

Nosso exercício diário é pensar a dificuldade vindoura e produzir mecanismos de equilibração e superação, pessoais e coletivos; internos e externos.

Há algum tempo li, estarrecida, embora com bom humor, sobre famílias brasileiras que pagavam bem caro por esperma de homens selecionados nos EUA, caucasianos, olhos e cabelos claros e demais características que possibilitassem à futura criança traços sublimes.

Basicamente a matéria nos informava sobre o preconceito e o ódio que os muito ricos sentem pelo Brasil e sua população. Não que esse fosse o foco da matéria, mas estava ali nítido.

O MAIS ESCANDALOSO DOS ESCÂNDALOS É QUE NOS HABITUAMOS A ELES. (Simone de Beauvoir).

Nos habituamos e digerimos o indigesto. Não causa mais náusea. Vira iguaria.

Estávamos rindo ontem de personagens caricatos que hoje nos governam, e não entendemos como chegamos aqui.

Penso que Steve Bannon, vaidosamente tenha selecionado, no mundo, os menos aptos, os improváveis, os “vasos de desonra” para mostrar seu poder de manipulação das massas. Fica claro a partir de agora que a geopolítica tem dono. O mundo é um teatro de marionetes.

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Os manipulados acreditam que protagonizam as decisões. Os ricos sabem que não, mas ganham com o jogo. Os pobres inteligentes são apenas isso, e sofrem. Os pobres e ignorantes jubilam com a própria sentença de morte. Morrerão sorrindo.

Minha preocupação são os filhos dessa desgraça.

O que esperar da escravidão escolhida? Do estupro premiado? Da pena de vida financiada?

Quantos abortos ouvimos falar entre os mais ricos? Mulheres ricas não sofrem estupros? Tudo leva a crer que não.

As mulheres pobres, solteiras ou casadas, cuja gravidez indesejada lhe cause sofrimento será “beneficiada” por um financiamento da manutenção da gravidez. Aqui teremos a gratificação pela vida. Como se a única vida que valha seja a que está se formando no ventre. O feto é sagrado, o menino é uma maldição.

Passa na cabeça do ser humano “racional” que aborto é assassinato, abandono é seleção natural. E pobreza é infortúnio.

Sugerir precificar a vida proveniente do estupro é supor que a mulher não tenha sentimentos. Que um valor qualquer possa gerar os vínculos necessárias à maternidade.

A criança não tem culpa dizem. A mulher também não.

Mas suponhamos que o descalabro dessa proposta se materialize. A mulher violentada, constatada a gravidez terá duas possibilidades: o estupro ainda mais penalizado ou a “bolsa estupro”.

A proposta da ministra da Mulher (nome que revela muito), é por enquanto, que a vítima de estupro, caso engravide seja “amparada” monetariamente, pelo Estado para manter a gestação e criar a criança.

Penso que tal proposta se baseie em muita leitura de romances de bancas de jornais, onde o homem se vê extasiado com a mocinha e sua superlativa beleza que, incapaz de refrear seus impulsos, acaba chegando às vias de fato, num sexo sublime e perfeito, a tal ponto que a vítima supere a dor e a humilhação e se desmanche em êxtase.

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Assim sendo, o fruto desse amor, que começou errado, será amado e receberá apoio de todos os envolvidos e seus familiares. Tudo com as bençãos do governo.

Nessa romantização não esperam que a linda mocinha seja violada por um indivíduo, sem consentimento, num ato onde a mulher se torna objeto útil à lascívia alheia. Talvez a ministra creia que todo estuprador seja o protótipo do galã da novela das oito e que se banhe em leite de cabra e perfume Dolce Gabbana, que leve a mocinha para dançar, jantar, pague a melhor suíte no melhor hotel e que, antes, lhe pergunte: “posso ter a honra de lhe estuprar, querida?”, somente o fazendo caso haja anuência.

Daí, desse colóquio excelso , surge a benção da criação. Um bebê, lindo se formará no ventre abençoado, elevando aquela mulher ao divino. E nascerá saudável, rirá ao minimo movimento de sua mãe, com muxoxos contagiantes e a criança será amada. Terá avós e tios que a visitarão com presentes, receberá carinho, ficará protegida da violência. A criança será feliz.

A realidade, ao contrário do sonho, é que a concepção é difícil para qualquer mulher, mesmo as que desejam ser mãe, as que escolhem o pai para seu filho, as que amam e idealizam o fruto desse amor.

Penso nas mulheres violentadas pelo médico, cujo sonho era gerar uma criança em seu ventre, cuja concepção foi uma desgraça. Mulheres ricas, cujo destino dos fetos não fora questionado. Como será olhar para aquela criança?

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Somente quem já vivenciou violência doméstica sabe o quanto é duro ter que amar coercitivamente.

O ventre é a máquina que produz a força motriz do sistema que necessita da desgraça alheia para sobreviver. Afinal o exército de reserva é uma benção divina e os safáris humanos uma necessidade à vaidade.

Cristiane Alves – Formação em Geografia (licenciatura e bacharelado) – UNESP, Especialista em educação especial com ênfase em Altas Habilidades e Superdotação – UNESP

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2 comentários

  1. Aborto? Aperte seu deputado.

    Aborto é questão que envolve o Codigo Penal. A Constituição só tangencia o assunto quando fala da inviolabilidade da vida humana.Sabemos das 3 situações em que é permitido (estupro, gravidez de alto risco e anencefalia). A unica alternativa inteligente e com alguma chance a longo prazo (lembram-se do divorcio?) é pressão sobre o Legislativo. Mencionar o Steve Banon ou pontos de vista de uma Ministra evangèlica é apenas perda de tempo e diversionismo político. 

     

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