O instrumentarianismo como poder e como auctoritas, por Fábio de Oliveira Ribeiro

O instrumentarianismo (conceito criado por Shoshana Zuboff) não é apenas um poder que deriva da assimetria entre o capitalista de vigilância e o usuário de internet.

O instrumentarianismo como poder e como auctoritas, por Fábio de Oliveira Ribeiro

No primeiro capítulo da terceira parte do livro, Shoshana Zuboff faz uma distinção entre totalitarismo e a nova modalidade de poder que está sendo construída pelo capitalismo de vigilância. Depois ela retoma a discussão sobre o behaviorismo para diferenciar a distopia de George Orwell (1984) da de Skinner (Waden Two), demonstrando como os capitalistas da vigilância conseguiram ultrapassar os devaneios do psicólogo norte-americano.

A autora denominou a nova espécie de poder instrumentarianismo.

“As to this species of power, I name it instrumentarianism, define as the instrumentation and instrumentalization of behavior for the purposes of modification, prediction, monetization, and control. In this formulationm ‘instrumentation’ refers to the puppet: the ubiquitous connected material architecture of sensate computation that renders, interprets, and actuates human experience. ‘Intrumentalization’ denotes the social relations that orient the puppet masters to human experience as surveillance capital wields the machines to transform us into means to other’s market endes. Surveillance capitalism forced us to reckon with an unprecedented form of capitalism. Now the instrumentarian power that susteins and enlarges the surveillance capitalist project compels a second confrontation with the unprecedented.” (The Age of Surveillance Capitalism, Shoshana Zuboff, PublicAffairs, New York, 2019, p. 352)

Tradução:

“Quanto a essa espécie de poder, que chamo de instrumentarismo, defino como a instrumentação e instrumentalização do comportamento para fins de modificação, previsão, monetização e controle. Nesta formulação, ‘instrumentação’ refere-se ao fantoche: a arquitetura onipresente de materiais conectados da computação sensível que processa, interpreta e atua a experiência humana. ‘Intrumentalização’ denota as relações sociais que orientam os mestres de marionetes para a experiência humana, à medida que o capital de vigilância utiliza as máquinas para nos transformar em meios para os fins do mercado de outros. O capitalismo de vigilância nos forçou a contar com uma forma sem precedentes de capitalismo. Agora, o poder instrumentista que sustenta e amplia o projeto capitalista de vigilância compele um segundo confronto com o inédito.”

Um pouco adiante Soshana Zuboff delineia algumas características desse novo tipo de poder:

“Although it is not murderous, instrumentarianism is a startling, incomprehensible, and new to the human story as totalitarianism was to its witnesses and victims. Our encounter with umprecedented power helps to explain why it has been difficult to name and know this new species of coercion, shaped in secret, camouflaged by techonogy and techincal complexity, and obfuscated by endearing rethoric. Totalitarianism was a political project that converged whit economics to overwhelm society. Instrumentarianism is a market project that converges with digital to achieve its own unique brand of social domination.

It is not surprising therefore, that instrumentarianism’s specific ‘view point of observation’ was forged in the controversial intellectual domain know as ‘radical behaviorism’ and its antecedents in turn-of-the-century theoretical physics. In the remainder of this chapter, our examination of power in the time of surveillance capitalism privots to this point of origin far from totalitarianim’s murder and mayhem. It makes us to laboratories and classrooms and the realms of thought spun by men who regarded freedon as a synonym for ignorance and human beings as distante organisms imprisioned in patternss of behavior beyond their own comprehension or control, such as ants, bees, or Stuart MacKay’s herds of elk.” (The Age of Surveillance Capitalism, Shoshana Zuboff, PublicAffairs, New York, 2019, p. 360/361)

Tradução:

“Embora não seja assassino, o instrumentarismo é surpreendente, incompreensível e novo na história humana, assim como o totalitarismo foi para suas testemunhas e vítimas. Nosso encontro com um poder sem precedentes ajuda a explicar por que tem sido difícil nomear e conhecer essa nova espécie de coerção, modelada em segredo, camuflada pela tecnologia e pela complexidade técnica, e ofuscada pela retórica cativante. O totalitarismo foi um projeto político que convergiu com a economia para subjugar a sociedade. O instrumentarismo é um projeto de mercado que converge com o digital para alcançar sua própria marca única de dominação social.

Portanto, não surpreende que o ‘ponto de vista’ específico do instrumentarismo tenha sido forjado no controverso domínio intelectual conhecido como ‘behaviorismo radical’ e seus antecedentes na física teórica da virada do século. No restante deste capítulo, nosso exame do poder na época em que o capitalismo de vigilância se apropriou até esse ponto de origem longe do assassinato e do caos dos totalitários. Isso nos leva a laboratórios e salas de aula e aos campos de pensamento gerados por homens que consideravam a liberdade como sinônimo de ignorância e seres humanos como organismos distantes aprisionados em padrões de comportamento além de sua própria compreensão ou controle, como formigas, abelhas ou Stuart MacKay. rebanhos de alces.”

Dentro dos parâmetros escolhidos pela autora, a tese dela é absolutamente coerente e irrepreensível. Mas há algo mais que poderia ser dito se levarmos em conta as palavras dela sobre a obra de Skinner num dos capítulos anteriores da obra.

“Another factor was the 1971 publication of B. F. Skinner’s incendiary social meditation Beyond Freedon & Dignity. Skinner prescribed a future based on behavioral control, rejecting the very idea of freedom (as well as every tenet of a liberal society) and cast the notion of human dignity as an accident of self-serving narcissism. Skinner imagined a pervasive ‘techonology of behavior’ that would one day enable the application of behavior-modification methods across entire human populations.” (The Age of Surveillance Capitalism, Shoshana Zuboff, PublicAffairs, New York, 2019, p. 322/323)

Tradução:

“Outro fator foi a publicação de 1971 da meditação social incendiária de B. F. Skinner, Beyond Freedon & Dignity. Skinner prescreveu um futuro baseado no controle comportamental, rejeitando a própria ideia de liberdade (assim como todos os princípios de uma sociedade liberal) e lançou a noção de dignidade humana como um acidente de narcisismo egoísta. Skinner imaginou uma ‘tecnologia do comportamento’ penetrante que um dia permitiria a aplicação de métodos de modificação de comportamento em populações humanas inteiras.”

Nós podemos concordar ou discordar das ideias de Skinner, mas não podemos esquecer uma coisa importante. As duas coisas que ele considerou irrelevantes (liberdade e dignidade humana) foram criadas recentemente. Elas não existiam na Antiguidade.

“A pátria não nos gerou nem educou sem esperança de recompensa de nossa parte, e só para nossa comodidade e para procurar retiro pacífico para a nossa incúria e lugar tranquilo para o nosso ócio, mas para aproveitar, em sua própria utilidade, as mais numerosas e melhores faculdades das nossas almas, do nosso engenho, deixando somente o que a ela possa sobrar para nosso uso privado.” (Cícero e Dante, Biblioteca Clássica, volume X, Da República, Marco Túlio Cícero, Atena Editora, São Paulo, 1957, p, 19)

No mundo antigo, o homem pertencia a cidade. A dignidade dele só existia enquanto ele desejasse fazer parte da comunidade que possibilitava aos homens viver e morrer como cidadãos entre iguais e distintos de seus desiguais (os escravos, bárbaros, etc). O desenvolvimento da própria individualidade não era um objetivo da vida social e sim subproduto dela.

Aquilo que realmente importava deveria ser voluntariamente entregue à cidade. Somente o que restava, como diz Marco Túlio Cícero, poderia ser desfrutado na vida privada. Os sacrifícios feitos em prol da cidade eram dignificantes. Sofrer e morrer numa guerra era algo considerado glorioso. Desprezível o recolhimento, detestável a comodidade de uma vida pacífica e ociosa.

Durante toda a Idade Média, período em que as pessoas podiam ser torturadas para confessar crimes impossíveis e condenadas a morte em virtude de confissões obtidas pelo carrasco, também não existiu qualquer espaço para liberdade pessoal. A dignidade do homem não existia se ele fosse considerado um infiel. Os seres humanos só eram dignos se cumprissem suas obrigações para com a divindade. Todos eram obrigados a se submeter aos caprichos e sevícias daqueles que detinham o poder espiritual e temporal.

A liberdade e a dignidade humana entram em cena justamente quando o poder público deixou de aurir sua autoridade da devoção à cidade (Antiguidade clássica) ou à divindade e sua representação terrena (Idade Média). Os regimes políticos criados após a Revolução Francesa se caracterizaram tanto pela valorização dessas duas coisas quanto pela instabilidade política que elas são capazes de produzir.

Dito isso, voltemos à obra de Skinner mencionada por Shoshana Zuboff.

“… The Walden Two community equaly disdains the practices of democratic politics and representative government. Its laws are derived from science of human behavior, specifically Skinner’s own radical behaviorism, founded on the physicist’s ideal of the Other-One. His utopia was a vehicle for other ambitions as well, intended to illustrate the behavioral solutions that are essencial for improvement in every domain of modern life: the nuclear threat, pollution, population control, urban growth, economic equality, crime, education, health care, the development of the individual, effective leisure. It aimed to cultivate ‘the good life’ for which all the idels of a liberal society – freedom, autonomy, privacy, a people’s right to self-rule – muste be forfeit.” (The Age of Surveillance Capitalism, Shoshana Zuboff, PublicAffairs, New York, 2019, p. 374)

Tradução:

“… A comunidade Walden Two desmente as práticas da política democrática e do governo representativo. Seus leis são derivados da ciência do comportamento humano, especificamente o behaviorismo radical do próprio Skinner, fundado no ideal do outro para a física.. Sua utopia também foi um veículo para outras ambições, com o objetivo de ilustrar as soluções comportamentais essenciais para a melhoria em todos os domínios da vida moderna: ameaça nuclear, poluição, controle populacional, crescimento urbano, igualdade econômica, crime, educação, saúde, o desenvolvimento do indivíduo, lazer efetivo. O objetivo era cultivar a ‘vida boa’ pela qual todos os ídolos de uma sociedade liberal – liberdade, autonomia, privacidade, direito do povo de se autogovernar – devem ser perdidos.”

As palavras de Shoshana Zuboff sugerem que no centro do projeto de Skinner não está apenas a construção de uma sociedade sem classes em que a política deixa de ocupar um papel relevante. Na verdade o autor de Waden Two colocou sua ciência comportamental no pedestal anteriormente ocupado pelo patriotismo e pela divindade para supostamente construir sociedade estável baseada numa autoridade inquestionável.

O instrumentarianismo (conceito criado por Shoshana Zuboff) não é apenas um poder que deriva da assimetria entre o capitalista de vigilância e o usuário de internet. Ele é uma nova espécie de “auctoritas”, que se propaga do novo modelo econômico (a expropriação de excedente comportamental que gera lucros fabulosos) para a arena política (em que, como disse a autora, quem tem mais dinheiro está em condições de definir as regras do jogo).

A autoridade do capitalismo de vigilância é tanto científica quanto tecnológica. Ela existe com, sem ou apesar da resistência dos usuários de internet. Em virtude da própria arquitetura dos sistemas que foram criados para expropriar excedente comportamental, os capitalistas da vigilância podem utilizá-la para obter lucro e modelar comportamentos.

O que os cidadãos ganhavam em troca da sua devoção à cidade na Antiguidade? Proteção contras as feras e inimigos dentro das muralhas, a possibilidade de participar das atividades públicas, de se destacar de acordo com suas habilidades e de conquistar a estima e o reconhecimento dos seus iguais. O que os fiéis podiam esperar em razão de sua devoção a Deus na Idade Média? A possibilidade de comungar na igreja, a tranquilidade espiritual decorrente dos sacramentos ministrados pelo padre, o conforto emocional em caso de tragédia pessoal, um enterro no local consagrado, e, é claro, a certeza de um lugar no reino do céu.

O que os usuários da internet ganham em troca dos excedentes comportamentais que são expropriados pelos capitalistas de vigilância? Essa é uma pergunta que tem sido respondida por Shoshana Zuboff ao longo de toda sua obra: a perda da privacidade; o rebaixamento à condição de objeto observável e modificável e; a total impossibilidade de questionar uma autoridade construída com ajuda de uma tecnologia dominada por poucos e, até a presente data, não sujeita a qualquer controle estatal.

No entanto, as pessoas continuam a usar a internet e a reforçar o capitalismo de vigilância. Elas fazem isso não porque são constrangidas e sim porque consideram indispensável participar desse admirável mundo novo.

Nós renunciamos à privacidade para ganhar visibilidade. Aceitamos ser expropriados porque consideramos a vida “on line” gratificante. E nos submetemos às manipulações comportamentais porque somente assim o mundo poderá “…aproveitar, em sua própria utilidade, as mais numerosas e melhores faculdades das nossas almas, do nosso engenho, deixando somente o que a ela possa sobrar para nosso uso privado.”

No próximo texto desta série veremos de uma maneira ainda mais detalhada como o que Shoshana Zuboff chamou de um poder sem precedentes pode ser considerado semelhante à “auctoritas”.

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