Os modelos e seus duplos, por Fábio de Oliveira Ribeiro

A força das representações ideológicas é um fato constatado pela literatura há muito tempo. Ao narrar a vida de Júlio Cesar, o cronista Caio Suetônio Tranquilo relata  que

“Como questor coube-lhe a Hispânia Ulterior; estando lá administrando justiça nas assembléias de cidadão romanos, por delegação do pretor, veio ter a Cádiz e, à vista da estátua de Alexandre Magno, junto ao templo de Hércules, se pôs em pranto e, como que insatisfeito com sua inatividade por nada ainda ter realizado de memorável numa idade em que Alexandre já era senhor do mundo, pediu incontinente sua dispensa, para deitar mão, o mais rápido possível, às oportunidades de maiores feitos na cidade.” (Vidas de Cesar, Suetônio – O divino Júlio, editora Estação Liberdade, São Paulo, 2007, p.27).

Este fato é confirmado por Plutarco:

“…conta-se que uma outra vez, na Hispânia, quando num momento de descanso lia uma das obras escritas sobre Alexandre, ficou por longo tempo muito pensativo e, então, começou a chorar. Como seus amigos, admirados, perguntaram a causa ele respondeu: ‘Não vos parece digno de aflição que, na minha idade, Alexandre já reinava sobre tantos povos, enquanto eu nada ainda de brilhante realizei?’” (Vidas de Cesar, Plutarco – César, editora Estação Liberdade, São Paulo, 2007, p.159).

Os homens seguem modelos e podem se reconhecer nas representações dos seus próprios atos. Inspirado nesta idéia, Shakespeare faz Hamlet encenar o assassinato de seu pai em frente ao padrasto no Ato 3, Cena 2, da peça homônima. E já que estamos falando de teatro, vale a pena reproduzir aqui as palavras de Frederico II ao criticar os péssimos exemplos contidos no livro O Príncipe de Maquiavel:

“Toda Inglaterra sabe o que aconteceu em Londres há alguns anos: ali foi representada uma comédia bem ruim com o título de Cartouche; o tema da peça era a imitação de algumas malandragens e safadezas daquele famoso ladrão. Ocorre que muitas pessoas, ao saírem daquelas representações, se deram conta da perda de anéis, tabaqueiras ou relógios; Cartouche fez discípulos tão depressa, que praticavam suas lições na própria platéia, o que obrigou a  polícia a proibir a perigosíssima representação daquela comédia. Isso prova, parece-me, que nunca seria demais usar circunspecção e prudência na produção dos exemplos, sendo muito pernicioso citar os que sejam maus.” (O Anti-Maquiavel, Frederico II, WMF Martins Fontes, 2014, São Paulo, p. 41).

Os exemplos das guerras antigas seguem servindo de modelo para as guerras modernas. O fato de existir pouca semelhança entre uma lança e um míssil com ogivas nucleares parece não dissuadir os modernos leitores de Homero, Heródoto e Tucídides  e Júlio César. Sobre o assunto vide https://jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/os-homens-de-armas-e-seus-livros-antigos.

O atirador de Virgina Tech parece ter se inspirado no filme Oldboy http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL24211-5602,00-ATIRADOR+DA+VIRGINIA+FEZ+SUPOSTA+REFERENCIA+A+FILME+SULCOREANO.html. Rambo parece ter inspirado as ações de Christopher Dorner, um ex-militar norte-americano negro que matou algumas pessoas e acabou sendo morto no incêndio de um chalé http://www.huffingtonpost.com/2013/02/12/christopher-dorner-rambo_n_2670214.html. O filme O Abutre https://jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/o-abutre-por-fabio-de-oliveira-ribeiro parece ter servido de inspiração para a cinegrafista húngara que deu uma rasteira no refugiado sírio. Recentemente uma menina canadense degolou a mãe após ver diversas vezes atos semelhantes praticados por degoladores do Estado Islâmico http://www.nydailynews.com/news/world/girl-15-stabs-mother-death-watching-isis-videos-article-1.2360953. Entre nós os filmes também despertam os instintos assassinos de alguns expectadores. Em 03/11/99, durante uma exibição de um filme violento (Clube da Luta), um estudante de medicina sacou uma submetralhadora e causou uma verdadeira tragédia numa das salas de cinema do Morumbi Shopping https://pt.wikipedia.org/wiki/Mateus_da_Costa_Meira.

Uma perfeita união entre representação e ato pode ser vista num programa de TV brasileiro há pouco tempo https://jornalggn.com.br/noticia/marcelo-rezende-diz-que-pm-fez-bem-em-atirar-a-queima-roupa-em-suspeitos-ao-vivo. O jornalista narra uma perseguição policial e pede ao mesmo para atirar no suspeito caído. Como se estivesse escutando a exortação televisiva, o policial atira no cidadão indefeso que poderia ser contido sem violência extrema.

Alexandre foi o modelo de Júlio César. Ao copiá-lo, o cônsul e, depois, ditador romano, devastou a Gália e transformou o mundo numa cidade. O personagem Cartouche serviu de modelo para os punguistas do teatro inglês. Frederico II não conseguiu impedir que os modelos fornecidos por Maquiavel em seu O Príncipe continuassem inspirando políticos em diversas nações. O cinema violento inspira a violência cotidiana, assim como programas “datenizados” inspiram a violência policial em São Paulo.

Quais serão os nossos modelos? É exatamente isto que temos que decidir ao longo da vida. Uma vida que se torna cada vez mais fragmentada e complexa à medida que somos expostos diariamente a milhares de modelos antigos e modernos que povoam livros, programas de TV, filmes e páginas da internet e, por consequencia, nossos conscientes e inconscientes frágeis. O pesadelo da escolha está se tornando opressivo demais? A proliferação de ícones dificulta a tarefa de distinguir bons de mais modelos? Cada um de nós está fadado a escolher apenas os modelos que se ajustam às nossas frágeis consciências?

 

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