Precisamos falar da solidão do lugar de fala, por Cristiane Alves e Fabiana Vajman

Na verdade, esse texto pretende falar de desqualificação e anulação sem culpa. De como a invisibilidade estrutural é conveniente e que, por ser longeva, é crônica e de difícil cura.

Precisamos falar da solidão do lugar de fala

por Cristiane Alves e Fabiana Vajman

Logo de imediato quero dizer que não vou criticar negativamente a teoria do lugar de fala. Justamente porque sei da importância de poder falar com propriedade daquilo que só quem vive em condição semelhante pode dizer.

Na verdade, esse texto pretende falar de desqualificação e anulação sem culpa. De como a invisibilidade estrutural é conveniente e que, por ser longeva, é crônica e de difícil cura.

A desqualificação da fala, da luta, do sofrimento alheio é como um vírus mutante que ao contato com um anticorpo se reestrutura. A tal ponto que o anticorpo vira aliado e a cura fique mais difícil, uma vez que a doença também fique menos óbvia.

Corro o risco de ser tachada de “a maluca que ninguém entende”, mas peço que tente ler e abstrair dessa leitura o máximo que puder.

O patriarcado e seus subprodutos produzem uma relação sempre verticalizada onde o topo cria dificuldades de mobilidade sociológica e as demais camadas impõem a mesma estratégia à sua subsequente (muito bem representada pelos encarcerados em “O Poço”).

As teorias e estratégias de destruir essa verticalidade são sempre desqualificadas, ou aglutinadas pelo sistema. Assim, se mulheres buscam visibilidade e se articulam coletivamente, o primeiro impulso do sistema é a ridicularização; depois vem a imposição da dúvida; a desvalorização e, por fim, a aglutinação. Quando ocorre a aglutinação a causa vira produto e, como tal, perde a seriedade, porque passa a ser pró sistema.

Como uma cápsula de vírus cujo conteúdo foi removido. Parece que contagia, mas dá força ao corpo para uma resposta auto curativa monitorada. Ao cabo e ao término, a culpa recai sobre as vítimas.

O lugar privilegiado do que possui visibilidade e voz é tão agradável que passa por natural, a normal. Nesse lugar todos são plenos de direitos e rapidamente representados. Nessa realidade pedir por um lugar de fala é ridículo, já que todos possuem voz.

Por esse mesmo motivo, o LUGAR DE FALA tomou forma de “o problema é teu” porque “NUNCA vou poder saber como é ser como você” ou “JÁ QUE VOCÊ DECIDIU CRIAR ASAS, não vou te ajudar mais”.

Há algum tempo tenho notado a fala recorrente de “quando a luta era contra o sistema eu até ia nas passeatas, mas agora EU NÃO TENHO LUGAR DE FALA”. Li isso entre os donos da luta anticapitalista.

Os mesmos que não falam, mas creem que a favela precisa descer pra levar porrada e cansar o braço armado do sistema, poupando torres, bispos, rainhas e os reis desse xadrez bizarro de viver.

Os que só descem dos seus condomínios em passeatas cheirosas convocadas por uma mídia cheirosa e bem maquiada. Os donos da vida tranquila que se recusam a ir pra rua, mas criticam a imobilização dos pobres que nunca podem parar.

Não fazer mais nada por não ter lugar de fala é reivindicar o mutismo reverso (uma forma de racismo reverso do direito de se manifestar).

O mutismo reverso revela o pensamento do silenciamento direito, logo, é o privilegiado se sentindo saqueado do direito de ser o líder e dizer o que é importante para todos.

O lugar de fala não rouba teu lugar de escuta, nem teu lugar de vista (que não é ponto de vista, mas o olhar que enxerga o outro em suas diferenças de tratamentos e dificuldades infringidas).

Lugar de escuta e lugar de vista não é lugar de passividade, mas disposição de correr ao lado, porque você sente que teu irmão precisa de força durante a jornada.

Ninguém nunca vai poder dizer pelo outro como é ser o que o outro é, ou a dor que o outro sente. Mas se o outro te diz dessa dor e você não o apoia por “não saber o que ou como a dor dói no outro”, você só é um egoísta covarde.

Ninguém precisa ter câncer para exigir que pesquisas sejam incentivadas e hospitais sejam edificados. Não é preciso ser estuprado para lutar contra violência sexual. Basta ser humano o bastante para não suportar ver a cólera refletida no outro.

Basta ser humano para entender o lugar de fala.

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3 comentários

  1. Acho que o texto deixou de fora uma questão inicial. O “lugar de fala” está sendo usado, e MUITO, para excluir as pessoas da luta.
    Já presenciei isto tantas vezes que já cansei MESMO, o “lugar de fala” virou sinônimo de “argumento de autoridade”: “Você não pode falar aqui pois não é (negro/índio/gay/pobre/etc…)”! Você não tem “autoridade moral” para falar sobre um assunto, pois é o opressor!
    Poxa, esqueceram de me avisar… Oprimi “estruturalmente” e nem notei. Se eu houvesse sido avisado, ali pelos 3, 4 anos, talvez pudesse melhorar, né? Ou, então, oprimir de verdade, porque aí, realmente, seria um absurdo eu tentar falar durante um encontro de certo tipo de “militação”.
    Taí, talvez seja um bom neologismo: MILITAÇÃO. Pejorativo mesmo, pois as vezes parece um bando pronto para atacar um companheiro, se ele não tiver A CARACTERÍSTICA CERTA, no MOMENTO CERTO.
    Eu já nem lembro a última causa que militei por mim mesmo… como não me enquadro em nenhuma categoria em que o “lugar de fala” ORDENA, não tenho fala… pois “sempre tenho fala” no dia a dia, né? Acho que vou esperar uma causa contra nordestinos, afinal, sendo um, podem me deixar falar lá, né?
    Desculpem todos , vou continuar a defender meus valores mas, se não me deixarem sequer falar, se tirarem a minha voz por eu ser “branco, macho, hetero, classe média”, DE CARA… não vou participar.
    Defendo, de longe, mas não estou a fim de ser humilhado e desqualificado.
    Vou militar mais ativamente nas questões de classe, onde nunca ninguém me acusou de não ter “lugar de fala”.

    • giorgio xenofonte, concordo em gênero, número e grau. Ontem comecei um comentário no mesmo caminho, mas ficou tão longo que parei pra avaliar e escrever melhor. É um problema que envolve o “Lugar de Fala”, mas também a “Política Identitária”, e a “Cultura do Cancelamento” porque fortalecem um núcleo fundamental do Patriarcado: o Egocentrismo Narcísico dos indivíduos e dos grupos, algo como: “Cada um por si e Deus Contra Todos!”.

      E digo mais, o problema não é que esses conceitos levam, apenas, a sofismas como o “argumento de autoridade”. Levam, é claro, mas tem mais: Existe uma vontade de poder totalitária incrustada nessas ideias. São vícios derivados do fascismo, do nazismo, do stalinismo, do maoísmo e do neoliberalismo, que nem são tão diferentes assim e cujas lógicas ainda mandam, todas, no mundo atual.

      Vale ver, por exemplo, as apresentações das canções “Pigs (Three Diferent Ones)” e “Us+Them”, da última turnê o Roger Waters, em que ele mostra nas duas canções a gênese intelectual do Totalitarismo, na primeira, e um manual de resistência pela emancipação dos povos, na segunda. Preste atenção na música e na letra, claro, mas se observar também os vídeos do telão: Você vai encontrar uma síntese espetacular da geopolítica mundial no último século, ou seja, o mundo pós Primeira Guerra Mundial.

      E o melhor de tudo é que ele respeita as diferentes identidades e horizontes de cada grupo (o show é de 2016, mas já mostra, por exemplo, o Black Lives Matter), sem esquecer o problema de fundo: “Não devemos lutar entre nós, mas nos unir contra os porcos do mundo, que exploram o trabalho e a vida das pessoas, unicamente para concentrar riquezas. Por isso, ele passa o show inteiro defendendo a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

      Assista:
      Show Us+Them em Santiago, Chile, com uma belíssima homenagem às vítimas da Ditadura de Pinochet (especialmente àquelas mortas no Estádio Nacional, onde ocorreu o show em 2018 e o massacre de 1973):
      https://www.youtube.com/watch?v=H61JN446hDY
      Pigs (Three Diferent Ones), na Cidade do México, em 2016.
      https://www.youtube.com/watch?v=QWLBtMz5OuY
      Us+Them, em Amsterdam, 2018 (a versão oficial do filme).
      https://www.youtube.com/watch?v=O7w765-TbjY

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