Samba da Boa Vizinhança, por Walnice Nogueira Galvão

Um papagaio verde-e-amarelo, Zé Carioca é a encarnação do malandro: odeia trabalhar, tira samba no pé, bebe cachaça, fala sem parar, conta patranhas para se promover. Esse é o brasileiro que os americanos inventaram em seus esforços por uma Boa Vizinhança...

Heitor dos Prazeres

Samba da Boa Vizinhança

por Walnice Nogueira Galvão

À cata de aliados contra os alemães na Segunda Guerra, os americanos criaram uma “Política da Boa Vizinhança” para garantir o poder neste continente. Como é sabido, Getúlio Vargas não escondia as simpatias por colegas ditadores como Hitler e Mussolini. Ante a exigência, o Brasil negociou seu apoio, em troca da criação da Petrobrás e da Siderúrgica Nacional, que viriam a figurar entre as maiores empresas do mundo. O componente cultural dessa política foi uma via de mão dupla e acabaria por engajar o samba.

As trocas culminaram com a vinda de Orson Welles para dirigir um filme. Entusiasmado com a descoberta, o cineasta resolveu filmar os heroicos jangadeiros do Ceará, capazes de velejar milhares de quilômetros de Fortaleza até o Rio de Janeiro. Estava prevista uma sequência sobre o carnaval carioca, mas o projeto nunca chegou a termo. O filme se chamaria It´s all true (É tudo verdade) – e assim se chama há mais de trinta anos nosso festival de documentários. O que restou foi recuperado, para alegria dos fãs.

Entretando, o maior acerto do programa seria a ida de Carmen Miranda com o Bando da Lua para os Estados Unidos, em 1939. Afora shows na Broadway e turnês pelo país, a cantora fez sucesso como estrela de cinema, fazendo 13 filmes, vários deles campeões de bilheteria. Um dos sambas do Bando da Lua, “Boogie-woogie na favela”, celebrava o programa, afirmando ser esse ritmo “a nova dança/ que faz parte da Política da Boa Vizinhança!” É bem verdade que Carmen encarnou uma caricatura: a latina temperamental e espalhafatosa, exótica, falando com forte sotaque, afinal meio ridícula.

Para nossa sorte, tudo isso já resultou em dois bons registros. O primeiro é o filme Carmen Miranda: Bananas is my business (1995), de Helena Solberg, e o segundo o livro Carmen – Uma biografia (2005), pot Ruy Castro.

Menos conhecida e só recentemente resgatada, a cantora erudita e internacional Elsie Houston, brasileira que se casaria com o poeta surrealista francês Benjamin Péret, também colaborou. Mário de Andrade admirava-a: em sua opinião, ela era nossa maior e mais feliz intérprete lírica, por isso encarregada da missão de elaborar motivos folclóricos brasileiros em craveira erudita. Ele, assim como Manuel Bandeira e Murilo Mendes, escreveu várias vezes sobre ela. Ver Elsie Houston – livrinho integrado ao projeto da exposição Negras Memórias, Memórias de Negros, que teve por curador Emanoel Araújo. No encarte, um CD facilita entender o que é que esses notáveis modernistas viam, ou ouviam, nela. Elsie Houston não era propriamente uma emissária oficial, mas passou o mesmo período nos Estados Unidos, dando concertos em que divulgava em suas performances  música de candomblé e repertório popular, dançando e cantando vestida a caráter. O que já fizera em Paris, onde vivera por vários anos. Ocupou-se também de programas de rádio de mesmo teor, e tudo isso exatamente na virada de década de 30 para 40, até 1943, data de seu falecimento em Nova York.

O próprio Walt Disney, que viria pessoalmente a nosso país, foi convocado devido à popularidade de suas animações. Fez com assunto brasileiro os filmes Alô, amigos! e Você já foi à Bahia? O Pato Donald, presente nesses filmes, já existia, mas em ambos é lançado um novo protagonista, o Zé Carioca. Um papagaio verde-e-amarelo, Zé Carioca é a encarnação do malandro: odeia trabalhar, tira samba no pé, bebe cachaça, fala sem parar, conta patranhas para se promover. Esse é o brasileiro que os americanos inventaram em seus esforços por uma Boa Vizinhança… Em compensação, os filmes divulgaram clássicos da música popular brasileira, como “Aquarela do Brasil”, “Tico-tico no fubá”, “Você já foi à Bahia?”. A primeira delas foi a canção brasileira mais executada no planeta até o advento de “Garota de Ipanema”.

O mais curioso é que tais filmes, que glorificam o malandro e o identificam como o brasileiro típico, contradizem a tendência da década, orquestrada por Vargas, à frente do Partido Trabalhista Brasileiro de sua criação, de denegrir o malandro para endeusar a figura do trabalhador (V. Jornal GGN, 27.1.2021).

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

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