Sobre desenvolver um legado, por Matê da Luz

 

Sobre desenvolver um legado, por Matê da Luz

Um dos argumentos onde se apóia a lei do adotado dá conta de que todo indivíduo tem o direito de conhecer suas origens. Dialogando com minha terapeuta sobre o assunto, desenrolamos este tópico e caminhamos tanto pelas questões biológicas quanto pelas de identidade pals quais passeiam a indicação. Consta, em autos de registros daqueles que, adultos, foram em busca de seus progenitores que o principal fator relacionado à busca é de fato o psicológico. Pudera: existe uma lacuna inerente aos adotados, mesmo que estes tenham aproveitado ao máximo a chance de se incorporar à uma família. 

Escrevo chance mesmo sem medo de ser piegas, em referência ao enorme número de crianças que passam a vida à espera de aceitação familiar nos orfanatos por aqui e acolá e, então, a inclusão familiar já é considerada um privilégio verdadeiro. Normativamente, segundo conversas com diferentes psicólogos e psiquiatras, aqueles que buscam sua origem não estão intimamente relacionados à uma insatisfação em relação a estas famílias mas sim, mesmo que inconscientemente, em busca de raízes que acalentem ou reforcem características não encontradas no grupo, afim de experienciar um nível de pertencimento maior e mais amplo que o próprio núcleo familiar promove. 

Outra característica fortemente manifestada nos adotados é o desejo de constituir núcleos – familiares, religiosos, sociais. De novo, a busca por pertencimento permeia estas jornadas e, não raro, estas pessoas são propensas e serem grandes recrutadoras e entusiastas daquilo que as envolver. Parece, aos meus olhos, estes que são também contaminados por ser eu mesma uma filha adotada, que a busca pela calmaria do pertencimento é uma tormenta que corre às margens da vida e que, como todo outro fator na vida de qualquer pessoa, pode fugir das métricas da normalidade. 

Faço deste texto meu mea culpa para expor um percurso que vem sendo dolorido e, agora, começa a ser custoso de forma a prejudicar as relações que me são mais caras como, por exemplo, a relação com minha filha. 

Quem já leu minhas escritas aqui sobre ela e sobre como me dou com ela pode achar esquisito, “me pareciam tão próximas”. Sim, somos e, justamente por isso, entendo que depositei nela uma série de “não seremos” que, atualmente, vêm machucando ambas as envolvidas. Escrever me faz refletir e compartilhar me traz equilíbrio e saúde mental, de forma que expor intimidades em um nível aceitável de não exposição individual não é problema. 

Submergi numa batalha individual tão grande para “melhorar” e isso trouxe diversas conquistas, algumas inclusive em termos de reformulação de caráter. O trabalho de desenvolvimento todo foi – e ainda é – acompanhado por uma terapeuta daquelas que a gente chama de anjo. Quem tem uma sabe do que estou falando. Daí que ultimamente tenho dialogado sobre a semântica da palavra desenvolver, no que traz sentido a não manchar a história de vida da minha filha com minhas experiências. Tem sido um exercício largo, árduo e ando perdendo para as oportunidades, seja ao esquecer do compromisso de des-envolver nossa experimentação rotineira da minha trajetória una, seja ao sucumbir ao medo de que ela, de fato, viva os mesmos temores que os meus e que, por consequência, se coloque em risco. 

É, eu sei. Controle. Eu não tenho, você não tem, ninguém que afirme ter merece credibilidade. O que dá pra fazer, adotada ou não, é assumir que a percepção é a grande chave para a mudança e que ressignificar as próprias histórias para que não contaminem o ambiente de desenvolvimento dos filhos pode ser o fator ideal para que eles se envolvam, naturalmente, na construção de um legado cada vez mais positivo, translucido e coerente. Com amor, sigo reconstruindo estas histórias e, com o mesmo amor, me desculpo e crio pernas pra seguir em frente, tentando até que a claridade se faça rotineira. 

Espero que possamos nos envolver neste novo e trabalhado enredo. 

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