#somos70porcento a hashtag bonitinha, mas ordinária, por Eduardo Borges

Não é somente agora com Bolsonaro que a democracia brasileira está sendo aviltada. Bolsonaro é somente a forma mais explícita e caricata de ação antidemocrática.

#somos70porcento a hashtag bonitinha, mas ordinária

por Eduardo Borges

Na semana passada um grupo de artistas, intelectuais e políticos publicaram um manifesto chamado “Estamos Juntos” que em tempos de retrocesso bolsonarista, pregava em favor da “vida, da liberdade e da democracia”. Escrevi aqui no GGN minha posição crítica sobre esse manifesto por entender que por mais que esses valores estejam sendo distorcidos, em praça pública, por uma parcela da população e, portanto, mereça uma defesa pública, acredito que seja quase um truísmo defendê-los como objetivos centrais de um documento público em meio a uma conjuntura de completo e frontal desmonte do Estado de bem estar social e da precarização dos instrumentos básicos de sobrevivência de nossa classe trabalhadora. O ex-presidente Lula, ao não concordar com o conteúdo do manifesto, talvez tenha dado a contribuição mais decisiva para sua publicidade. Além de Lula, outras pessoas se manifestaram de maneira crítica ao documento demonstrando principalmente seu perfil excessivamente conciliador quando optou por uma abordagem da realidade política e social brasileira evitando tocar em fatos mais “polêmicos” como a aplicação da política ultraliberal do governo, a precarização das relações de trabalho e o golpe parlamentar contra a ex-presidente Dilma Rousseff.

Os apoiadores do manifesto identificaram como exagerada e descabida as críticas, e basearam seus argumentos na tese central de que estamos vivenciando uma conjuntura sui genere que coloca a democracia em oposição ao fascismo. Na rasteira desse argumento, que já antecipo entendo como muito simplista e reducionista, vieram outros manifestos como o “Juntos pela Democracia e pela Vida chamado” e uma espécie de conclamação pública chamada  #somos70porcento. No fundo, um manifesto não passa de uma nota de repúdio com grife.

O que tem em comum entre eles? Defendem exclusivamente o todo (representado pelo que eles chamam de democracia), mas não atacam as partes que são as ações efetivas dos governos Temer e Bolsonaro no campo econômico e social que atingiram frontalmente o que eu entendo por democracia. Não é somente agora com Bolsonaro que a democracia brasileira está sendo aviltada. Bolsonaro é somente a forma mais explícita e caricata de ação antidemocrática. Mas ela vem sendo degradada desde 2014 quando o PSDB de FHC (assinante de manifestos) não reconheceu a derrota e apelou para o TSE. Desde 2015 quando o lavajatismo, com o apoio da mídia e de diversos assinantes de manifestos, serviu para destruir o PT e esquerda brasileira. Quem não se lembra do “somos todos Cunha” ou “somos todos Bretas”? O que dizer sobre o achincalhe com a democracia naquele circo dos horrores que resultou no Golpe parlamentar contra Dilma Rousseff? E a reforma trabalhista de Temer, precarizando ainda mais a vida dos trabalhadores e abrindo caminho para o massacre final por Paulo Guedes. Mas nada disso foi suficiente para ser considerado um ato antidemocrático, afinal, a união estável entre o capital e o trabalho estava garantida o que também assegurava nosso simulacro de democracia. Não me recordo, nesses períodos, de nenhum grande manifesto em defesa de nossa triste democracia.

Não nego que em pleno século XXI e diante dessa nova arena pública chamada rede social que campanhas virtuais tendem a se tornar cada vez mais uma realidade, principalmente em tempos de quarentena. Contudo, me assusta o outro lado da moeda que é o fato de capitularmos ao discurso raso e populista dessas campanhas.

Se chegamos realmente, em pleno século XXI, ao profundo dilema (como justificam os assinantes de manifestos) de termos que combater a batalha da democracia x fascismo não será com argumentos de hashtags que iremos construir a melhor estratégia de combate. Há alguns anos atrás se falava sobre o sumiço dos intelectuais brasileiros e clamava-se por seu retorno como os indivíduos que nas palavras de Edward Said (um grande intelectual) agiriam na sociedade como “um perturbador do status quo”. Hoje, não só abdicamos desses indivíduos para nos ajudar a entender e apontar caminhos diante dessa complexidade em que nos metemos,  como estamos nos sentindo muito satisfeitos com as opiniões rasas de youtubers e brilhantes análises  de “especialistas” nos profundos 280 caracteres do Twitter.

Existem duas formas eficientes de combater o bolsonarismo. A primeira é apresentando para a sociedade propostas concretas de transformação social e econômica que mude suas vidas, que gere emprego e renda e que nos reconduza à verdadeira democracia participativa. A segunda é através do humor a grande arma do futuro. Deixemos que os humoristas nos mostrem o quanto o bolsonarismo é ridículo e patético. Nesse caso, o Porta dos Fundos, Marcelo Adnet e Brunno Sarttori valem mais do que mil manifestos e hashtags.

A esquerda não consegue perceber que a batalha travada no campo virtual é o caminho do bolsonarismo e suas fake News. É a tática de quem não tem projeto estratégico para o país e, tampouco, capacidade de analisar a realidade brasileira com a complexidade que ela merece. A tese da democracia versus fascismo ainda que não seja irreal é contraproducente, porque reducionista. Além disso, tem servido a uma gama de discursos oportunistas de quem só está pensando em seu projeto pessoal para 2022. “Vamos pro cacete, vamos defender a democracia brasileira e quem não vier é traidor” afirmou um raivoso futuro candidato em 2022 que no segundo turno de 2018 não teve essa mesma sensibilidade diante do risco eminente de vitória desse mesmo fascismo que hoje ele combate com tanta veemência. Essa tática do nós contra eles de quem não estiver ao nosso lado é traidor é bem típica do bolsonarismo.

Existe, por trás desses manifestos e de hashtags como a do #somos70porcento  um desserviço à verdadeira democracia que eles afirmam defender. Elas se restringem a construir palavras de ordens populares que chegam rápido aos trending topics e possibilita boa visibilidade pública ao autor da frase, mas abdica de debater a verdadeira razão do por que chegamos até aqui. Indiretamente, ao reduzir tudo a um discurso que parece ter saído da cabeça de um brilhante marqueteiro, subestima a capacidade da população de debater seus reais problemas com mais profundidade. Se a democracia está em perigo diante do crescimento do fascismo, onde está a raiz da fragilidade da democracia e do próprio fortalecimento do fascismo? Essa campanha do #somos70porcento é apenas um simulacro piegas de unidade que insiste em transformar tudo em um discurso motivador e de autoajuda. Como diria Edward Said isso não perturba o status quo.

O que abala as estruturas é debater seriamente o golpe parlamentar de 2016, esse sim, o grande estrago recente de nossa combalida democracia. O que põe a nu nossas mazelas e concede esperança ao povo de alguma mudança no horizonte é debater seriamente propostas de reformas no sistema político e em nosso pacto federativo. É apresentar ideias concretas para a questão da violência e da segurança pública.  É debater o municipalismo, tema historicamente negligenciado nesse país, pois é nos municípios que a vida é realmente vivida. É conclamar nossos melhores economistas a apresentarem soluções para a retomada do crescimento econômico. O que comunica ao povão e lhes dá sentimento de unidade e de identidade são propostas concretas de como desfazer o desmonte da legislação trabalhista e previdenciária colocada em curso depois do Golpe parlamentar. É trazer de volta o lavajatismo e discutir o papel social do judiciário e, por tabela, o tal do equilíbrio entre os poderes. Qual a posição dos assinantes de manifestos e lançadores de hashtags sobre essas questões?

No interior desses supostos 70% de anti-bolsonaristas está uma complexa hierarquia social mediada principalmente pela possibilidade ou não de acesso ao capital cultural. Nesses 70porcento, juntamente com a enorme gama de beneficiários do Bolsa Família e de uma classe média remediada,  está gente como FHC, o ex-juiz Sérgio Moro, Luciano Huck, todos os donos do PIG (Partido da Imprensa Golpista), a incorruptível Joice Hasselmann, certamente uma parcela enorme daquele 1% do PIB nacional e, acredito que por conta dos últimos acontecimentos, o grupo ganhou um membro ilustre o guru Olavo de Carvalho. Chega a ser cruel insinuar aos menos favorecidos a sensação de que somos todos partes de um mesmo todo. É muito pobre restringirmos o debate político brasileiro e as soluções para nossos complexos problemas socioeconômicos a uma mera hashtag de Twitter. Restringir a defesa disso ao argumento de democracia versus fascismo é supor ingenuamente que deposto o fascismo esses 70% irão construir juntos um Brasil melhor para todos. Se somos 70% de democratas contra 30% de fascistas significa que no passado recente, quando não existia o bolsonarismo, éramos 100% de democratas lutando juntos por um Brasil justo e igualitário. Acabei de descrever uma irônica fake News.

Em fim, reafirmo que em tempos de isolamento social e de redes sociais manifestos virtuais e hashtags são realidades inelutáveis. Contudo, definitivamente, suas linguagens rasas, típicas de uma comunicação rápida e objetiva, não podem substituir o debate amplo que leve em conta análises profunda da complexidade que constitui o tecido social brasileiro. Acredito que chegamos até esse ponto, o da democracia versus fascismo, justamente porque abdicamos, no passado recente, de um debate complexo, que não precisa ser erudito nem incognoscível às camadas populares, basta ser sincero e desejar profundo. Afinal, ao pensarmos assim, estaremos subestimando de forma preconceituosa a capacidade do outro em entender as agruras que caracterizam seu próprio sofrimento social. Che Guevara teria dito de que quem faz a revolução é a fome, que aqueles que têm fome façam a revolução brasileira.

Eduardo Borges – Doutor em História – Professor adjunto na UNEB/Campus XIV.

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