Trabalhadores seduzidos pelo autoritarismo: que fazer?, por Paulo Fernandes Silveira

Duas posições socialistas tiveram pouca importância entre os trabalhadores que se identificaram com o nazismo: a independência frente à autoridade e a solidariedade frente ao individualismo.

Cena do filme The Wall, do Pink Floyd

Trabalhadores seduzidos pelo autoritarismo: que fazer?

 por Paulo Fernandes Silveira

Em O medo à liberdade, publicado em 1941, o filósofo, sociólogo e psicanalista judeu Erich Fromm procura compreender a personalidade daqueles que apoiaram a ascensão do autoritarismo e do nazismo. No apêndice do livro, Fromm lembra que, antes de Hitler chegar ao poder, a maioria dos trabalhadores alemães votava nos partidos socialdemocrata ou comunista. Todavia, ainda que as ideias desses partidos tivessem um amplo alcance junto à classe trabalhadora, o peso dessas ideias não era proporcional ao seu alcance.

Duas posições socialistas tiveram pouca importância entre os trabalhadores que se identificaram com o nazismo: a independência frente à autoridade e a solidariedade frente ao individualismo. Pelas análises de Fromm, a submissão servil à autoridade e o individualismo estão arraigados na personalidade das pessoas que passaram por uma formação protestante e calvinista.

As teorias de Lutero libertam o povo da autoridade da Igreja, mas submetem o homem à autoridade tirânica de um Deus que articula a salvação ao aniquilamento da sua personalidade. Além disso, Lutero e Calvino sustentam a ideia de uma salvação completamente individualista. Em grande medida, afirma Fromm, esse individualismo espiritual está em consonância com o individualismo econômico.

Para os calvinistas, existem duas classes de pessoas: aquelas que serão salvas e aquelas destinadas à condenação eterna. Pela doutrina da predestinação calvinista, as boas obras não oferecem ao homem a certeza de ser um dos escolhidos. No entanto, o esforço moral e a vida virtuosa são signos do seu pertencimento ao grupo dos eleitos. Segundo Fromm, a angústia e a impotência provocadas pela incerteza da salvação estimulam o calvinista a mergulhar numa atividade frenética e compulsiva. Desse modo, além do esforço moral, os calvinistas cultivam o trabalho incessante.

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A ideologia nazista, observa Fromm, preenche três demandas gerais de um povo formado por essas crenças: impõe um líder autoritário que retira das pessoas a pesada carga de serem livres, sustenta uma certa desigualdade natural entre os homens (negando a solidariedade) e forja um critério para separar a sociedade entre aqueles que merecem pertencer à pátria e aqueles que devem ser perseguidos e eliminados.

No Brasil, as igrejas neopentecostais estimulam as práticas calvinistas que cultivam a obediência religiosa e o trabalho árduo. Por outro lado, ao contrário do que defendem os calvinistas e as igrejas pentecostais, as igrejas neopentecostais pregam uma “teologia da prosperidade” que liberta os fiéis das exigências ascéticas e autorizam o desfrute das fortunas mundanas.

Segundo a antropóloga Diana Lima, a partir dos anos 90, com a implementação de uma economia marcada pelos princípios do “mercado livre”, essas igrejas tiveram um grande aumento do número de fiéis. No governo Collor, o Estado priorizou a abertura dos mercados e as privatizações, e incentivou novos empreendimentos empresariais pautados por programas de eficiência.

Na grande mídia, nos anos 80 e 90, ganham espaço temas relacionados aos negócios e publicações que glorificam a riqueza e o sucesso financeiro, tais como: Caras, Quem acontece, Chiques e famosos, Tititi, etc. Algo semelhante ocorre na televisão, que investe em programas de entrevistas e de variedades com o mesmo foco: Flash, Faustão, Gugu, Ana Maria Braga, etc.

Em sua pesquisa etnográfica com fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus, Lima destaca que, semanalmente, os templos promovem um culto à prosperidade,               no qual a pregação discorre sobre a legitimidade da abundância e a importância dos pequenos empreendimentos. Pelo relato de um dos fiéis que largou o emprego de porteiro num prédio comercial, onde recebia três salários, cesta básica, vale alimentação e plano de saúde, para tentar a sorte como camelô: “Ele [o pastor] tenta te ensinar a batalhar por uma vida melhor, mas com Deus, né?…”

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Num de seus períodos mais conservadores, a revista Veja afirmou que, com sua doutrina do bem-estar econômico, nos anos 70 e 80, as igrejas neopentecostais tiveram o mérito de se contrapor à influência da Teologia da Libertação e de barrar o avanço   das ideologias revolucionárias da esquerda na América Latina. Ao contrário do que sustentam as teorias marxistas, argumenta um dos colunistas da Veja numa edição publicada em 2008, para as neopentecostais, “a pobreza é resultado do fracasso pessoal, não de um sistema econômico injusto”.

Se o argumento de Fromm faz algum sentido, ou seja, se a adesão, nos anos 30, de grande parte da classe trabalhadora alemã ao autoritarismo e ao nazismo guardava alguma relação com a influência das doutrinas calvinistas, é bem provável que, atualmente, a influência das doutrinas neopentecostais também tenha alguma relação com a ascensão de governos autoritários.

Que fazer? No fim do livro O medo à liberdade, Fromm aposta num amplo projeto de formação e de educação. A médio e longo prazo, penso que a criação de mais escolas de qualificação de trabalhadores, como a Universidade da Correria, coordenada pelo Dinho (Anderson França), hoje no exílio, seria muito importante para abrir uma alternativa à teologia da prosperidade. Com relação à adesão da classe trabalhadora a governos autoritários, talvez, este risco estará sempre presente nos países de regime democrático. De todo modo, é bom considerarmos a hipótese de que políticos autoritários não são eleitos, apenas, em razão dos equívocos eleitorais da esquerda.

Paulo Fernandes Silveira (FEUSP e IEA-USP)

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