Vacina, Política e Ideologia, por Edmundo de Moraes

A discussão sobre a vacina contra a COVID-19 no nosso país está sendo pautada muito mais pelo uso político e ideológico do tema do que pelos seus aspectos científicos e sociais.

Peter Ilicciev-Agência Brasil

Vacina, Política e Ideologia

por Edmundo de Moraes

Estariam as autoridades dispostas a questionar também outras obrigatoriedades, como o serviço militar por exemplo?

O cientista, pensador e ambientalista René Dubos, responsável pelo trabalho de pesquisa que resultou no uso terapêutico dos antibióticos, já afirmava que “a frequência e a gravidade das doenças microbianas se explicam mais pelo modo de vida das pessoas que são sujeitas a elas do que pela virulência e outras propriedades dos agentes que são a causa direta”.

Assim, uma vacina não vai resolver todos os problemas causados pela pandemia da COVID-19. Outras medidas serão necessárias. Teremos que rever o nosso modo de vida, repensar as nossas atividades individuais e coletivas. Precisaremos reconsiderar as nossas visões de mundo: nossos valores, nossas crenças, nosso conhecimento e nossa ignorância. Para isso, uma vacina não é suficiente, mas é necessária.

Sem vacina a Europa está enfrentando neste momento uma segunda onda da pandemia e nós ainda nem saímos da primeira. Sem vacina ficamos reféns de uma trajetória cíclica da pandemia, com sucessivas ondas de agravamento da situação.

A discussão sobre a vacina contra a COVID-19 no nosso país está sendo pautada muito mais pelo uso político e ideológico do tema do que pelos seus aspectos científicos e sociais.

Em uma pandemia, a vacinação não é só uma questão pessoal, mas uma questão de saúde pública. Uma pessoa não vacinada coloca em risco, além da própria vida, a vida de outras pessoas. Receber a vacina constitui um direito de todos, mas também um dever social. Providenciar a vacinação de toda a população constitui uma obrigação das autoridades que foram eleitas para cuidar de todas as pessoas. Alegar que a obrigatoriedade da vacinação é violar o direito da pessoa é desconhecer que o interesse da população está acima dos interesses individuais. Além disso, é uma hipocrisia. As autoridades que questionam a obrigatoriedade da vacinação estariam dispostas a questionar outras obrigatoriedades, como a do serviço militar por exemplo?

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De modo irresponsável e inaceitável, a vacina foi incluída em uma disputa que envolve interesses políticos e pessoais voltados para uma eleição que só vai acontecer daqui a dois anos. O bem estar da população é prioritário e imediato em todos os níveis da administração pública.  O uso da vacina como objeto de disputa política constitui uma ameaça à saúde pública e, portanto, uma violação das atribuições das autoridades envolvidas.

Desqualificar uma vacina a partir da sua nacionalidade de origem é um despropósito. A discriminação é um preconceito concebido sem fundamentação e só se explica pela ignorância e pelos interesses políticos mesquinhos e desprezíveis. O importante é que a vacina seja segura e eficaz e ela só vai ser aplicada se preencher esses requisitos. O nosso sistema imunológico não discrimina a vacina pela sua origem. Afinal, o nosso sistema imunológico não tem ideologia.

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