REPLEPLÉ BOMBA NA CASÉ


 

Em novembro, publicávamos aqui, a propósito do culto liderado pela pastora Ana Lúcia de Andrade, o texto “Uma nova igreja negra?”. 

Nele, levantávamos a possibilidade de, com essa modalidade de culto, estar nascendo uma nova forma religiosa, um novo pentecostalismo étnico, tendo a ver, por exemplo, com a “teologia negra” pregada em outras vertentes. 

Em nosso socorro, veio o amigo Rafael César, sociólogo, editor do precioso livrinho “Cotas Raciais: por que sim?”, escrito pela Cristina Lopes e publicado pelo IBASE em 2008, que mandou assim: 

“Difícil dizer o que é e o que vem, mas tenho umas pistas. Primeiro de tudo, esse tipo culto é uma modalidade presente em algumas igrejas evangélicas – sempre frequentadas por uma esmagadora maioria negra – chamado normalmente de RETETÉ e, às vezes, de REPLEPLÉ. 

“Esse termo é uma expressão corrente no meio evangélico para designar cultos em que há presença de batuque e transe, e tem em comum o fato de as pessoas ficarem girando, girando, girando, exatamente como no vídeo que você mostrou no post, mas também com uns gestuais típicos de cavalos de umbanda no momento em que estão dando passagem, cruzando braços com os dedos indicadores em riste e assim por diante”. (…) 

“É algo bastante discriminado dentre os cristãos, que associam o reteté aos cultos de – assumida – origem afro. Têm toda razão em associar, só não têm razão em discriminar, é claro. Já vi um vídeo no youtube em que as pessoas entravam em transe, caíam no chão… e eram cobertas por panos brancos! Tudo muito parecido. (…) 

“Aliás, a primeira coisa que fui fazer foi procurar o reteté no teu Dicionário Banto, porque mui possível e provavelmente esse termo é obra de nossa incontornável memória linguística e cultural banta. Não está lá, mas acho que devia, hein? Tem alguma sugestão etimológica? (Dizem os adeptos que o termo vem do italiano, relacionado com alguma coisa de culinária, mistura, mas não creio.)” 

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E foi por aí, o Rafael, sem imaginar que, logo,logo, a pastora do “reteté” ia aparecer no programa da Regina Casé e bombar na TV e no Segundo Caderno de O Globo onde manifestou seu grande desejo de gravar um CD e fazer sucesso. 

Não imaginava também o Rafael que o REPLEPLÉ, que virou “reteté”, parece vir mesmo é do fon, língua do Benin, antigo Daomé, cujos resíduos sobrevivem no Brasil nos cultos do chamado JEJE, irradiados principalmente a partir de Cachoeira, no Recôncavo Baiano. 

Nessa língua, o termo ‘kplekplé” (de “kplé”, reunir) significa acúmulo, multidão, “em grande número”. 

Na Bahia, o povo do jeje interagiu bastante também com o povo dos cultos bantos, angola e congo. E talvez seja dessa boa mistura que saiu o “reteté”. 

** 

Agora – confessamos – já não temos mais tanta empolgação quanto às possibilidades do “reteté”. Mas ficamos felizes com a revelação artística da pastora Ana Lúcia, cuja carreira de “pop-star” agora parece que… esquenta!

http://oglobo.globo.com/videos/t/todos-os-videos/v/pastora-ana-lucia/1755192/

Redação

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