A adaptação esquizofrênica numa sociedade pós-moderna em “Greener Grass”, por Wilson Ferreira

Em um típico condomínio suburbano de classe média (algo como o sonho americano dos anos 1950 que caiu no Instagram do século XXI) temos uma visão maluca e surreal do tédio da vida suburbana kitsch e brega, vivendo um estilo de vida esquizoide

por Wilson Ferreira

Freud acreditava que a civilização cobrava um preço ao indivíduo: o mal-estar, a neurose. Ele e toda a sociologia clássica temiam a “anomia”, o momento em que o mal-estar explodiria contra a civilização. Mas a sátira do filme “Greener Grass” (2019), da dupla de humor de improvisação stand up, Jocelyn DeBoer e Dawn Luebbe, mostra que no mundo pós-moderno paradoxalmente o mal-estar e alienação se tornam ferramentas de adaptação. Em um típico condomínio suburbano de classe média (algo como o sonho americano dos anos 1950 que caiu no Instagram do século XXI) temos uma visão maluca e surreal do tédio da vida suburbana kitsch e brega, vivendo um estilo de vida esquizoide: sentimentos confusos que tentam conciliar interações sociais competitivas com uma polidez politicamente correta neurótica. O resultado é uma sociedade à beira da depressão e, por isso, mais adaptada pela incapacidade de ousar.  

Na sociologia clássica funcionalista “papéis sociais” são como “colagens de expectativas” do que os outros esperam de nós no exercício de determinada ação social. Tornam-se modelos abstratos de ação, scripts impessoais que exigem serem cumpridos da mesma forma, cotidianamente, não importando a subjetividade ou necessidades ou carências psíquicas individuais.

Por isso, viveríamos no cotidiano verdadeiros “dramas de adaptação” – a tensão entre o script abstrato das colagens de expectativas que entendemos que os outros têm de nós, e a nossa “espontaneidade”: o conjunto de impulsos e demandas íntimas.

Por exemplo, para o sociólogo norte-americano Talcott Parsons (1902-1979), esse ajuste do indivíduo aos papéis é fonte potencial de disfuncionalidade, o choque entre o que queremos e aquilo que a sociedade espera de nós. É o que Parsons chamava de “dupla contingência”: o drama de adaptação do ego ao papel imposto pelo sistema social de expectativas.

Mas estamos no século XXI, e esse viés funcionalista da sociedade tornou-se mais complexo com diferentes matizes. Isto é, esse script abstrato que nos informa o que a sociedade espera de nós parece que se tornou tudo, menos “funcional” – ele pode ter se tornado fonte de profunda disfuncionalidade psíquica: esquizofrenia, psicose, indiferença, amoralidade etc.

Por esse motivo, Greener Grass (2019) é uma sátira maravilhosamente estranha na qual através de uma perfeita farsa suburbana e perversa expõe essa disfuncionalidade – uma visão absurda e surreal do sonho americano, na sua versão século XXI.

 

 

Dirigida, escrita, produzida e estrelada pela dupla de cineastas independentes Jocelyn DeBoer e Dawn Luebbe, o filme é uma versão estendida do curta-metragem de 2015 do mesmo nome. Nesse longa elas conseguem expandir a visão maluca do tédio da classe média suburbana (aquela que vive em uma vida asséptica de condomínios fechados) e as dolorosas consequências em se adaptar ao status quo. É como se o velho mundo em tons pastéis do sonho americanos da década de 1950 de repente caísse no Instagram. 

Como o título nos informa, o argumento parte daquele velho provérbio de que a grama do vizinho sempre parece mais verde. Toda as interações dos personagens de Greener Grass são competitivas, carregadas de inveja e ansiedade. Porém, o paradoxo é que há uma expectativa latente e generalizada de que todos sejam amigáveis, sorridentes, polidos e simpáticos uns com os outros. 

Resultando numa estranha polidez que chega às raias da neurose, porque tentam conciliar a agonia da superação com uma cortesia neurótica politicamente correta. 

A sociedade de Greener Grass acrescenta um requinte perverso aos dramas de adaptação descritos pela sociologia clássica – há uma espécie de armadilha esquizoide na qual os personagens caem quando tentam conciliar o inconciliável: competição e empatia; ansiedade de superação entrando em choque com uma sociedade que prega a igualdade e atitudes eticamente corretas.

Um mundo de fluência, lazer, onde todos se locomovem em carrinhos de golfe entre suas casas que mais parecem cenografias de Show de Truman, o campinho de futebol para torcer histericamente pelos filhos e o boliche do shopping.

 

 

O Filme

Greener Grass começa com uma estranha sequência: Lisa (Luebbe) e Jill (DeBoer) sentam-se com um grupo de pais em um dia ensolarado (como todos), assistindo seus filhos jogarem futebol. Ambas as mulheres estão imaculadamente vestidas e maquiadas, com aparelhos nos dentes – todos usam aparelhos nos dentes! Jill segura um bebê recém-nascido e Lisa elogia o bebê: “fofo!”, diz.

Jill imediatamente entrega o bebê para Lisa: “Fique com ele… já tenho um menino”. Ninguém parece achar estranho, nem mesmo o marido Jill (Beck Bennett). Afinal, Lisa queria o bebê e seria egoísta não dar para ela… para sempre. Mais tarde, uma vizinha (Mary Holland) expressa ressentimento (na verdade inveja) por Jill não ter dado o bebê para ela. Jill então passa a ter sentimentos confusos sobre o que fez… No entanto, “sentimentos confusos” não são permitidos no mundo de Greener Grass.

O filho remanescente de Jill (Julian Hilliard) é um menino observador e perceptivo, que ao invés de tocar ao piano numa audição escolar uma música patriota executa uma composição própria de vanguarda atonal – um total freak para os pais, um inadaptável que sofrerá uma transfiguração surreal para poder se adaptar às expectativas do papai: ser um jogador profissional de beisebol.

Há uma cena em Greener Grass que é a síntese do paradoxo esquizoide dessa sociedade: quatro famílias em carrinhos de golfe ficam parados em um cruzamento de quatro vias. Todos gesticulam uns para os outros: “Você pode ir!”, “Não, pode ser você, eu insisto!”… E todos ficam sentados no cruzamento para sempre, com sorrisos congelados em seus rostos, em um estranho impasse de cortesia neurótica.

 

 

Síndrome de adaptação

Por isso, em Greener Grass ninguém ousa, produzindo uma estranha síndrome de adaptação – diálogos e ações são atravessados pela competição, inveja e ansiedade por superação. Mas ao mesmo tempo todos devem estar sorridentes, positivos, prá cima, alto astral. Que deve ser representado por uma espécie de polidez que se torna neurótica e paralisante.

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