Em “Um Amor Inesperado” a quebra do elo geracional amplia a intransitividade do amor, por Wilson Ferreira

Filme coloca em questão como o esvaziamento da função de elo geracional dos pais potencializa duas facetas da condição humana: a angústia existencial e a intransitividade do desejo e do amor.

Em “Um Amor Inesperado” a quebra do elo geracional amplia a intransitividade do amor

por Wilson Ferreira

O filme argentino “Um Amor Inesperado” (“El Amor Menos Pensado”, 2018) aparentemente é mais uma comédia romântica, um subgênero marcado por clichês e personagens estereotipados. Mas essa produção mostra que ainda é possível fazer uma comédia romântica sofisticada para adultos. Quando o filho único deixa a casa para estudar na Espanha, seus pais chegam à conclusão que o único motivo para estarem juntos se foi. Síndrome do ninho vazio? O filme vai além das situações tragicômicas de um casal recém-separado em desventuras amorosas: coloca em questão como o esvaziamento da função de elo geracional dos pais potencializa duas facetas da condição humana: a angústia existencial e a intransitividade do desejo e do amor.

O filme Um Amor Inesperado (2018), estrelando o casal de grandes atores argentino Ricardo Darin e Mercedes Morán, não é uma comédia romântica comum.

Com sofisticação e uma narrativa em “queima lenta” (slow burn), parte de um interessante argumento nesse subgênero: Ana (Morán) e Marcos (Darin) estão paradoxalmente confortáveis e honestos em relação ao casamento quando eles se separam. Ao contrário do clichê comum no qual mal-entendidos, traições ou a incomunicabilidade criam situações tragicômicas que põe em crise um relacionamento. Isso, desde a screwball comedy dos anos 1940.

Um Amor Inesperado prova que existem comédias românticas sofisticadas para adultos.

Tudo acontece quando o filho único deixa a casa para estudar na Espanha. Ana simplesmente chega à conclusão que o motivo deles estarem juntos se foi. O que restará para o casal nos próximos 30 anos, eventualmente tornarem-se avós?

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Marcos concorda e consensualmente mergulham, cada um arriscando a própria sorte, em uma série de relacionamentos que falham, encontros bizarros marcados em plataformas de relacionamentos na Internet e outros parceiros que variam de sadomasoquistas a um fã de iguanas domésticos. Parecem rolhas boiando no oceano em busca de um porto seguro.

À primeira vista, é uma comédia que trata do tema da chamada “síndrome do ninho vazio” – condição descrita como um quadro depressivo e de perda de autoestima de um casal após a saída dos filhos de casa, quando se tornam independentes financeira e profissionalmente. Surgem os sintomas de depressão, dependência e desestruturação familiar com a repentina perda da função paterna.

Porém, Um Amor Inesperado vai muito além disso quando a dupla de roteiristas (o diretor Juan Vera e Daniel Cuparo) opta por fugir das caricaturas do subgênero e mostrar um casal adulto e autoconsciente. Quando a narrativa coloca desde o início esse paradoxo (um casal que se separa com clareza e honestidade e que opta por uma jornada de autodescoberta) parece refletir um mal-estar existencial que é típico da condição pós-moderna: a angústia da liberdade.

A angústia no sentido dado pelo pensamento existencialista de Sartre: Essa inesperada liberdade e a consciência da responsabilidade que seriam para o filósofo a fonte da angústia humana – existência é escolha. E a escolha depende primeiramente de negar determinadas possibilidades. Tendo consciência de todas as opções, essa escolha nos angustia. Ainda mais numa sociedade que multiplica as opções seja no consumo, negócios, profissão ou no amor.

Essa sociedade é a que define a liberdade pelas inúmeras opções de consumo, sempre definidas pelos modelos estéticos e comportamentais da juventude. O que nos leva ao segundo tema suscitado pelo filme: a crise do elo geracional, em uma sociedade em que a única opção que restou aos mais velhos é a de emular a juventude, não parecer velho… forever Young! Essa é a agenda social generalizada, na qual aos mais velhos (da meia idade em diante) foi eliminada a função do elo geracional – a transmissão do conhecimento e sabedoria.

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E indo ainda mais fundo, Um Amor Inesperado tematiza também o destino do desejo nessa condição pós-modernidade. Uma condição lacaniana: para Lacan, um objeto só se torna desejável a partir do momento em que ele é objeto do desejo do Outro. “O desejo do homem é o desejo do Outro”.

O Filme

A narrativa inicia com a condição clássica da síndrome do ninho vazio: seu filho Luciano (Andres Gil) não só vai estudar na Espanha, como também decide viajar pelo mundo com sua namorada oriental, comunicando-se do outro lado do mundo com seus pais através do Skype.

A saída de Luciano deixa um buraco significativo em suas vidas. Depois de mais de 20 anos de casamento, ambos admitem com relutância que seus sentimentos um pelo outro mudaram. Então, como se fosse um último projeto juntos, Ana e Marcos decidem “se separar conscientemente” e começar a explorar o mundo como recém-solteiros. Mas os resultados não acontecerão da forma como esperavam.

Eles fazem durante três anos uma espécie de jornada de autodescoberta que cria um arco de acontecimentos que é até óbvio desde o início: as desventuras amorosas muitas vezes bizarras e engraçadas de cada um fora do casamento parece que irá estreitá-los de forma lenta e gradual.

Ela, uma pesquisadora qualitativa de Marketing, e ele professor universitário, são sofisticados suficientes para terem dado ao filho único régua e compasso para ser livre e ganhar o mundo. Mas, e eles? Ficaram com o quê?

É quando o tema óbvio da síndrome do ninho vazio desemboca na crise do elo geracional: na contemporaneidade, aos pais foi esvaziada a função de transmissão do saber e conhecimento. Apenas devem dar a “régua e compasso” (e, se possível, recursos financeiros) que dê filho a possibilidade de sair de casa.

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Certamente esse “ninho vazio” sempre existiu, porém a crise do elo geracional amplificou-o ao ponto de se tornar uma fonte de angústia existencial.

Como Sartre já colocou, essa angústia tem a ver com a própria condição humana – a não existência de nenhum Deus criador (e, portanto, a inexistência de qualquer natureza humana fixa que o homem deva respeitar) dá ao homem uma inesperada liberdade, mas também a responsabilidade pelos próprios atos. Essa é a fonte da angústia ontológica humana.

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