O primeiro filme falado do cinema

Enviado por Jota A. Botelho

Comentários sobre o post de Laura Macedo: O cinema falado nasceu cantando


Multidão na porta do cinema, na estreia de O Cantor de Jazz

1927, Estreia O Primeiro Filme Falado

https://www.youtube.com/watch?v=5oaJfgt-0RY align:center]

A sétima arte nunca esteve tão moderna. Hoje em dia existem salas de exibição com tecnologia 4D – isso mesmo, não basta mais assistir em três dimensões, o espectador agora pode ter a sensação de estar dentro do filme, com direito a fumaça, movimento, chuva e até cheiro. Quem olha assim – sobretudo os mais jovens – nem se dá conta de que em um passado não tão distante o cinema se resumia a imagens em movimento – sem som e muito menos qualidade de imagem HD.

Pois há quase 88 anos o mundo entrava em êxtase com a integração de algo que hoje é tão simples e imprescindível: o som. Foi o início de uma nova era, a do cinema falado. Aconteceu no dia 6 de outubro de 1927 com a exibição de “O Cantor de Jazz” (The Jazz Singer), de Alan Crosland, em Nova York. O filme foi o primeiro a ter passagens faladas e cantadas e a usar um sistema sonoro eficaz, conhecido como Vitaphone, lançado um ano antes, em 1926, pela Warner Bros.


Pôsteres do filme

O longa não era completamente falado – trazia ainda cenas mudas –, mas era possível ouvir perfeitamente a voz do protagonista nas cenas com som do famoso cantor de jazz da época, Al Jolson, assim como da banda que o acompanhava. O filme contava a história de um garoto judeu que queria ser cantor, mas enfrentava a oposição da família.

A voz de Jolson ecoando pela sala de exibição encantou plateias de todo o mundo e fez tanto sucesso que ajudou a salvar a Warner da falência. A experiência pioneira, entretanto, ainda tinha uma técnica de som precária, mas foi essencial para impulsionar a transição do cinema mudo para o sonoro.

“O Cantor de Jazz” foi indicado ao Oscar por melhor roteiro adaptado, mas levou apenas uma estatueta especial pelo pioneirismo na produção de filme falado. Há quem diga que ele não levou o prêmio de melhor filme porque os produtores dos outros estúdios alegavam que era concorrência desleal com os filmes mudos.

Veja a nossa galeria de fotos do primeiro filme falado do cinema:


Cenas de Al Jolson, o astro principal de O Cantor de Jazz

Revolução

A chegada do som aos cinemas norte-americanos revolucionou a produção cinematográfica mundial. Em 1929, dois anos após o lançamento de “O Cantor de Jazz”, o cinema falado já representava 51% da produção dos Estados Unidos.

A década seguinte, 1930, permitiu a consolidação dos grandes estúdios e consagrou astros e estrelas em Hollywood. Houve uma multiplicação dos gêneros, como western, os filmes de gângster e o musical, que ganhou bastante destaque.

A inserção do som foi tão importante e contou com a adesão de tantos estúdios que acabou reformulando os fundamentos da linguagem cinematográfica. Essa reestruturação pela qual passou o cinema deu impulso para o aumento e o fortalecimento da indústria cinematográfica. No entanto, nem tudo são flores. E teve gente, muito relevante, por sinal, que resistiu às mudanças. Sem contar que muitos atores, roteiristas e diretores sentiram dificuldades em se adaptar e perderam espaço nesse novo modelo, que veio para ficar.

O filme vencedor do Oscar 2012, “O Artista”, aborda justamente esse período de transição entre o cinema mudo e o falado. O protagonista George Valentin (Jean Dujardin), estrela absoluta do cinema mudo, resiste à super novidade dos filmes falados (ou melhor, cantados) e vê seu estrelato ameaçado pelo novo sistema. E, como a vida imita a arte e vice-versa, tivemos grandes diretores, como Charles Chaplin e René Clair, que também resistiram à nova tecnologia, mas acabaram aderindo posteriormente. Chaplin acreditava que seu personagem mais popular, o Carlitos, só teria sucesso com a pantomima, arte de narrar com o corpo. O diretor Serguei Eisenstein chegou a escrever o “Manifesto do Som”, em que argumenta contra a implementação da técnica.

Apesar da oposição de grandes nomes e da derrocada de muitas estrelas dos filmes mudos, o cinema falado trouxe fôlego aos estúdios, deixando-os afastados da recessão que assolou o mundo em 1929 com a queda da bolsa de Nova York.

Silêncio?

O cinema falado só surgiu em 1926, mas o som nos cinemas já existia desde o final do século 19. Como forma de atrair e seduzir o público e completar a experiência visual oferecida pelas imagens, as exibições eram acompanhadas por músicos contratados para tocar durante a sessão e dar ambiência ao filme. Cada exibição, portanto, era única. Aos poucos, a figura do narrador também foi sendo incorporada e ele tinha um papel importante em explicar certos acontecimentos.
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Créditos e Fontes (e algumas adaptações): por Davi de Castro/Portal EBC
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Trecho e o Filme O CANTOR DE JAZZ (1927)

https://www.youtube.com/watch?v=PIaj7FNHnjQ align:center]

https://vimeo.com/128671098 align:centerCopyright©Todos os Direitos Resevados/Somente para efeito de divulgação (considerado também de domínio público)
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O PRIMEIRO FILME SONORO BRASILEIRO


O primeiro filme sonoro brasileiro é a comédia “Acabaram-se os Otários” (1929), de Luiz de Barros, realizado pela Companhia Sincrocinex.

O MAIOR ACONTECIMENTO CINEMATOGRAPHICO DE 1929!, dizia o anúncio publicado no Estadão em 1º de setembro.

E não era para menos. Afinal, o primeiro filme sonoro brasileiro estrearia em São Paulo no dia seguinte.

“Acabaram-se os Otários” estreou em 2 de setembro de 1929, no cinema Santa Helena, com recorde de bilheteria. Ficou em cartaz por 52 dias e depois transitou por outras salas da capital paulista, até sair de cena, em 28 de fevereiro de 1930. Também foi exibido no Rio de Janeiro, onde debutou em 26 de setembro.

Com direção e roteiro de Luiz de Barros, o longa-metragem tem trama baseada em livro de Menotti del Picchia. Conta a história de dois caipiras e um colono italiano recém-chegados em São Paulo, que acreditam ter comprado um bonde, mas são depenados por gatunos e malandros da grande cidade, acabam sem dinheiro e precisam retornar ao interior paulista.

O filme que entrou para a história do Brasil traz cenas faladas e cantadas em português, com modinhas, piadas e trocadilhos. A trilha sonora é composta por canções como ‘Bem-te-vi’ e ‘Sou do sertão’, do compositor Paraguassu, e ‘Carinhoso’, de Pixinguinha, além do samba de Osvaldo Gogliano (Vadico), ‘Deixei de ser otário’.  E  teve ótima recepção de público, que lotou as salas paulistanas nos meses de exibição, mas recebeu críticas negativas de parte da imprensa da época. Octávio de Faria, por exemplo, escreveu no Jornal O Fan, especializado em cinema: “É incrível de patetice, de idiotices, de abobalhamento”.

Já a Revista Fon-Fon, do Rio, reconheceu que o longa tinha enredo pobre e que retratava a vida paulistana, mas teceu elogios às canções: “O enredo vale pouco, já o dissemos, mas as canções, caracteristicamente nacionais, encantaram o numeroso público que viu o film”.

A trilha, aliás, conta com músicas famosas do cancioneiro brasileiro, como “Bem te vi” e “Sol do sertão”, do compositor Paraguaçu, além de “Carinhoso”, do mestre Pixinguinha.

A técnica utilizada

Para produzir o primeiro filme sonoro do país, Luiz de Barros utilizou a técnica do playback, gravando previamente os diálogos em discos, que depois eram reproduzidos nos cinemas.

O Diretor


Luiz de Barros

Além de diretor de cinema, Luiz de Barros foi produtor cinematográfico, montador cinematográfico, roteirista, diretor de fotografia e ator brasileiro. Estudou Direito no Brasil e artes plásticas na Europa, fazendo estágio no Gaumont – companhia francesa de produção cinematográfica. Ele dirigiu cerca de 80 filmes, entre 1914 e 1980.

Primeiro do mundo

O primeiro filme sonoro do mundo foi “O Cantor de Jazz” (The Jazz Singer), de Alan Crosland, em Nova Iorque. A estreia aconteceu em 06 de outubro de 1927, com passagens faladas e cantadas. O filme contava a história de um garoto judeu que queria ser cantor, mas enfrentava a oposição da família. “Acabaram-se os Otários” era apresentado como “um filme brasileiro cantado e falado em português, electro-gravado magistralmente em disco sem chiado”. O filme é resultado de uma aposta que o diretor Luiz de Barros foi obrigado a pagar. Lulu, como era conhecido no meio artístico, apostou que conseguiria fazer o primeiro filme falado brasileiro. E conseguiu. De maneira bem precária, mas eficiente. Com a estreia do filme, foi decretado o fim do cinema mudo no Brasil. Para se ter uma ideia da ousadia e grandiosidade da proeza de Lulu, o filme brasileiro estreou em menos de dois anos após o “O Canto de Jazz” (1927). O Brasil saiu na frente de grandes potências da época, como Itália (1930), Japão (1931), Argentina (1933), México (1931) e Índia (1931), países com uma extensa tradição cinematográfica.


Fotos e Cartazes: Genésio Arruda (O Cruzeiro/Arquivo Nirez) no filme Acabaram-se os Otários (1929) e Amácio Mazzaropi em seu primeiro filme Sai da Frente (1952)

“Acabaram-se os Otários” foi a grande inspiração para Mazzaropi, o mais ilustre caipira da história do Cinema Brasileiro.

Trechos do filme SAI DA FRENTE (1952)
O primeiro filme de Amácio Mazzaropi que, segundo o próprio, teria sido influenciado por Genésio Arruda (e seu irmão Sebastião) que fazia sucesso nos palcos paulistanos interpretando “o caipira”, cujo personagem o levaria a fazer o mesmo.

[video:https://www.youtube.com/watch?v=BM5slX0BJzk align:center

Veja o trecho e canções do filme “ACABARAM-SE OS OTÁRIOS”:

Trecho do primeiro filme sonoro brasileiro “Acabaram-se os Otários”, realizado pelo Canal Memória, que utilizou como fundo musical a canção ‘Deixei de ser Otário’ (1929), de Osvaldo Gogliano (Vadico), cantada pelo próprio Genésio Arruda e que também foi usada como trilha sonora do filme, como as canções acrescentadas aqui, ‘Bem-te-vi’ (1929), com interpretação do próprio compositor Paraguassu, e ‘Carinhoso’ (1928), de Pixinguinha, com interpretação da Orquestra Típica Pixinguinha & Donga. Esta obra-prima foi composto em 1917 e gravada em 1928, sendo ocultada pelo Mestre Pixinguinha durante muitos anos, por ser considerada, à época, ‘jazzificado’. Tomaram parte nesta cena, a dupla de protagonistas do filme, os cômicos Genésio Arruda e Tom Bill. Por se tratar de um primitivo e precário sistema de sonorização, o áudio do filme não existe mais. O processo era feito através da gravação das falas e das músicas por meio de discos e, posteriormente, na exibição do filme, era feita a sincronização da imagem e do som. O sistema foi uma invenção do próprio diretor Luiz de Barros.

[video:https://www.youtube.com/watch?v=oMPiBxH7btU align:center
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Créditos e Fontes (e algumas adaptações):
# por Fernando Figueiredo Mello/Efemérides do Éfemello 
# por Fátima Pires/Rank Brasil – Recordes Brasileiros 
# Wikipédia – Acabaram-se os Otários 
# Acervo Estadão 
# Socine.org.br  
Museu Mazzaropi – Sai da Frente 
Luiz de Barros – Um diretor de mais de 80 filmes 
Wikipédia – O Cantor de Jazz 

FilmSite – The Jazz Singer (1927)
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2 comentários

  1. Post Fantástico!

    Amigo Botelho,

    Só agora cheguei ao LNO e tive a grata surpresa do seu fantástico post. Curtir cada palavra do texto, os vídeos (especialmente os da sua lavra), as fotos… e as fontes pesquisadas (marretei todas rsrsrsrs). Eu batizaria de um “Post histórico”.

    Que baita time de compositores participaram do filme “Acabaram-se os Otários”: Vadico, Paraguassu e o grande Pixinguinha com “Carinhoso”. E ele ainda ficava constrangido de executá-la por ser considerada “jazzificada”.

    Se fosse fazer uma análise crítica do post ficaria sem saber o que dizer, ou seja, não teria nada à acrescentar e nem à cortar. Resumindo: Nota 10.

    Grande abraço.

    Ah! Esqueci dos aplausos…….

     

     

     

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