“O que caracteriza o golpe é a ruptura nas normas republicanas”, diz diretor de filme sobre impeachment

Guilherme Castro, cineasta, professor e um dos idealizadores do documentário GOLPE | Fotos: Joana Berwanger/Sul21

Por Fernanda Canofre

No Sul 21

Fernanda Canofre

O que possibilitou que o impeachment de Dilma Rousseff (PT), a primeira mulher presidente do Brasil, fosse efetivado em 2016? Quando e por que o governo começou a cair? As mesmas pedaladas teriam servido de justificativa caso a presidente fosse de outro partido? Como o Judiciário atuou no processo? E a influência da mídia no debate político dos últimos anos? Essas são algumas das questões levantadas pelo documentário “GOLPE”, co-dirigido e co-produzido pelos realizadores gaúchos, Guilherme Castro e Luiz Alberto Cassol.

O filme abre com uma tela preta e a marcação de três momentos pontuais dos últimos quatro anos de vida política no Brasil. Primeiro, a reeleição de Dilma, em 2014, derrotando o candidato do PSDB, Aécio Neves. Depois, o impeachment que deu o governo para o vice, Michel Temer (PMDB). Por fim, a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em abril de 2018, favorito nas pesquisas para as eleições de outubro.

Para tentar analisar tudo o que aconteceu entre esses momentos, os diretores reuniram entrevistados ligados a movimentos sindicalistas, intelectuais, movimentos sociais, figuras da política institucional, da imprensa gaúcha e artistas para analisar o cenário da queda de Dilma. Entre eles estão nomes como Benedito Tadeu César, Bruno Lima Rocha, Celi Pinto, Claudir Nespolo, Gleidson Renato Martins Dias, Juremir Machado da Silva, Kátia Azambuja, Mario Madureira, Matheus Gomes, Miguel Rossetto, Moisés Mendes, Néstor Monasterio, Priscila Voigt Severiano, Tarso Genro, Vanessa Aguiar Borges e Zoravia Bettiol.

O filme está previsto para entrar em circuito comercial na metade de agosto, no Cine Bancários, de Porto Alegre. Encontrar uma sala para exibição, porém, suscitou outra pauta que Castro espera repercutir nos debates durante as exibições. Ele diz que em todas as salas públicas que tentou colocar “GOLPE”, ouviu não. A justificativa seria por ser um “filme político”.

Esta semana, os diretores convidaram a imprensa para uma exibição exclusiva do filme. Guilherme Castro, que é cineasta e professor de Jornalismo na Ulbra, conversou com o Sul21 sobre as circunstâncias que o levaram a criar o documentário e por que ele acha que foi golpe:

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Sul21: Como surgiu a ideia para o filme?

Guilherme Castro: A ideia do filme é, exatamente, nossa perspectiva de engajamento contra o golpe. A gente que é cineasta, a primeira coisa que pensa é fazer um filme do que está acontecendo. É meio consequência direta das duas coisas. Tivemos uma primeira iniciativa de filmar o processo do golpe, que foi suspensa por um tempo. Até que, durante uma reunião de cineastas em Oberá, na Argentina, decidimos fazer um filme que iria narrar o processo político do que estava acontecendo com os nossos países naquele momento. O conceito de trabalho desse Foro Entre Fronteras é muito colaborativo, então, seguimos fazendo o trabalho aqui, eu e o Luís Cassol, que é co-produtor e co-diretor, porque achamos que é possível ter um discurso nacional a partir do lugar onde tu estás inserido. Os entrevistados, a gente quis fugir de quem todo mundo fala o tempo inteiro. Se você observar, o conjunto é bem diversificado e não tem um discurso único. Não é o que nós pensamos, necessariamente. São pessoas que a gente achou que poderiam dar diferentes visões e pontos de vista, desse processo super complexo. Tanto pessoas ligadas a movimentos sociais, quanto intelectuais. O filme tem uma hora e dez minutos de duração, então, é uma síntese, um recorte, um olhar que tu estabelece daquele momento. E está sempre vivo e sempre dinâmico. Se a gente fosse fazê-lo, neste momento, seria outro filme.

Sul21: Teve entrevistados que gostarias de ter incluído e não foi possível?

Guilherme: Claro, porque esse filme é aberto. Durante o filme estava acontecendo o impeachment, durante o filme o Lula estava sendo preso. A gente vai sempre aumentando a perspectiva. Teve entrevistados que não foram possíveis, que a gente pensou que poderiam nos dar outra visão. Eu posso citar a Manuela [D’Ávila, deputada estadual pelo PCdoB], que eu não consegui entrevistar, mas posso citar outros também. É possível estabelecer um discurso suficientemente claro, com o jeito de fazer o filme que é uma passagem rápida de assuntos. O filme não avisa que trocou de assunto, ele vai indo num fluxo, que é uma linguagem que eu tenho experimentado nos meus filmes, já faz um tempo. Cinema é montagem.

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Sul21: No início do filme, aparecem três datas: a reeleição de Dilma Rousseff (PT), em 2014, o impeachment dela, em 2016 e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sendo preso, em 2018. Como vocês optaram por este arco?

Guilherme: Eu tinha que dar uma delimitação mínima para que tenha essa coerência, que era possível explicar a partir dali. Porque as coisas estão em acontecimento.

Sul21: O filme tem algumas imagens da greve dos caminhoneiros, que aconteceu em maio.

Guilherme: Porque estava acontecendo. A gente foi até o último momento incluindo, tentando deixar o mais atual possível, porque num filme histórico, tu tem uma perspectiva, consegue separar, está olhando 20 anos atrás, tem um conjunto de materiais produzidos que pode pesquisar. O filme que está sendo feito quando está acontecendo é bem diferente. Ele tem que ter um recorte, a gente está inserido num contexto. Na verdade, a gente vai até 2013. Para mim, já estava muito claro, e para muitas pessoas com quem a gente discute, que seria difícil ela se eleger em 2014.

Sul21: Alguma entrevista te surpreendeu ou influenciou a narrativa do filme?

Guilherme: Sim, com certeza, ele é bem diversificado, tem artistas, dramaturgos, visões de pessoas que estão inseridas militando. Tem uma coisa que me surpreendeu muito. O Claudir [Nespolo], o cara da CUT, [porque] eu vejo que a gente está com vergonha dos nossos símbolos, das nossas cores, e ele aparece com a camiseta da CUT. A gente teve muito orgulho quando foi fundada a CUT, em 1984. É um articulado, trabalhador, com uma visão importante de mundo, e diz: é muito raro me convidarem para um debate, para dar uma entrevista, quando muito a CNBB. Eu percebia que mesmo as reuniões de esquerda que eu estava participando, de resistência ao golpe, nunca chamavam o trabalhador para discutir, era sempre mesa de intelectuais. Isso me chamou a atenção. Isso a gente está fazendo, dar a voz, num filme, para segmentos fundamentais, importantíssimos, com visões importantes que qualificam o debate e não tem espaço nem na esquerda.

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Sul21: Tu falaste antes sobre tua militância na época da ditadura e os paralelos com a época atual.

Guilherme: Quem militou contra a ditadura, percebeu com mais facilidade quando o fascismo retoma. Voltando ao tempo da ditadura, ela meio que recuou, concedeu, tanto que houve anistia, abertura lenta e gradual. Quando volta uma onda de fascismo, meio que volta à memória da gente ele sendo usado como ferramenta para manutenção do status quo. Para mim, quando começa o golpe de 2016, que assim como outros eu comecei a perceber em 2013, vem direto à memória do fim da ditadura, de que estava recuando o fascismo. Minha militância, basicamente, é no audiovisual e na cultura, como cineasta, professor e pesquisador. Esse ano estou fazendo 30 anos do meu primeiro documentário.

Sul21: Falaste no cinema como ferramenta política. O filme está previsto para entrar em circuito comercial quando começa a época da campanha eleitoral. Como acha que essas duas questões podem se influenciar?

Guilherme: Tem campanha a cada dois anos, essa campanha é super complexa, muito diferente. Eu acho super legal se puder aumentar o debate, porque o jogo da campanha política, nós temos que perceber que estamos diante de um golpe. É muito especial essa campanha, eu não faria esse filme em outro momento. Esse filme é o filme do golpe e a campanha é um momento do golpe. Quando eu entrevistei o [Miguel] Rosetto (PT) ele não era candidato, nem o Claudir [Nespolo, PT], nem o Matheus [Gomes, PSOL], muito menos o Moisés Mendes (PT). Mas a eleição é uma circunstância, agora estamos nela e não tenho como controlar o tempo do filme. O desafio dele é chegar em circuito comercial, porque nele quem manda são os proprietários dos cinemas. Em Porto Alegre, o circuito público está sendo censurado porque não tem como passar um filme político de esquerda hoje num lugar como o Capitólio ou a Casa de Cultura Mário Quintana.

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