Vice, por Fernando Nogueira da Costa

Vice

Fernando Nogueira da Costa

Uma resenha do filme “Vice” (concorrente a 8 prêmios Oscar, inclusive como melhor filme e melhor ator principal) da Folha de S.Paulo critica o diretor Adam McKay (“A Grande Aposta” em 2015) porque ele teria ficado “obcecado em desancar a direita americana, valendo-se de certa estridência e, não raro, de algum maniqueísmo”.

Ora, ora, ora, os fatos ainda estão na memória recente. Caberia ao crítico apenas dizer se foram falseados ou não nesse filme interpretativo de fatos reais. Dick Cheney foi o 46º vice-presidente dos Estados Unidos durante o governo George W. Bush, filho de ex-presidente, de janeiro de 2001 a janeiro de 2009. Ele foi a figura-chave na imperial política externa americana no período.

A partir de mentiras, aproveitando-se do clima de comoção pelo ataque às “duas torres gêmeas”, em NYC, estimulou uma “Guerra ao Terror” contra o Iraque. O impacto nas cotações do petróleo era favorável aos seus apoiadores. Elaborou os falsos argumentos sobre uma pressuposta conexão entre o regime de Saddam Hussein e a Al-Qaeda, assim como a existência de armas de destruição em massa no Iraque.

Desde 11 de setembro de 2001, os EUA tentaram impor essa estratégia de vingança ao resto do mundo, mas só conseguiu apoio do submisso primeiro-ministro inglês Tony Blair. Em março de 2003, ele decidiu em conjunto com o presidente norte-americano George W. Bush atacar o Iraque. Enviou tropas britânicas, conjuntamente com os militares norte-americanos, para depor Saddam Hussein.

O filme mostra filmes e fotos da época das invasões do Afeganistão e do Iraque, mostrando o bombardeio indiscriminado a civis, assim como a tortura humilhante de suspeitos na base de Guantánamo. Cheney aprovou e defendeu tal política.

Desde janeiro de 2002, permanceram encarcerados nesta base militar prisioneiros – meros suspeitos afegãos e iraquianos – acusados de ligação aos grupos Taliban e Al-Qaeda. Passaram por Guantánamo 775 prisioneiros sem acusação formada, sem processo constituído e, portanto, sem direito a julgamento.  É uma área excluída do controle internacional quanto às condições de detenção. Segundo a Cruz Vermelha, estes prisioneiros são vítimas de tortura, em desrespeito aos direitos humanos e à convenção de Genebra.

O filme merece ser visto não só pela extraordinária atuação de Christian Bale e Amy Adams, ambos transfigurados por maquiagem para envelhecimento e enchimento, além de terem engordado muito para representarem o casal de conservadores norte-americanos do Estado de Wyoming. Sua esposa, a escritora-historiadora conservadora, Lynne Cheney, o “endireita” em razão principal de busca de mobilidade social na política norte-americana. O ponto de flexão em seus valores se dá quando uma filha revela ser gay. Não adotam a homofobia até a campanha eleitoral da outra filha impor o pragmatismo ao clã político, repelindo publicamente o casamento gay.

O Partido Republicano nasceu progressista como um partido oposto à expansão da escravatura nos novos territórios. Inspirou-se no republicanismo dominante durante a Revolução Americana (1775- 1783): Guerra de Independência contra a Inglaterra. Foi fundado por abolicionistas, modernistas, ex-Whigs e ex-Soilers livres em 1854.

Os republicanos dominaram a política nacional dos EUA através de maioria nos estados do Norte durante a maior parte do período entre 1860 e 1932. Houve 19 presidentes republicanos, sendo o primeiro Abraham Lincoln (1861-1865). Durante a Guerra Civil, quando saiu vitorioso contra o Sul escravista. O mais recente é o bilionário conservador e mentiroso, Donald Trump, após vencer as eleições de 2016. Colocou os republicanos de volta na presidência depois de oito anos do presidente democrata Barack Obama.

Para entender como dois caipiras alcoólatras, como Bush e Cheney, ascendem ao Poder Executivo norte-americano entre 2001-2008, vale conhecer brevemente todas as tendências do Partido Republicano. Nos Estados Unidos, praticamente, domina um sistema bipartidário, diferentemente da imensa fragmentação partidária brasileira.

A plataforma do Partido Republicano tem como base fundamental o conservadorismo norte-americano. Ao contrário, os membros do Partido Democrata defendem políticas liberais no sentido usado nos EUA para descrever os defensores de políticas intervencionistas voltadas à socialdemocracia ou ao liberalismo social em costumes.

O liberalismo clássico-conservador é defendido pelos republicanos Sua plataforma envolve o apoio ao capitalismo de livre mercado, à livre iniciativa, ao conservadorismo fiscal, a uma forte defesa nacional, desregulamentação e restrições aos sindicatos. Além de defender essas políticas econômicas neoliberais, o Partido Republicano é socialmente conservador ao defender a manutenção de valores tradicionais, baseados principalmente na ética judaico-cristã, em particular, do evangelismo pentecostal.

Antes, desde a sua fundação até a década de 1930, estava fortemente comprometido com o protecionismo e as tarifas, quando se baseava no Nordeste industrial e no Centro-Oeste. Após 1952, houve uma reversão contra o protecionismo. O apoio central do partido, a partir do governo neoliberal de Ronald Reagan, vem principalmente do Sul, das Grandes Planícies, dos Estados de Montanha e dos distritos rurais do Norte.

Eleitores com esse perfil conservador se concentram em estados do Sul, como Geórgia, Carolina do Sul, Carolina do Norte, Alabama, Mississipi, Louisiana, Kentucky, Tennessee, Virgínia (região conhecida como Bible Belt ou “Cinturão da Bíblia”), no Meio-Oeste em estados como o Texas, Virgínia Ocidental, Missouri, Kansas, Arkansas, Iowa, Nebraska, Dakota do Sul e Dakota do Norte, e Oeste do país em estados como Utah, Arizona, Wyoming, Idaho, Montana e Colorado.

Segundo o Wikipedia, o partido está dividido em diversas facções: direita cristã, composta por eleitores protestantes, católicos conservadores, judeus ortodoxos e mórmons, contra o aborto, casamento gay, pesquisas em célula-tronco e eutanásia; conservadores sociais: como a direita religiosa, são defensores dos valores morais e da família tradicional, mas não são necessariamente religiosos, agem independentemente de suas comunidades religiosas ou de seus líderes religiosos – os ex-presidentes Ronald Reagan, George H. W. Bush e George W. Bush são desta ala; conservadores fiscais: defendem o direito a propriedade privada, o Estado-mínimo, a redução ou o corte de impostos, privatizações e o fim de programas sociais, mas são favoráveis ao porte legal de armas, além de serem defensores dos princípios moralistas familiares; neoconservadores: defensores da política intervencionista do governo norte-americano, com ações militares em vários países onde os interesses dos EUA estejam ameaçados – o ex-vice-presidente Dick Cheney e o ex-secretário de Defesa Donald Rumsfeld são os maiores expoentes dessa ala; libertários: opõem-se a gastos sociais do governo, são favoráveis à redução de impostos e à privatizações, ou seja são favoráveis à política do Estado-mínimo e também são defensores das liberdades individuais, diferentemente dos conservadores sociais e das direitas religiosa do partido; moderados: políticos e eleitores sem tanta preocupação com questões religiosas, defendem o fim da pena de morte, o fim do porte legal de armas, legalização da maconha, as pesquisas em células-tronco, e defendem alguns programas sociais; liberais: na década de 1930, apoiaram as políticas liberais do então presidente Franklin Roosevelt do Partido Democrata, tomadas para recuperar a economia após a Crise de 1929, também apoiam a existência de um Estado maior e participativo na economia, a existência de programas sociais, o aumento de alguns impostos e são mais tolerantes às causas sociais, como casamento gay, aborto, controle de armas, toleram os imigrantes ilegais, opõem à pena de morte, não são religiosos, encontram-se nos estados do Nordeste, principalmente em Nova York.

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Tempo e lugar são duas dimensões físicas limitadoras da transposição automática das experiências vivenciadas na década passada nos Estados Unidos para o Brasil de hoje. Aliás, suspeito do pensamento marxista “a história se repete: a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”, talvez pela contradição com a ideia “de te fabula narratur”: o futuro dos países de capitalismo tardio estaria espelhado no presente do capitalismo avançado. O Brasil visto no espelho parece uma caricatura grotesca do ocorrido no passado dos Estados Unidos! Agora, a casta dos militares brasileiros fala em até em acabar com as reservas indígenas e exterminar os nativos restantes do genocídio histórico! Invadirá a Venezuela?! Abrirá embaixada em Jerusalém?! Tal pai, tal filho…

O filme Vice permite aos brasileiros mais cultos e lúcidos refletirem sobre alguns acontecimentos recentes no País. Como um acordo entre um presidente-capitão despreparado e um vice-general, com maior apoio nas Forças Armadas, poderá transformar aquele em um fantoche voluntário. Um running mate é termo em inglês para designa uma pessoa empossada em um cargo político por ser subordinado a outro em uma eleição conjunta. Dick Cheney, oriundo da sabida casta dos oligarcas governantes norte-americanos, era running mate de George W. Bush – e o dominava.

O nepotismo dos clãs políticos dinásticos, a tortura oficiosa, a criação de canais conservadores de TV (Fox News lá, Record e SBT aqui), o conflito entre esnobismo e anti-intelectualismo, as brigas internas entre facções da direita (lá o Movimento Tea Party, aqui as cópias tupiniquins MBL, Vem Pra Rua, Instituto Von Mises, Millenium, Endireita Brasil, etc.), o dinheiro dos irmãos Koch direcionados para esses movimentos conservadores, entre outros pontos em comum, se encontram no filme. Lá a “guerra cultural” cinematográfica está em vigor. Veja e reflita sobre o que fazer aqui.

Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Autor de “Métodos de Análise Econômica” (Editora Contexto; 2018). http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: fernandonogueiracosta@gmail.com.  
 

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