O duro desafio de ser otimista com o emprego, por Luis Nassif

Segundo a Folha, a taxa de desemprego subiu de 13,8% para 14,3% - a maior para o período -, mas a mediana das previsões do mercado apontava para 14,7%.

Foto: José Cruz/Agência Brasil

Em 2014, a taxa de desemprego foi a mais baixa da série histórica. Mas editoriais e manchetes de jornais minimizavam, devido à campanha cerrada pré-impeachment. Agora, os dados de emprego da PNAD (Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios Contínua) apontam dados contristadores sobre a recuperação do emprego. Mas há uma necessidade premente de gerar otimismo.

Assim, as análises mostram que os dados são ruins, mas melhores do que as previsões do mercado. Equivale a mais ou menos o seguinte: o paciente morreu de pneumonia, mas não de tuberculose. É a natureza da manchete de hoje da Folha.

Sazonalmente, sempre há uma melhora relativa do emprego no período agosto-outubro, em relação ao trimestre julho-setembro, para atender à demanda de final de ano.

Este ano, a taxa de desocupação caiu de 21% no trimestre julho-setembro para 20,9% no trimestre agosto-outubro. Pode parecer pouco, mas é pouco mesmo.

No mesmo período do ano passado, a taxa de desocupação caiu de 18,4 para 18,2. Em 2018, de 18,4 para 18,3.

Mas, alvíssaras!, segundo o jornal, a taxa de desemprego subiu de 13,8% para 14,3% – a maior para o período -, mas a mediana das previsões do mercado apontava para 14,7%.

Objetivamente falando:

  1. No trimestre encerrado em outubro, em relação ao trimestre encerrado em setembro, a população desocupada diminuiu 31 mil pessoas. Isso representa 0,22% de redução do desemprego. 14 milhões de pessoas continuam desempregadas.
  2. A população ocupada aumentou 1,8 milhão, ou 2,1% sobre o total de 84,3 milhões de pessoas ocupadas.

Compare, agora, com o trimestre nov 2019-jan 2020, o último antes da pandemia.

  1. A população desocupada aumentou 2,1 milhões de pessoas.
  2. A população fora da força de trabalho aumentou 11,4 milhões.
  3. Desocupados + fora da força de trabalho aumentaram 13,6 milhões.

Vamos a um jogo de estatísticas, para se perceber o tamanho da crise.

Aqui se tem a variação de empregos por setores no trimestre ago-out em relação a maio-julho,

Aqui, em relação ao mesmo período do ano passado.

O próximo gráfico mostra os Desalentados na Força de Trabalho, ou seja, pessoas disponíveis para o trabalho mas que não conseguem emprego.

Em relação ao mesmo período do ano passado, há uma redução de 9,7 milhões de empregos, sem contar as 4,3 milhões de pessoas a mais na População Economicamente Ativa, jovens em idade de trabalho.

Em relação ao mesmo período do ano passado, houve redução do emprego em todos os setores analisados. Houve manutenção de emprego apenas na agricultura e na administração pública.

Por tudo isso, não há motivos para forçar o otimismo.

O cenário para 2021 continua sendo de uma economia fustigada pela Covid-19, sem reação no mercado de trabalho, sem reação na capacidade de endividamento das famílias, com as empresas enfrentando forte aumento de custo, um IGP-M superando os 20%. E, a partir deste mês, o fim do auxílio emergencial e um Ministro da Economia sem a menor noção sobre os fatores que impulsionam a economia.

Guedes corta os gastos, para manter o equilíbrio fiscal. Equilibrio fiscal é a relaçào entre receita menos despesa. Com a queda das despesas, há uma queda adicional nas receitas fiscais, que os especialistas estão chamando de “brutal”. E vai ser assim, até que a economia acordo o país do pesadelo Bolsonaro-Guedes.

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5 comentários

  1. Uma piada da época da guerra fria para quem não conhece: Kruschev visitou Kennedy nos EUA. O cerimonial programou uma corrida de obstáculos entre os dois, vencida por Kennedy, sem surpresa, muito mais jovem. O Pravda noticiou: O resultado da corrida de obstáculos entre Kruschev e Kennedy foi amplamente favorável a URSS. Nosso invencível primeiro ministro conquistou um brilhante segundo lugar enquanto Kennedy apenas o penúltimo. É a Folha emulando a Rússia Soviética.

  2. As fortunas estão sendo garantidas, e a repressão está sendo equipada. Ninguém se iluda, isso é um PRO-JE-TO, com uma ideologia própria e agentes motivados em busca de legitimação

  3. Nassif, essa é a análise a ser feita. Ficar torturando números, como o faz a imprensa mainstream, arauto do capital financeiro para esconder a realidade, não resiste à força dos fatos. Ao número de desempregados e desalentados e ao número daqueles que estão fora da força de trabalho compulsoriamente por serem jovens demais, velhos demais, qualificados de menos ou qualificados demais, acrescente os semi ocupados, aqueles que trabalham muito menos do que poderiam ou gostariam. Nessa conta o número – estimado, dada a futulidade de se calcular o dado preciso – passa de 32 milhões de pessoas. Além de ser uma medida do desarranjo social e econômico, esse número traduz a perda de produtividade, imensa em todos os seus aspectos, e que é mais um tijolo amarrado no pé do desenvolvimento nacional.
    Por curiosidade fui atrás da expectativa que os ditos líderes empresariais extraem da atual conjuntura para traçar o cenário para 2021. O encontrado é risível, senão trágico. Eu não sei o que esse pessoal lê, como se informa. Só posso concluir – extraída aquela parcela de siderados, presente em todos os extratos sociais – que o problema deve estar na fonte em bebem ou naquilo que fumam. Seja o que for está na lista do proibido ou controlado.
    Seria de imaginar que a esta altura tal fenômeno – que por falta de nome melhor chamo de esquizofrenia cognitiva – já houvesse encontrado cura. Ledo engano, está mais forte do que nunca. Guedes não está só em seus devaneios, conta com uma legião de guedesianos a segui-lo. Tudo se resolverá com privatizações, redução de impostos e o liberar geral. Entramos na era do laissez faire, laissez passer et laisser baiser avec tout le monde, sauf moi, c’est claire.
    Isso tem feito me lembrar de Hemingway quando disse algo como: o mundo quebra a todos e ao fim o que teremos serão homens inquebrantáveis em lugares quebrados.
    Faz quatro anos e meio que ouvimos promessas de que no ano que vem… e nada. O que oferecem é o pote de ouro no fim do arco iris. Incrível é como há quem ainda acredite.
    O cenário, visto de agora, é de uma obviedade ululante. Teremos no curto prazo mais recessão, mais desemprego, menos investimento e aumentaremos o fosso que nos separa da possibilidade de retomarmos o crescimento. E no longo prazo? Bem, lá, como já disse alguém, de quem não recordo, no longo prazo estaremos todos mortos.
    E, por último, reforçando o argumento de que não é rocket science e muito menos quiromancia saber o que nos espera no ano vindouro, deixo abaixo o link para um pequeno texto, intitulado Brasil, ecos de de 2016, perspectivas para 2017 e a confiança empresarial, publicado em fevereiro de 2017. Trata sobre o que viria pela frente. Relendo-o, constatei sua total, completa e absoluta atualidade. Para datá-lo hoje bastaria atualizar os números que traz.
    É tudo muito simples, observemos o velho bordão que diz que se você repete os mesmos atos esperando resultados diferentes ou você é louco ou burro.
    https://drive.google.com/file/d/1KMxT1iHHH6VsytTIxy1t-UXxvrXY3cG1/view?usp=sharing

  4. Caro Boeotorum Brasiliensis. A tua frase “expectativa que os ditos líderes empresariais” deveria ter um grifo nos DITOS, pois na realidade líderes empresariais simplesmente não existem, eles na verdade são ávidos consumidores de duas porcarias que produziram a ignorância bovina dos mesmos, as palestras dos institutos liberais, que falam coisas que nem nas mecas do Imperialismo ninguém leva a sério os famosos pensamentos da pseudo escola austríaca, chamo pseudo porque nem um corpo de doutrina minimamente sustentável eles tem. Além disso eles consomem as baboseiras dos comentaristas “econômicos” da rede globo.
    Eles formaram uma BOLHA e não conseguem sair dela, vão para o matadouro que nem ovelhas sem mesmo saberem porque eles nem tem futuro, porém dentro de alguns tempos estarão dirigindo um UBER mas sendo ainda empreendedores.
    Na verdade a única coisa que salvará esses “líderes empresariais” será a morte.

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