Xadrez da entrada do país na era da ebulição, por Luis Nassif

Há dois anos os Bolsonaro vem armando suas milícias, desde as milícias propriamente ditas, aos clubes de tiro espalhados pelo país e os ruralistas. E tem se aproximado cada vez mais das bases das PMs e Forças Armadas

AFP PHOTO / Heuler Andrey

O país já entrou em um terreno movediço experimentado poucas vezes, a última das quais nos anos 80: a estagflação. Trata-se de um período em que convivem, simultaneamente, estagnação econômica e inflação.

Os motivos maiores estão nos desastres sucessivos da política econômica de Paulo Guedes.

O primeiro desastre foi no manejo irresponsável do câmbio. Apesar de sentado em reservas cambiais expressivas – herança dos governos petistas – permitiu explosões nas cotações, desarticulando toda a estrutura de preços internos.

Além disso, houve uma explosão nas cotações internacionais de commodities. Países responsáveis impuseram restrições às exportações, justamente para não contaminar os preços e a oferta interna. Guedes deixou o barco solto, sem se preocupar sequer em se armar de estoques reguladores.

No primeiro tempo do jogo, houve alta nos preços dos insumos que foi repassada para os preços de produtos – especialmente produtos populares, têxteis e alimentos. O IGP (Índice Geral de Preços) captou essa loucura, assim como o Índice de Preços ao Produtor. Os olhos da mídia, no entanto, estavam voltados apenas para o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Ampliado), no qual esses aumentos se diluíram no meio de outros indicadores, especialmente aqueles que continham maior componente de mão de obra.

Em um primeiro momento, a renda emergencial logrou assimilar os repasses de custos, impedindo uma queda mais aguda da economia.

Com o fim da renda emergencial, o impacto sobre as empresas – especialmente de bens de consumo popular – será imediato. Muitos setores estão pressionando pela alta de custos e não mais conseguindo repassar para a ponta.

A estagflação já se instalou na economia. E com tal rapidez que só será captada pelos indicadores divulgados em fevereiro e março.

Ontem, foi anunciado que o país oferecerá abertura total das obras públicas a competidores internacionais. Trata-se de um suicídio reiterado.

Peça 2 – a pandemia chegando na classe média

O segundo ponto de tensão é o Covid-19 chegando na classe média. A segunda onda tem avançado com uma virulência muito superior à primeira. A tragédia de Manaus, com doentes morrendo aos borbotões nos hospitais por falta de oxigênio, é apenas um ensaio do que virá pela frente.

Em São Paulo, os principais hospitais estão com mais de 90% de ocupação das UTIs. Ao lado do Rio de Janeiro, é a capital com maior índice de mortalidade (óbitos/casos), reflexo óbvio da falta de condições de atendimento. A média móvel de novos casos explodiu em quase todos os estados, conforme o gráfico abaixo, mostrando as variações em 14 dias.

E, em Brasilia, há uma campanha sistemática de Bolsonaro contra a vacina.

Peça 3 – o início da temporada de saques

O fim da renda emergencial, a explosão do desemprego e a falta de perspectivas em relação ao futuro próximo provocarão, inevitavelmente, explosões de ódio pelo país, com saques e outras manifestações.

Tem-se um sistema de informações completamente desvirtuados pelos grupos de WhatsApp e redes sociais, formando bolhas. Nas bolhas bolsonaristas, assim como nos EUA, há uma enorme dificuldade em identificar a responsabilidade de Bolsonaro nessa tragédia. É uma espécie de pastor Jim Jones – que, décadas atrás, levou dezenas de fiéis ao suicídio – em tempos de redes sociais.

Há dois anos os Bolsonaro vem armando suas milícias, desde as milícias propriamente ditas, os clubes de tiro espalhados pelo país e os ruralistas. E tem se aproximado cada vez mais das bases das polícias militares e das Forças Armadas.

 Ao mesmo tempo, vem consolidando sua base política, com a cooptação do Centrão.

Peça 4 – o sentido de urgência

Nem a visão do iceberg à frente parece sensibilizar a equipe de Paulo Guedes. Essa mesma indiferença afeta os partidos de oposição a Bolsonaro, incapazes de articular um pacto de transição minimamente viável.

Os próximos meses serão decisivos para a democracia brasileira.

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