Mandetta: Bolsonaro estava ciente da mortandade e não fez nada, preferiu ouvir “assessoria paralela”

"O que a gente fez na minha gestão foi o máximo de nossas possibilidade", diz o ex-ministro da Saúde em depoimento ao Senado

Jornal GGN – O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta disse à CPI da Covid, na manhã desta terça (4), que alertou “sistematicamente” ao presidente Jair Bolsonaro sobre o “perigo” de tomar decisões na contramão das recomendações médicas para o controle da pandemia do novo coronavírus, como o uso de máscara e o isolamento social. Bolsonaro recebeu, inclusive, dados de projeções sobre o número de mortes em três cenários (otimista, realista e pessimista) e sabia, portanto, que cerca de 180 mil brasileiros morreriam até o final de dezembro de 2020, se o governo não seguisse a ciência. Mais da metade dessas vidas poderiam ter sido poupadas se Bolsonaro tivesse ouvido, mas o presidente tinha “assessoramento paralelo” e preferiu conspirar com negacionistas e assessores que sequer faziam parte dos quadros do Ministério da Saúde.

Diante dos avisos, Bolsonaro não determinou nenhuma providência ao Ministério da Saúde. “Tenho a impressão de que embarcaram na teoria de que só iria morrer quem tinha de morrer, os mais idosos.” Frente aos números, Bolsonaro sempre respondia que “outras pessoas diziam outra coisa”. O presidente então apontava a cloroquina como “válvula de escape da crise”, um “tratamento precoce, mesmo sem comprovação cientifica”. “Lembro dele falar também que adotaria o confinamento vertical, algo que a gente não recomendava. Ele tinha provavelmente outra fonte que dava [essas informações sem embasamento científico] para ele, porque o Ministério da Saúde nunca deu uma recomendação que não fosse da cartilha do SUS e da OMS.”

Mandetta relatou ainda ter participado de reuniões com outros ministros e Bolsonaro para tratar da crise sanitária, na presença do “filho do presidente que é vereador, que ficava sentado tomando nota”, em alusão a Carlos Bolsonaro. Recordou do episódio em que foi convidado, de última hora, para uma reunião já armada com médicos que defendem a cloroquina. Chegando lá, avistou na mesa um “papel timbrado”, ou seja, a minuta de um documento oficial que decretaria uma mudança na bula do medicamento, para fazer constar indicação para tratar Covid-19, sem nenhuma comprovação científica. “Então ele tinha alguém que sugeria isso a ele”, comentou Mandetta. “Ele tinha um assessoramento paralelo. Eu imagino que ele construiu fora do Ministério da Saúde alguns aconselhamentos que o levavam para essas decisões que ele teve.”

ATAQUES À CHINA. Mandetta ainda citou outro filho de Bolsonaro, Eduardo, ao afirmar que, durante sua gestão na Saúde, teve muita dificuldade para superar as desavenças e ataques gratuítos à China, que é exportadora de insumos dos quais o Brasil é dependente até hoje. “Eu fui ao Palácio e eles estavam todos lá, os filhos, mais o assessor especial [Felipe Martins], e eu disse que precisava de uma reunião com embaixadores e ministro da Saúde da China. Eles disseram que ‘aqui não’.” Mandetta afirmou que atuou sozinho no contato com os chineses, na busca inicialmente por equipamentos de proteção individual.

Àquela altura, segundo Mandetta, nenhum laboratório no mundo havia procurado o Brasil para oferecer a encomenda de doses de vacinas contra Covid-19. Os laboratórios ainda desenvolviam suas fórmulas ou estavam em fases muito iniciais de testes em animais. Sem fazer crítica direta aos sucessores, Mandetta disse que sempre soube que a “porta de saída” da crise “era a vacina”. “Eu teria ido atrás delas. A saída era pela vacina.”

AUTO-ISENÇÃO. Se o depoimento de Mandetta fosse resumido em uma sentença sua, esta poderia ser: “O que a gente fez na minha gestão foi o máximo de nossas possibilidade”.

Ele repetiu incontáveis vezes que a tomada de decisões, enquanto ministro, sempre foi pautada por três pilares: defesa intransigente da vida, o uso do SUS como meio de superar a crise e a ciência como elemento definitivo nas ações adotadas pelo Ministério.

Quando questionado sobre deslizes de sua gestão, como o não fechamento das fronteiras, como forma de segurar a disseminação do vírus pelo País, Mandetta culpou a China e a OMS pelo atraso no alerta mundial.

Sobre a política nacional de testagem, Mandetta disse que chegou a encomendar 24 milhões de kit para iniciar o programa. Enfrentou dificuldade porque havia escassez de testes no mundo. A Fiocruz tinha produção, mas dependente de reagentes importantos e também em falta no mercado internacional. “Num primeiro momento, tinhamos no Ministério um caminho: testar, identificar e bloquear casos. Ampliar atendimento na rede hospitalar. A posteriori, nós vimos [o governo] parar muitas coisas e não colocar outras no lugar, e a testagem foi uma delas.”

DOLO. O ex-ministro relatou ainda que era “constrangedor” ter de explicar à imprensa, quase diariamente, que o Ministério tinha um caminho, enquanto Bolsonaro seguia por outro totalmente oposto, incentivando aglomerações, desautorizando a Saúde, brigando com governadores. Ele não soube apontar, contudo, se Bolsonaro agia com dolo. “Eles acreditam naquele caminho. Não é errado acreditar naquele caminho, mas as evidências científicas são a base para a tomada de decisão”, disse.

“Todas as vezes que a gente explicava [o que precisava ser feito, no mais das vezes ele compreendia, ele dizia ‘dê seguimento’. Eu achava que estava fazendo um bom trabalho. Mas passavam-se 2 ou 3 dias, ele voltava para aquela situação de quem não tinha compreendido e apostava naquela situação dúbia [aglomerando sem máscara]”, comentou.

Mandetta não soube avaliar, ainda, se a decisão da Suprema Corte, garantindo autonomia dos estados e municípios na gestão da pandemia, foi melhor ou não do que a possibilidade de ter centralizado as ações no governo federal. Para ele, a decisão foi correta e não esvaziou o papel do Ministério da Saúde ou da União, ao contrário do que prega Bolsonaro.

CLOROQUINA. Mandetta combateu em seu depoimento a recomendação da cloroquina em “tratamentos precoces”, parte do motivo de sua exoneração. Para o ex-ministro, os conselhos de medicina deveriam ter normalizado e parcificado a questão, mas deixaram que cada médico atuasse da maneira que achasse melhor, “cada cabeça, uma sentença”. O presidente da CPI, Omar Aziz, disse que os médicos que defenderam cloroquina serão alvos da CPI.

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