“Meu neto tá ali dentro da lama”, lamenta moradora de Córrego do Feijão (MG)

Carmem Vicentina Barbosa vive há 74 anos na pequena comunidade; atualmente convive com dor da perda do neto e sobrinhos

Foto Guilherme Weimann - do MAB

do MAB – Movimento dos Atingidos por Barragens

“Meu neto tá ali dentro da lama”, lamenta moradora de Córrego do Feijão (MG)

Texto e fotos: Guilherme Weimann

“É pra eu contar desde o início? Era um lugarzinho muito bom [Córrego do Feijão]. Eu sou nascida e criada aqui. E toda minha família também. Eu gosto muito, é minha terra. Inclusive eu lembro das primeiras pedras de minério que foram arrancadas daqui”, recorda Carmem Vicentina Barbosa, de 74 anos, moradora de Córrego do Feijão, povoado rural pertencente ao município de Brumadinho (MG).

Carmem, que hoje vive próximo ao centro da pequena comunidade, conta que antigamente o local em que morava era justamente onde foram extraídas as primeiras pedras de minério. “A gente morava lá, no lugar da mina. Meus bisavós falavam que aquele terreno era da gente, só que eles pensaram que aquilo não tinha valor, porque era só pedra. Eles começaram bem pertinho da casa onde a gente morava. Eles tiravam minério com pá, garfo e enchiam a caçamba”, relembra.

Uma das empresas que assumiu após a comprovação do tamanho da reserva que havia embaixo da terra foi a Ferteco Mineração, que construiu a barragem no ano de 1976. “Eles [Ferteco] ficaram vários anos ali, eu não sei informar quantos. E era uma empresa muito boa, muito boa mesmo. Inclusive, meu esposo é aposentado nela. Eu gostava muito dessa empresa. Mas aí a Ferteco foi vendida pra Vale”, complementa Carmem.

Tragédia anunciada

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A Vale comprou a Ferteco Mineração em 2001 e desde então passou a coordenar também os planos de segurança da barragem de rejeitos da mina. De acordo com Carmem, a mineradora se reuniu há alguns anos para anunciar que a barragem seria desativada, o que de fato ocorreu no ano de 2015.

“O problema foi que eles não deram nenhuma manutenção [na barragem]. E quem trabalhava já falava que a barragem tava perigosa, que tava trincando. Mas eles não tomaram providência nenhuma. Aí ela [a barragem] criou uma casa, que dava até pra andar em cima, mas no meio dela tava tudo tomado de água. Foi por isso que veio a desabar”, explica Carmem.

Para ela, o rompimento poderia ter sido evitado. “A Vale podia ter evitado isso. Se eles tivessem feito um dreno, para ir vazando aos poucos, tinha saído tudo isso daí. O problema são os chefes, os engenheiros que viram que isso ia acontecer e não tomaram a decisão antes. Muita gente que tava lá dentro disse que a Vale colocou um plástico cercando ela [a barragem]. Veja bem se um plástico ia resistir a uma coisa dessa aí. Eles sabiam”, opina.

Rompimento

“Eu tava sozinha aqui em casa, vendo jornal. Aí começou a bater demais os vidros, estavam para quebrar. Eu pensei: ‘aqui nunca teve tremor de terra, será que ela agora tá tremendo?’. Mas foi horrível, sabe? Eu olhei na estante e tava tudo certinho. Foi aí que eu soube que não era tremor de terra”, narra Carmem.

O rompimento ocorreu na hora do almoço do último dia 25 de janeiro, uma sexta-feira, e despejou em poucos minutos 13 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro na comunidade. “Minha vizinha veio pra me levar: ‘vamos correr pra cima que a barragem estourou’. Aí eu fui lá pra cima, na casa do meu menino. Mas se tivesse que pegar aqui [a lama], teria pegado, porque foi muito rápido. Isso que aconteceu no dia. Eu tava só aqui em casa”, relembra.

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A partir desse instante, Carmem passou a viver de esperança e desilusão. Isso porque até hoje seu neto está entre um dos desaparecidos. “A gente perdeu várias pessoas lá dentro. Meu neto tá ali dentro da lama. Meus sobrinhos também. E tem muito conhecido também, sabe? Que foi criado com a gente. Tá tudo ali dentro, naquele barro”.

Omissão

Pouco antes de iniciar a entrevista, Carmem recebeu um telefonema de representantes da Vale, o primeiro desde o rompimento da barragem. “A única coisa foi esse telefonema que eu recebi quando você chegou aqui. Eles me perguntaram se o médico tem vindo aqui em casa. Não, uai. Só vem repórter aqui. Mas a Vale nunca veio e médico nenhum também”.

Além disso, a atingida também reclama da falta de água. Desde o rompimento, o abastecimento é feito por caminhão-pipa na caixa d’água central da comunidade, mas não é indicada para o consumo humano. “O que vai ter que fazer urgente aqui é amenizar essa água nossa. Eu tô recebendo água potável aqui em casa, mas contaminada. Só a noite eles estão soltando água pra cá, mas eles já disseram que nem pra fazer comida ela serve. Tem duas filhas que trazem água mineral pra mim. Tá faltando água o dia inteiro, tem caído água só a noite. Agora mesmo não tem água”.

Apesar de todos esses problemas, a moradora de Córrego do Feijão não pretende deixar sua casa. “Eu não tenho a intenção de sair daqui, não. Mas daqui pra frente nunca vai ser como era. Nunca vamos esquecer. Mesmo que não tivesse parente, a gente nunca ia esquecer isso daqui, não. Deus é que vai dar força pra gente continuar”.

 

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