Contra a ameaça fascista, a Terra Plana de Geraldo Vandré, por Armando Coelho Neto

O espectro do fascismo ronda o pais. É preciso cantar Vandré, sem separar dor de amor, mas com a ternura da Canção de um breve amor.

Contra a ameaça fascista, a Terra Plana de Geraldo Vandré

por Armando Coelho Neto

Hoje, o poeta Geraldo Vandré completa 88 anos. Trato-o por poeta por haver notado desde o primeiro dia em que o conheci, que ele deixou escapar um discreto sorriso quando assim me conduzi. A escolha do tratamento deveu-se, então, ao fato de ser antecipadamente informado por minha esposa, de que ele costumava “rejeitar” a condição de mito e ou qualquer alusão ao passado.

À época, ele referia-se de forma vaga ao seu hino Caminhando (Pra não dizer que falei das flores), como “Uma certa canção popular”, expressão, aliás, que utilizei como título numa crônica que enviei para a Casa de Las Americas, uma organização cubana. Não sei se alguém, lá, se deu o trabalho de ler. Afinal, tanto quanto hoje, não sou mesmo quem para dizer algo sobre alguém de tamanha relevância.

Na crônica, eu falava de “Vandré, um homem em preto e branco”, pois foi assim que estava vestido na noite em que o conheci no Edifício Virginia, centro de São Paulo, cujos gestores de hoje, já o instaram a retirar de lá o seu acervo, neste ano. A pouca iluminação sugeria mesmo um homem em preto e branco, esboçando incômodo quanto ao passado de onde saiu sem nunca ter saído, mesmo sendo figura eterna.

Vandré referia-se a Vandré como uma criação. Riu um pouco dos festivais, mas estava mesmo interessado em mostrar uma peça que de sua autoria a qual tratava como livro. Acabei lendo e descobri que era na verdade uma peça jurídica em nome de Geraldo Pedrosa de Araújo Dias, a qual iniciava com a palavra NEGO, numa alusão à bandeira da Paraíba. Honrei o compromisso de não copiar.

Na peça jurídica, Vandré traçava um corolário como quem não aceitava perdão, anistia, indulto, pois, aceitar seria admitir algum crime. Além disso, abria complexas questões de ordem constitucional…. Aliás, ser impreciso sobre fatos e lendas a seu respeito virou marca do poeta – sobretudo falar de política, tortura, sua controvertida volta ao Brasil. E, não adiantava buscar cor naquele universo preto no branco.

O poeta Vandré foi meu vizinho por quase vinte anos, sempre causando surpresas, como numa madrugada que tocou a campainha de meu apartamento, quando eu com amigos cantávamos Caminhando. Para mim, tudo normal, mas para os presentes foi como uma alucinação, que se eternizou em nossas memórias como uma noite mágica. Entre perplexos e encantados, ele andou pela casa como uma entidade.

Vandré surgiu na madrugada como mito ou lenda, silenciou a barulhenta festa espalhando mistérios pelos cantos. Eis que que resolveu se apossar do violão, soltou acordes, mas nada cantou, até quebrar as cordas. Guardo como relíquia até hoje o violão com as cordas quebradas, na esperança de que um dia ele próprio possa trocá-la. Não sei se devo me alongar sobre aquela noite…

Driblou o tempo todo para não ser fotografado, de forma que, vestido todo de branco e sempre de costas, acabava por exibir constantemente o emblema da Esquadrilha da Fumaça, da Força Aérea Brasileira, instituição a qual homenageou com a belíssima canção Fabiana (FAB). “Desde os tempos distantes de criança, numa força sem par do pensamento… Vive em tuas asas, todo meu viver, meu sonhar marinho, todo amanhecer”. Paradoxal para muitos, coisas de poeta!

Noutro raro momento, Vandré convidou-me para assistir um show de Alaíde Costa, no então Teatro Crowne Plaza (Rua Frei Caneca – São Paulo/SP. Fechou em 2008). Ficou o tempo todo comigo, mas no meio do show, levantou e sumiu. De repente, Alaíde Costa começou a falar sobre ele, criando uma insólita sensação de passado e ausência, sobre alguém vivo, atual e presente. Não sei bem o que senti.

Em parceria com Vandré, Alaide Costa compôs Canção de um breve amor. Ao referir-se a ele, pairava no ar além do sobrosso da ditadura, mística de saudade, mas sobretudo ausência de alguém presente. Vandré estava de pé, isolado no canto esquerdo da plateia, como que a testemunhar como seria se entre nós não estivesse. Em clima de magia, silêncio, aplausos para os dois num momento único.

Ainda que autor de versos líricos que mal chegaram ao conhecimento público, Vandré se consagrou como um mito político, que de uma forma ou de outra, ele tenta negar. Mais, Caminhando e Disparada falam por si e tanto quanto ambas, o peso da canção Terra Plana, cuja introdução é abaixo transcrita permanecerão fazendo sombra a tudo o mais seu grande acervo esconde.

“Me pediram pra deixar de lado toda a tristeza. Pra só trazer alegrias e não falar de pobreza. E mais: Prometeram que se eu cantasse feliz, agradava com certeza. Eu, que não posso enganar, misturo tudo o que vivo. Canto sem competidor, partindo da natureza do lugar onde nasci. Faço versos com clareza, à rima, belo e tristeza. Não separo dor de amor. Deixo claro que a firmeza do meu canto vem da certeza que tenho, de que o poder que cresce sobre a pobreza e faz dos fracos riqueza foi que me fez cantador”. Aqui, terra plana tem outro sentido.

O espectro do fascismo ronda o pais. É preciso cantar Vandré, sem separar dor de amor, mas com a ternura da Canção de um breve amor. Vandré, eterno enquanto foi breve, é “como a perdida flor que longe floresceu, e o homem não colheu pra o seu amor…”. Obrigado, Vandré, feliz aniversário!

Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo

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Armando Coelho Neto

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