Elis e o último show Saudade do Brasil, no TUCA, por Fernando J.

Elis e o ultimo show Saudade do Brasil, no TUCA

por Fernando J.

Comentário ao post Xadrez de como os músicos vieram salvar a utopia Brasil, por Luis Nassif

Revirando o HD da memória, só pode ter sido no segundo semestre de 1980, visto que no primeiro semestre morei no interior da Bahia e o LP e o show são desse ano. O show Saudade do Brasil estava já no último dia, no TUCA, um domingo, após algumas semanas em cartaz.

O táxi me deixou na esquina da Monte Alegre, quando desci reparei em uma menina negra, muito magra, gorro na cabeça (estava frio) que mascaravam suas feições, vendendo flores no cruzamento. Idade indefinida, não era nova, talvez entre 30 e 40 anos. Ou talvez fosse nova e a vida difícil lhe desse feições de mais velha. 

Comprei o ingresso na porta (naquele tempo isso era possível), pouco me importando com o lugar no teatro, visto que aos 24 anos sentava nos shows invariavelmente no chão, exatamente embaixo do palco (sim, isso também era possível naquele tempo).

Passa das 21 horas e nada, o show está atrasado. Súbito um tropel de gente entrando no teatro. Como não havia público suficiente, pouco mais da metade do teatro e se tratava do último dia da temporada, liberaram a bilheteria para quem quisesse entrar. E lá apareceu esbaforida a menina das flores, com as flores nas mãos e tudo e sentou-se também no chão, próximo de onde eu estava. Acho que ela não acreditava no que estava acontecendo, para quem tinha ido até ao TUCA a trabalho.

O show era emocionante do primeiro ao último minuto, longo, pouco mais de duas horas. A trupe de bailarinos dava um toque especial. Estava presenciando aquela maravilha pela segunda vez.  

Findo o show, a cena inesquecível. Com o teatro já praticamente vazio, a produção já começando a desmontar os equipamentos a menina continuava sentada no chão, em transe. Então levantou-se, caminhou dois passos e depositou todas as flores que tinha nas mãos chão do palco, oferecendo à Elis. Era sua retribuição ao que tinha acabado de presenciar, não poderia pagar aquilo com dinheiro, mas com as flores que vendia no semáforo. 

Voltou e sentou-se no mesmo lugar, cabeça apoiada nas mãos. Disfarcei, levantei e sentei-me na primeira fila para acompanhar o desfecho daquela cena tocante. Após algum tempo, alguém da produção veio até o palco e recolheu as flores, levando, quem sabe, para o camarim. Só então ela se levantou e foi embora, dando a missão por cumprida. 

Naquele tempo, segundo semestre de 1980, sonhávamos que bastaria o fim da ditadura e o restabelecimento da democracia para que a utopia Brasil se realizasse. 

 

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3 comentários

  1. É por causa de textos como este

    que ainda consigo ler o GGN em tempos de “Brasil em processo de destruição”.

    Até a leitura da Carta Capital me é difícl.

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