Irmão Sol, irmã Lua – Final, por Izaías Almada

Não muito longe dali, os profetas de Aleijadinho sorriam, na mudez da sua natureza, o sorriso cúmplice dos alcoviteiros.

Irmão Sol, irmã Lua – Final – (*)

por Izaías Almada

O quartinho acanhado e cheirando a mofo que de tempos em tempos vem lhes servindo de ninho, recebeu hoje decoração bem mais apropriada, não faltando – inclusive – colocado que foi sobre a mesinha de cabeceira, uma curiosa reprodução renascentista de um hermafrodita sendo masturbado por dois serafins. Também uma pintura de Joana D’Arc nua entre as chamas, de pernas abertas; duas grandes velas em forma de falo, uma vermelha e outra preta, e um relho medieval em tiras de couro, tomado emprestado a um padre amigo de Frederico, um desses raríssimos colecionadores de relíquias da Inquisição espanhola. E mais: óleos, pomadas, unguentos, licores, anéis, pós afrodisíacos, gargantilhas de escravos, vespas e cordas, completam o conjunto de preparativos.

“Há dias em que tenho a sensação de que vou enlouquecer, minha irmã. Tem sido cada vez mais difícil esperar toda uma semana para esses nossos encontros. Nos momentos mais impróprios dos meus afazeres de profissão, e que a minha Júlia pode muito bem imaginar quais sejam, agrada-me relembrar pormenores do seu corpo, por vezes os mais íntimos. O prazer que me dá sentir sua pele arrepiar quando roço por essas partes com a ponta faminta da minha língua. O descompasso ritmado dos seus muitos gritos e gemidos. Nos humores que gostosamente umedecem a minha boca sabendo a temperos acres ou a sal marinho…”

Frederico foi obrigado a interromper a fala para segurar com valentia um grito entre dentes: a partir daquele momento não haveria mais limites, com destaque particular para os insultos e as blasfêmias, prazeres especiais para aqueles amantes também especiais… Quarta-feira santa… Ambos à beira do desmaio… Glória in excelsis! Bach, Vivaldi, Corelli, nem mesmo os salmos e os cantos gregorianos seriam capazes de cantar tanta beleza. Desde que fui expulso do paraíso não me deliciava tanto.

Não muito longe dali, os profetas de Aleijadinho sorriam, na mudez da sua natureza, o sorriso cúmplice dos alcoviteiros. Perdoai-me, mas esses dois corpos nus, despidos de suas santas indumentárias, quase me fizeram perder o juízo, eu que nunca o tive. Rolaram pelo chão de madeira, machucaram-se, deixando nódoas negras na alvura de seus corpos e sangue derramado sobre o linho da cama. Frederico e Júlia. Júlia e Frederico.

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Agora descansam. O silêncio do quarto remeteu-os de volta à realidade. Não há para eles qualquer possibilidade de perdão. Não o digo por mim, mas por Aquele que dizem ter o poder sobre todas as coisas e todos os homens. Por instantes suas almas afligiram-se e tocaram de perto os meus domínios. Gostaria de ajudá-los, mas a tentação de não o fazer é própria da minha natureza. Desculpai-me.

Por fim ajoelham-se em contrição. De mãos dadas e olhos em chamas repetem sua nova oração: “iaP osson euq siatse son céuc, odaciftnaS ajes o ossoV emon, missa na arret omoc on uéC”… Feito!…  Era esse o sinal pelo qual eu esperava.

Posso agora despedir-me de todos vós. Contar a singela história desses dois irmãozinhos impunha-se-me há tempos. Meu irmão sol, minha irmã lua. Levaram anos à minha procura e resolvi aproximá-los numa procissão de Corpus Christi. Ele, de Mariana. Ela, de Ouro Preto. Paixão à primeira vista, embora não soubessem… O enxofre exalava o seu perfume. Sofreram como dois danados. Flagelaram-se, mas a paixão é mais forte que a fé.

Os corpos foram encontrados somente no domingo de Ramos. Um sobre o outro, formando uma cruz de cabeça para baixo. Vestidos em seus hábitos. Toda a história foi abafada, como podeis imaginar, mas se tiverdes paciência e curiosidade para tanto, podereis muito bem encontrá-la na livraria de certo cônego…

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(*) – Conto do meu livro “Memórias Emotivas” / Ed; Mania de Livro.

Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro. Nascido em BH, em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.

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