Literatura para os imprescindíveis, por Urariano Mota

Literatura para os imprescindíveis, por Urariano Mota

Uma reportagem no Diário de Pernambuco, sob o título de “Projeto aproxima alunos da literatura pernambucana”, me acordou para uma experiência vivida em escola pública, na  Escola Caio Pereira, no Alto José Bonifácio, no Recife.  

No texto do Diário de Pernambuco, lemos:

“O Projeto Outras Palavras já visitou 223 escolas estaduais, levando autores para conversas e doando livros

Para aproximar estudantes do ensino médio da produção literária local, foi criado o projeto Outras Palavras. Ontem, a ação levou o contista Luiz Coutinho, autor de Nós, os bichos, à Escola de Referência em Ensino Médio Diario de Pernambuco, no Engenho do Meio. Capitaneado pela Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), o programa é fruto da inquietação da vice-presidente do órgão, Antonieta Trindade, após 32 anos de trabalho em escolas estaduais.

‘Eu tinha consciência das limitações da escola no acesso à cultura. O nosso objetivo é garantir a oportunidade para a juventude ampliar o conhecimento e o interesse pela leitura’, detalhou Antonieta”. A reportagem pode ser lida aqui  

http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/vida-urbana/2017/04/05/interna_vidaurbana,697631/projeto-aproxima-alunos-da-literatura-pernambucana.shtml

Então me voltou à lembrança uma tarde de literatura em escola pública do Recife.

Em 24 de setembro de 2013, estive na Escola Caio Pereira para uma palestra cujo tema era “A importância da literatura para a vida”.

O encontro havia sido um convite dos professores Zanoni Carvalho e Tereza Cristina, pessoas que são mais que profissionais do ensino, porque são educadores. 

O público eram alunos do ensino médio da Caio Pereira, a escola pública do Alto José Bonifácio, um morro no que chamam de periferia do Recife. E nem imaginam como são necessários e insubstituíveis esses periféricos. Sem eles o que seria dos centrais que nada sabem do mundo real da maioria?

Lembro que a palestra foi uma conversa entre iguais, em que o “palestrante” era apenas um pouquinho mais velho. Na verdade, foi uma honra e uma emoção para este escritor. Quando acabou a “palestra” sobre o lugar fundamental da literatura na vida de todo homem pleno, chegou a vez das perguntas. Silêncio. E eu:

– Perguntem o que quiserem. Se eu não souber responder, respondo que não sei. Qualquer coisa, perguntem – apelei.

Para quê? Eis que uma jovem morena, magrinha, pergunta:

– Professor, o senhor acha que a literatura é importante pra nós?

– Nós quem? por favor, explique.

– Para nós, daqui desta escola.  

Aquilo me deu uma dor e um fogo por dentro. Ela queria dizer, para nós seres marginalizados, que temos de, primeiro, comer, segundo, vestir, terceiro, habitar, quarto, não ser humilhados, para que serve a literatura, professor? Então eu lhe disse, até onde me lembro:

– Minha filha, a literatura é importante para todos. Mas sabe para quem ela é mais necessária? Sabe? Pra vocês, alunos de escola pública. Pra vocês, que se encontram à margem dos bens materiais. Conhecem a história do patinho feio, conhecem? Então, você são os cisnes mais belos que há, desprezados pela sociedade dos que se acham  bem nascidos. Sabem quem mais precisa da literatura? É aquela jovem que sobra na festa, com quem ninguém quer dançar. As bonitas, as muito bonitas, são as queridas, todos querem. Aquelas não desejadas são as que a literatura chama. Aqueles, que não encontram um lugar no mundo, são os eleitos para o amor das letras. Os burgueses já têm o seu lugar estabelecido. Para eles, para que serve a  literatura? A literatura é mais importante, indispensável, pra vocês. Está nas suas mãos a revolta contra este mundo. A literatura é que vai lhes dar a consciência da safadeza e do desconcerto.  

Isso eu lembro, não sei se respondi com essas palavras, mas o espirito que ainda sinto pulsar em mim daquele momento foi o que está acima. Não está documentado. Mas tenho da ocasião dois documentos. Houve dois presentes valiosos, depois do encontro recebi duas mensagens. A primeira, por email. A segunda, um bilhetinho. 

Este foi o email, da professora Tereza Cristina para o professor Zanoni Carvalho: 

“Meu caro Zanoni

Estou muito feliz! 

O escritor Urariano Mota fez uma palestra com um discurso adequado aos estudantes, apresentando-lhes a melhor face da literatura.
Diante da tarde inesquecível, do ponto de vista profissional e pessoal, que passei hoje, sou-lhe eternamente agradecida. Se não fosse por sua generosidade, consciência pedagógica e compromisso com os meninos e meninas filhos do Alto José Bonifácio, o escritor Urariano Mota não estaria nessa tarde de setembro, de forma brilhante, dizendo para aqueles jovens que existem luzes além das do crack e das bolsas governamentais!
Um abraço, meu amigo!
TEREZA CRISTINA”

Agora, o bilhetinho, que me foi entregue dobrado, em silêncio, pela educadora Tereza Cristina. Ao me entregar o papelzinho, ela se fez portadora do sentimento de uma aluna. As palavras seguintes são um prêmio para este romancista. E uma prova da delicadeza imensa de uma jovem do povo: 
 

“Aluna: K…..
Série: 2º. C

Eu adorei ter te conhecido, gostei muito de ter passado uma tarde te escutando e te admirando. 
 

Sinceramente eu gostei muito de ter você como um amigo, nem que seja só por hoje… 
 

Estou feliz de estar aqui, nesse momento, vivendo essa experiência maravilhosa… OBRIGADA POR TER VINDO AQUI HOJE !!” 

Agradecimentos assim expressam prêmios que não se medem em dinheiro. São de outro valor,  mais eternos que diamantes.  Quando acabar, ainda falam que “a poesia não dá camisa a ninguém”. Ela dá mais: dá um universo inteiro.  

 

*Vermelho http://www.vermelho.org.br/coluna.php?id_coluna_texto=8369&id_coluna=93

 

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