Pensar as grades pode ser tão inútil como escrever uma crônica sobre, por Maíra Vasconcelos

Mas a grade pensada como metáfora é apenas uma situação relativamente cômoda, como também humana demais. Nós, os acomodados fundamentais que pensamos metáforas.

Pensar as grades pode ser tão inútil como escrever uma crônica sobre

por Maíra Vasconcelos

Para que o espanto tenha algum sentido seria necessário transformá-lo. Como se sabe, espanto é matéria-prima. Como se o espanto justificasse escrever uma crônica. Por exemplo, lembro-me de que as grades das gaiolas de pássaros eram para mim, quando menina, apenas um signo de interrogação. Pela flexibilidade que guarda toda pergunta, não julgava que aquelas grades fossem algo espantosamente bom ou ruim. Como quem pergunta, o que faria então esse pássaro se estivesse fora das grades.

Mas a grade pensada como metáfora é apenas uma situação relativamente cômoda, como também humana demais. Nós, os acomodados fundamentais que pensamos metáforas. Mas não é bem assim. Pensar as grades pode ser apenas algo tão inútil como escrever uma crônica sobre. Retirar a grade do cotidiano. Esquecê-la como material ferroso que compõe diferentes tipos de estruturas físicas. E talvez isso seja como escrever o que nos prende. Definir a grade que rodeia, aprisiona ou protege vai sempre depender de quem fala, vê e se relaciona com as grades. Cada um verá uma grade diferente onde, finalmente, não há mais do que uma grade. Se eu lembrar sempre das grades das gaiolas dos pássaros pode ser que assim esqueça outras grades.

Mas falo das grades porque, outro dia, elas, as grades, foram capa de jornal. Claro que não exatamente as grades, mas o que acontece atrás das grades de uma penitenciária em Formiga, no interior de Minas Gerais. O problema é o uso da grade, e não a grade. Assim como a televisão, o celular e etcétera. Mais uma vez, o problema são as mãos e os modos como as mãos usam os objetos e não os objetos em si. Preferiria falar de flores, mas os ferros que retiramos dos morros de minério têm sido protagonistas. O que fazemos com o ferrum. Drummond foi à raiz, viu a montanha diminuir na porta de sua casa, saiu e denunciou a extração. Não adiantou. Mataram duas cidades mineiras e o Rio Doce num espaço de cinco anos.

Às vezes, importa menos o texto que se escreve, do que tentar falar, nesse caso, sobre as grades. E isso é muito pessoal também. Porque parece que se as grades não forem pessoalmente vistas, essas que podem circundar qualquer um de nós, os torturadores que cuidam das grades de uma penitenciária poderão ser sempre ignorados. A grade é pessoal, como quem diz: a grade do outro é também a minha grade. Porque a minha grade pode ser as palavras que busco comunicar para me libertar de mim mesma. A grade do outro é a nossa falta de liberdade. As grades padecem de alguma ignorância e boa rentabilidade. De alguma segurança rápida e também ilusória. As grades têm vendido a ilusão de se poder apreciar o canto de um pássaro em casa. As grades têm guardado a ilusão de que se vive seguro em casa, porque seria possível prender alguma coisa muito prejudicial ao convívio social. Como se ficasse preso ali mesmo, nas grades, todas as misérias e também as dos facínoras. 

Maíra Vasconcelos nascida em Belo Horizonte, mora em Buenos Aires. Escreve crônicas no Jornal GGN, desde 2014, há quase dez anos escreve Os diários de Bárbara. Autora do livro Um quarto que fala. São Paulo: Urutau, 2018.

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