Exposição no Palácio do Planalto mostra fotografias de trabalhadores nos anos 1940

Brasília – Em 1º de maio de 1943, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), que regulamentou as normas trabalhistas, entrava em vigor no país, obrigando todos os brasileiros a ter a Carteira de Trabalho como documento exigido para o exercício da profissão.

Foi a partir dessa necessidade que o mineiro Assis Horta, hoje com 95 anos, passou a fotografar operários e pessoas à procura de emprego em Diamantina e região. Seu Assis faz questão de dizer que, entre retratos e outras fotografias, tem mais de 47 mil registros. “Tenho guardado o nome de todos [os fotografados], nunca joguei nenhum negativo fora”, diz sobre as fotografias 3×4 que se orgulha de ter tirado.

Parte desse acervo pode ser vista no Palácio do Planalto, na exposição “A Democratização do Retrato Fotográfico Através da CLT”. Horta declarou ainda que começou a fotografar a partir dos 9 anos de idade. A longa trajetória envolve registros de paisagens mineiras, quando colaborador do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), e de políticos como Tancredo Neves e Juscelino Kubitschek.

“Quando o Juscelino ia lá, dizia ‘Ah, um udenista [integrante da UDN, partido político que foi extinto pela ditadura militar], tá aqui’”, lembra. JK era do PSD e seu Assis presidia, em Diamantina, o partido da oposição na época, a UDN. “Ele gostava tanto dos meus retratos. Toda época em que foi a Diamantina eu tenho fotos dele”, disse, acrescentando que guarda os cerca de 200 retratos que tem do ex-presidente, mas que nunca fez cópia. “Está lá, o negativo, na gaveta, o nome e a data de todo retrato que eu tirei”, ressaltou.

O interesse pela exposição é resultado da pesquisa de Guilherme Horta, curador da mostra, que fazia uma retrospectiva sobre a vida de seu Assis. “O que me despertou foi tentar entender aquele volume todo de retratos 3×4 feitos todos com a mesma data, eram milhares. E aí que virou esse link entre o uso do retrato depois da CLT, quando todo trabalhador teve que sentar obrigatoriamente de frente para uma câmera fotográfica para tirar o seu retrato”, disse.

“Ele foi não apenas um fotógrafo que trabalhava tirando fotos para a Carteira de Trabalho, mas também fazendo um retrato posado de pessoas e famílias que queriam ter também um retrato para álbum de família ou para pendurar na parede”, declarou Ângelo Oswaldo de Araújo, presidente do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram).

Quando passou a fotografar os trabalhadores, seu Assis os recebia no Photo Assis. Ele também era convidado para trabalhar nas fábricas e comércios, e chegava a emprestar peças como paletó, gravata e chapéu aos clientes. Às vezes, porém, o vestuário mudava: seu Assis aponta para uma foto em que um professor de ginástica fez questão de tirar foto com uma camiseta cavada.

“Eu chamava a atenção deles, ia acertando o rosto. Depois, falava que era só um clique, e quando eles olhavam, ficavam quietos, eu batia a foto”, disse seu Assis. “Muitos voltavam. Quando iam sozinhos, levavam [depois] a família. O pai levava a mulher e os filhos”, completou.

De acordo com o presidente do Ibram, Assis Horta soube fazer seu trabalho “com um olhar extremamente sensível, porque acabou captando a própria alma do próprio povo brasileiro. Ele faz um registro do olhar do brasileiro de 70 anos, 80 anos atrás. Com isso, ele criou não só um documento extraordinário sobre o povo brasileiro, mas também uma obra de arte”, ressaltou.

Segundo o fotógrafo, além de fotografar os amigos, também registrou a atividade dos trabalhadores em Diamantina. “Um garimpeiro me deu a aliança de casamento, o ouro para fazer a aliança. É esta aqui”, mostrou, explicando que são sete anéis juntos, representando os 71 anos de casamento com a esposa Maria, falecida há um ano.

“É muito bom expor aqui. Eu acho isso um valor muito grande que estão dando à minha fotografia. Tem muito valor isso”, declarou Assis Horta. Os cerca de 200 retratos feitos por ele podem ser vistos no Palácio do Planalto de segunda-feira a sexta-feira, das 9h às 18h, e aos domingos das 9h às 14h. A mostra fica aberta à visitação pública até 8 de janeiro de 2014.

Edição: Aécio Amado

0 Comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Seja um apoiador