A ética protestante e o espírito do bolsonarismo, por Vitor Fernandes

Há um foco nessa teologia, na guerra espiritual entre bem e o mal, representados por Deus e o Diabo. O Diabo precisa ser vencido, expulso, eliminado, para que cesse o mal.

A ética protestante e o espírito do bolsonarismo

por Vitor Fernandes

Max Weber, sociólogo alemão, em seu clássico “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, a que nosso título faz referência, defendia que a ética protestante de culto ao trabalho e negação dos prazeres mundanos, ajudou a criar a lógica de acumulação capitalista, mesmo sem ter essa intenção.

As religiões, como fenômenos sociais dinâmicos, se “mundanizam” se adaptam ao mundo concreto e o expressam.

Fenômenos como “traficantes evangélicos”, “milicianos evangélicos”, etc. que comumente rechaçamos como “falsos cristãos”, precisam ser analisados com mais cuidado, sob o risco de não compreendermos um fenômeno tão complexo, com a simples negação de suas conexões sociais.

De maneira geral, boa parte do cristianismo protestante e particularmente o neopentecostal tem seu discurso focado mais no antigo que no novo testamento.

 Os ensinamentos e valores de Jesus, do Novo Testamento, como solidariedade, fraternidade, perdão, etc. ficam, na prática, em segundo plano.

A maioria das vezes em que esses grupos citam a bíblia, é o velho testamento, com um Deus mau, vingativo, vaidoso, que inclusive matava seus inimigos, etc.

A comemoração por parte de alguns cristãos evangélicos da morte do querido comediante Paulo Gustavo, que comoveu o Brasil, está inserida nessa lógica. Desobedeceu a Deus (do velho testamento)? Desobedeceu a Bíblia (velho testamento. Sempre ele…) ao ser gay? Então que sinta a fúria de Deus!

Há um foco nessa teologia, na guerra espiritual entre bem e o mal, representados por Deus e o Diabo. O Diabo precisa ser vencido, expulso, eliminado, para que cesse o mal.

Essa teologia se associa a várias características de nossa sociedade.

Em nossa História, com nossos 350 anos de escravidão, havia, para as elites, o bom negro, que desejava se “europeizar”, civilizar, e o mau negro, largado, anômalo, possivelmente criminoso.

Esse “bom negro” se transformou no bom pobre, honesto, trabalhador e o “mau pobre”, no “delinquente” conforme o sociólogo Jessé Souza[i].

Os evangélicos neopentecostais são o grupo religioso mais pobre de nossa sociedade. É majoritariamente negro, como são, de maneira geral, os pobres.

O bom pobre de hoje é o evangélico e o mau pobre é o não convertido, o “largado”, o “do mundo”.

Os programas “pinga sangue”, como os de “Datena”, “Siqueira júnior”, etc. que mostram crimes e mortes o tempo todo, trazem pânico à sociedade. E eles são destinados principalmente aos pobres. A classe média intelectualizada tem horror a esses programas.

 O “mau pobre”, não convertido, animalizado, possivelmente delinquente, não tem valor. Ele representa o mal, o crime, os vícios, o demônio, para o bom pobre, evangélico em sua maioria, igualmente negro (a) em sua maioria.

E o que fazemos com o mal numa religiosidade centrada na guerra espiritual entre Deus e o Diabo? Negociamos com o mal com o Diabo? Oferecemos a ele direitos humanos? Julgamento justo? Não! O mal tem de ser eliminado! Executado! Assim como o “mau pobre”, delinquente, portador do mal, do demônio.

Os programas “pinga sangue” ensinaram o “bom pobre” (evangélico em sua maioria) a odiar o “mau pobre” e desejar sua execução, estão diretamente associados ao fortalecimento do discurso do “bandido bom é bandido morto”.

Lógico que esses programas não inventaram esse discurso, mas ajudaram a propagar e dar a eles outra dimensão.

Outro fator associado a isso é o crescente “casamento” dos evangélicos com o militarismo.

É visível a busca dos membros desses grupos religiosos por cargos militares. E não se trata apenas da busca por um emprego público ou um emprego de prestígio social (que é altíssimo entre os pobres). Essas pessoas não buscam ser professores ou enfermeiros com o mesmo ímpeto.

É uma identificação com um discurso de ordem, de limpeza moral, de imposição de valores, de regramento do mundo e de eliminação do inimigo. Isso identifica o discurso de guerra espiritual com guerra mundana (militares).

Policiais do Bope (tropa de elite da PMERJ, que tem uma caveira como símbolo e sabidamente entra nas favelas para “deixar corpo no chão”, como eles próprios dizem) criaram uma Igreja evangélica na sede do batalhão (algo ilegal, inconstitucional, em um Estado laico, mas quem vai se opor nesse contexto histórico?). Você acha isso contraditório?

Muitos policiais do Bope, cujo trabalho é matar o “mau pobre” delinquente, oram e citam versículos bíblicos antes de ir à guerra, fazer seu trabalho de limpeza social, de extirpação do mal, do demônio.

Em uma reportagem de Anna Virginia Balloussier[ii], um dos mentores da igreja, um subtenente, exibe na tela do celular versículos de uma Bíblia on-line: “Homem de grande ira tem de sofrer o dano; porque, se tu o livrares, virás ainda a fazê-lo de novo. (Provérbios 19:19)” que faz referência obviamente ao velho testamento.

Há um casamento entre o discurso religioso de guerra espiritual, com o discurso mundano do “bandido bom é bandido morto” e quem melhor para limpar o mundo do mal senão os militares?

O bom pobre é “cidadão de bem”, que votou, em grande parte em Bolsonaro em 2018.

Bolsonaro sempre fez discurso fascista, militarista, conservador, machista, homofóbico, etc. Exaltou torturadores e os homenageou.

Quem é sua principal sustentação política? Os evangélicos! Há contradição nisso? Na prática, não. O velho testamento, aquele que é mais citado por esses grupos religiosos, principalmente na discussão sobre costumes e os temas da atualidade é, tal qual Bolsonaro, conservador, machista, homofóbico e apresenta um Deus mau e vingativo, que matou muitos que se opuseram a ele.

Bolsonaro e seu discurso fascista representam sim, uma parte considerável dos evangélicos do Brasil e é por isso que ele tem nos evangélicos sua principal sustentação.

Parece contraditório se você considerar o cristianismo, (particularmente o protestantismo) utópico, aquele de Jesus e sua bondade, mas se você considerar o cristianismo real, a sua história, aquele inserido no mundo real e ver como os “cidadãos de bem” de fato, agem, talvez você perceba que não há tanta contradição assim entre Bolsonaro, o seu fascismo e sua base de apoio, predominantemente evangélica e os valores que de fato defendem.


[i] SOUZA, Jessé. A elite do atraso, p. 79

[ii] Jornal Folha de S. Paulo. Disponível em? https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/07/1901929-bope-abre-templo-evangelico-e-utiliza-versiculos-para-justificar-letalidade.shtml . Consulta em 12/03/2021

Este artigo não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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